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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

PARA ALÉM DO ALÉM...




Para além do além está o Além
Para além de mim estou Eu
Também


ESPECTRO DO PORVIR




Noite Escura
Os sentidos estremecem como canas ao vento Sul
O pensamento aquieta-se na fúria do vendaval

No mais cavado de mim
Um mundo errante por descobrir
Espectro do porvir


-------------------------------------------




Tem mil e um nomes
De todos o último aclamo –
---------------------


A HISTÓRIA DA FLOR DE BUDA





A história da flor de Buda –
Quantas flores já eu ergui e
Como Ananda nada compreendi










CORPO-UNIVERSO




O meu corpo é o universo
Sou corpo-universo

Amo os outros como sendo eu mesmo
Agindo sempre como para mim procedo


SINFONIA FANTÁSTICA




Ouvem-se os grilos em Sinfonia Fantástica
No fontanário deserto

Cigarras em acompanhamento harmónico

O relógio da torre toca a Ave-Maria

Passos
O Pedro
(um dos pobres deficientes da aldeia)
Mira-me com ar espantadiço

A Capela do Santo Cristo de granito amarelo milenar
Ilumina-se
No silêncio o tique-taque do relógio marca compasso binário
As nossas respirações
A comunhão na paz sem orações
Palavras ou emoções

Serenidade de luz amarela
À porta da Igreja matriz


O REINO E OS SETE CÉUS







Quando chegarei aos Sete Céus
Quando atingirei o Reino
Quando deixarei de ser eu?




O PIÃO







Um pião
Rodopia

Um outro pião remoinha
Veloz no chão

O chão móvel
O pião imóvel




AS DEZ MIL COISAS




Aquele que persegue o desejo de tocar o manto de Deus nunca o tocará
Por ser desejo
E o desejo muro fortificado
Quando as dez mil coisas já não exercerem nenhum poder
Voaremos em liberdade


CASAS AMARELAS







Decidi pintar a minha casa de amarelo-mostarda
Por toda a parte vejo
O que nunca tinha visto
Casas amarelas
Dezenas
Centenas de casas amarelas

Desisto






QUEM AMA NÃO PECA




Na Grande Via não há que evitar escolher
Há que trocar
Seja o que for
Pelo Amor

Onde não há nem mal nem bem
Porque quem ama
Não erra
Não peca
Não engana ninguém


NÃO ENTENDO




Desde manhã tão activo
Não entendo –
Nunca estive tão passivo


UNO NO MÚLTIPLO E MÚLTIPLO NO UNO





A Ele nada lhe falta
Nada está fora Dele
Não tem metade nem centro
Reino sempre inteiro
Uno no múltiplo
Múltiplo no Uno
Sem apegos sem aversões


O EREMITA




O eremita
Deitara-se
Em enxerga de espinhos
Sem desejos
Sem dor

Feliz
Rejubilou
Nascera o Vazio
Que não era vácuo
Era Amor


DEIXARA DE PROCURAR A VERDADE




Deixara de procurar a Verdade
Seus olhos cristalinos apontavam o horizonte
Deslumbrados

Buscava a falsidade e a não-verdade
A sua mente era um espelho
O seu espírito não-dependente


A AUSÊNCIA DE CONFLITO




Olha para a aparência
Das coisas em mutação
E pacificado
Penetra a sua essência

Na ausência de conflito
Germina a Paz


APETITE E FASTIO




Tinha
Como doença
Da alma
O apetite

E do corpo
Alquebrado
E frio
O fastio



CAMINHAR NA VIA




Quem quiser caminhar na Via
Não esteja nem a favor
Nem contra ela

E quem no seu trilho alguém me vir
Que diga –
Como vai bem nela
Que Ela parece ele
E ele se parece com Ela


VAZIO E FORMA




O Vazio é a forma
A forma o Vazio

Não há contradição ou conflito
Na sensação do Eterno


VENHA O QUE VIER




Sim àquilo que é –
Seja feita a Tua vontade
Seja mal ou bem
Nem contra nem a favor
Venha o que vier
O que for
E o Reino dos Céus
Espaço infinito
Nascerá em ti
Imenso oceano de Amor
Na saúde da Alma


CÉU E TERRA




Céu e Terra –
A Terra aqui defronte
Seca transparente
Ilha límpida do Universo
E o Céu
Lágrima de selvagem fogo
Diamante
Dentro de mim


PECADO ORIGINAL




A serpente deixa a pele
No carreiro pedregoso
Carregando consigo o pecado original




A FOME DO CAVADOR




Os homens caminhavam pesadamente para os campos descarnados Do nascer ao pôr-do-sol erguiam pesadas enxadas sulcando a terra mãe impiedosamente
Chegada a noite adormeciam aconchegados por um caldo quente
Tudo conformado ao poder e força dos braços tisnados Até a miserável refeição
Na televisão ainda a preto e branco intrigas e ardis políticos Mentiras e jogos de poder Justificação deplorável da fome do cavador
E eles não querem saber Dói-lhes o corpo
Apenas adormecer Com a fome de hoje
Amanhã se verá
O que tiver de ser será


LIANA




A liana abraça
A árvore centenária –
Um braço seco chora


DESPERTAR O ANELO




O corpo embrulhara-se nas ondas da costa donde se avistava uma casca de noz Havia mais banhistas praieiros do bronze da aparência Uma velha muito velha enrugada como ensombro ancestral toda vestida com chapéu de aço e aspeito de quem está prestes a afogar-se nas areias letíferas da arriba ouvia em rádio de mão o enredo de seu sonho asfixiado em alheia novela
Num salto ergue-se um corpo majestoso como esmeralda encastrada em rubi a vagar no espaço Seios descobertos com gotas cristalinas Ventre arredondado como arvoredo cuidado Cabelos ondeados à forma do prazer ajustados
O sorriso aberto de quem sabe despertar o anelo


DEUS NAS PANELAS DA COZINHA




Tanto tempo a procurar Deus
Busca sem fim na vereda vazia

Afinal
Teresa
Em Ávila
Estava certa

Deus
Nas panelas da cozinha


A BARCA VERMELHA




Uma barca vermelha
No Golfo quente
Espalha flores de primavera
Por todos os que na profundidade
Em descanso sepultados
Têm seus nomes silenciosos
Em algas gravados




APEGO/AVERSÃO




Apego
Aversão
Dualidade e conflito

Se o pensamento morrer
Há Vida
Se o pensamento viver
Há morte

Quem é não tem
Quem tem não é


AUSCHWITZ HIROSHIMA NAGASAKI




Auschwitz Hiroshima Nagasaki
No espelho circular –
A imagem verdadeira da natureza humana




EM DÓ MENOR




A Lua cintilou durante o dia exausto esmaltando o rosto da muralha disfarçada de musgo verde-ácido
A maciez do ar propagava-se nos túneis submersos de monstros e dragões povoados Ali o capim era mais alto ocultando as ameixas serôdias que ao acaso cobriam as nuvens subterrâneas perfumadas de jasmim
Caem ameixas
No cesto rombo do veneno
O Inimigo de Satanás aliado penetrou oculto na Casa da Escuridão onde cada pássaro nocturno encarnava a Paixão segundo o jade polido do ventre baixo das moças em flor
Em dó menor


sábado, 27 de agosto de 2011

O COFRE-FORTE DE TODOS OS SEGREDOS




No princípio sobreveio violenta tempestade
O Corvo protestou
O sexo feminino foi esculpido num pedaço de terra regado com granito a esvoaçar nas Ilhas Desertas
Filha de Homem cedo descobriu o segredo da Grande Serpente
Caprichoso refugiou-se nas grutas de chamas sem fumo no céu enegrecido O resto do planeta não era corpóreo A carne da Terra nos ossos rochosos com o sangue a escorrer nas mais perfeitas gotas de orvalho envolveu-se com os Sete Elementos da cidade banhada por esmeraldas pássaros de fogo
Aprendeu a pronunciar o Nome a dar as boas-vindas na nudez revelada entre os dedos estanhados Com os braços abertos à Divina Ausência de altiva beleza escutou os auspícios ao despontar do Sol faminto nas asas da Fénix
Guerra
Estupro
Morte
Como haveria de cantar a sua Ternura? Como dizer que da porta de sua boca arroxeada apenas exalaria Verdade? Que a sua Alma seria o cofre-forte de todos os Segredos?
Não voltaria a casa com o coração destroçado Pousaria no ramo da Pomba Azul a contar horas de Sol na claridade da noite
Sorrindo


PEREGRINOS




As sementes germinaram nos passos caprichosos dos peregrinos A vigília de amanhã arrastaria parte da multidão para a Glória
Para o âmago do pélago
Porque a magnificência do primeiro e do último dia é como cirro no céu bondoso sorriso de velha além-túmulo com uma garrafa de água bem-aventurada na mão
Não
O Pai de todas as Vinhas demora nos cachos dos teus cabelos ondulados de salgueiro
Entregue à Esperança suaste neve de Verão
Sim
Luz da manhã límpida no burel de morte que a vida enternece sugada ao teu Amor
Céu Terra e Mar num enleio divino de hora ditosa
Seres sagrados
Nenúfar do Lago do Meio
Pássaro-paixão
Guerreiros sentados
Não tenho outros amigos senão vós


PÃO QUE O DIABO AMASSOU




Uma espada flamante no bosque bordejado por trilhos insondáveis fascínio de encantamentos O Outono é a Estação por excelência e mérito conveniente à dormência no sossego das folhas cor de fogo
O aroma a sangue dos castanheiros abatia-se sobre o ribeiro das primeiras águas mornas No ardil das lamentações a arca fechada Adversidade de dama casada com marido distante enfadava
Mareava incerto em mares dessabidos e em terra deixara quem augurava bem entesourada Forte como rochedo Convicto como um deus em panteão fervente
Dobram trindades pelos seus taciturnos pecados guardados a sete chaves de prata
Pão que comeu pelo Diabo amassado


ESPECTROS DE PAZ SUSPENSA




Áridos campos
Vazios

Farrapos velhos
Imundos

Casas entre ervas
E silvados

Abrigo de antigos soldados
Espectros de paz suspensa

Na Normandia


BASTARDIA




O moço era da aldeia
O mais escorreito

Montava com brio garboso cavalo ruço
Em trote grácil e perfeito

Paixão de virgens
Viúvas e casadas

Ruas ruelas becos e vielas percorria
À caça do fruto proibido mais desejado

E aí se dizia
Que pela calada da noite

Quando tudo dormia
Era pai de toda a bastardia


TODAS AS HISTÓRIAS COMEÇAM ASSIM




Era uma vez
(todas as histórias começam assim)
Um senhor conde
De fraca valia
Com searas
De aveia
E cevada
Com rendeiros
De fome apertada
À noite comia
Cercado de prodígios
Pratos de carneiro
Bebia vinho de maçã
Com as criadas dormia
Fossando até de manhã
Certo dia
No alpendre de bronze
Estourou
Banhado de sangue
E para o Inferno
Nada levou
Para além da merda
Que na agonia cagou


PRÉDIO INCLINADO




Prédio inclinado com antenas
Sobre o Rio Tejo -
Recusa-se a saltar


CHORO E RISO




Choro e riso
Na casa do lado

Vinho e dor
Na mesa de azinho

Até quando perdurará
A ilusão das túlipas tardias?


PINHEIROS MANSOS




Três pinheiros mansos
Aguardam solícitos
A minha chegada


QUE ME IMPORTA




Se não convém o que digo
Se sou tido por louco
Se as minhas palavras são vento
Para ouvidos moucos
Se os meus actos alvo de chacota
Que me importa
Se ninguém me escuta
Se ninguém me bate à porta


MARINHEIROS DE DOMINGO




Barcos
Em doca seca –
Marinheiros de domingo


O UNIVERSO NA CABEÇA DE UM ALFINETE



Naquele tempo
Havia o café da praça
Aí se juntavam os pensadores e poetas da vila ribeirinha
Discutia-se o universo na cabeça de um alfinete
Um universo espantoso a esgueirar-se colossal para a cabeça do pequeno alfinete de costura
Um universo infinito a nascer desse ponto minúsculo já infinito
Fantasma quente dos tempos que não nasceram com o big bang
Tinham existido tantas explosões quantas o infinito e a eternidade comportam
O mundo era a bola da Eterna-Criança a rolar alegre vistosa colorida em todo-o-sempre
Os filósofos serenos com as mãos pensativas nos dedos expressivos do rosto
Os poetas escreveram um hino à Eternidade e ao Infinito
Um hino que ninguém entendeu nem mesmo eles poetas
Hoje já não existe o Café da Praça
Há a solidão da minha casa e das deambulações poéticas e metafísicas sem combate


NORTADA




A nortada sopra
Nas palmeiras
Que se agitam furiosas


A DANÇA DO CÃOZINHO




O cãozinho dança
De patas no ar –
Pede-me uma carícia


TINHA SIDO BELA




Tinha sido bela
Jovem
Soberba
Desejada
Agora velha
Descuidada
Sem graça
Ninguém a amava


A DANÇA DO LAVRADOR




A chuva de Verão
Cai na terra seca
Gretada –
Alagado
O lavrador dança
Tendo por par
A enxada


UM POETA À CHUVA




Um Poeta à chuva
Exilado na solidão
Da Montanha Branca


A MÃO PÉRFIDA DO HOMEM




Milho seco entre canaviais
Cavalos esqueléticos pastam restos de Verão
À beira do rio águas paradas de verde-sujo alimentam árvores sobrepostas em crescimento selvagem
Um imenso silvado invade uma courela
Uma casa destelhada é o centro dos escombros
A mão pérfida do homem ceifou a beleza espontânea da paisagem


LÁGRIMAS ROSA




Noite entrada
A vela chora grossas
Lágrimas rosa


OCEANO DE LUZ




Um rumor longínquo
Brilha nas jóias espalhadas das sedas do Oriente
Um fantasma arcaico mergulha no mar da janela da ponta Leste
Pousando em cada uma das árvores de cristal plantadas nas asas das borboletas de jade
No leito arrastado pelo soalho o coração alegra-se em duradouro êxtase
E a noite Oceano de Luz não findará jamais


CORPO NU




Implacável
O Sol
Queima as telhas
Uma a uma

Abrasa
O perfume
Dos lírios
Ao meio-dia

Dá cor
Ao corpo
Nu
Perfeito
Junto à sebe


GENTE SOBRE GENTE




Estamos
Constantemente
A enterrar
Os nossos
Mortos –
Gente
Sobre
Gente




O ÓCIO DA CRISE




A colina pintada de bafo quente amorna o casario branco irremediavelmente disperso
Não há vivalma nas ruas apertadas por pedras de granito cinzelado
A pequena taberna desbotada por estores amarelecidos agita-se num único movimento do tasqueiro no tamborilar dos dedos Balcão sujo de preguiça
Sem freguês a coisa manqueja
Tonéis cheios
Cubas turvas
Vasilhame empoeirado
No ócio da crise
O Taberneiro dormita no regaço da aldeia


CALOR TÓRRIDO




Calor tórrido
De Verão –
A oliveira sufoca ao Sol


O TECTO DO MUNDO




O vento ruge nos pinheiros anões
Sibilante na urze rasteira
O rebanho junta-se a Poente da Casa da Floresta
Um cão encrespado fareja a rajada solitária
O Tecto do Mundo enegrece súbito
Grossas gotas de água tombam das encostas do céu
A chuva aumenta enchendo de água as depressões dos carreiros desertos
O Pastor abriga-se cobrindo-se de telhas partidas pelo gelo e murmura em esquiva linguagem o desconforto da humidade


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

SAC-CID-ANANDA




Ele é a única Realidade –
Ilusório o Universo
Real o Si


MUKTI – A LIBERTAÇÃO




Aquele que mergulhou o espírito no lago do conhecimento e que percorre a vereda luminosa da realização
Renunciando ao fruto de todas as acções
Entende que só o pedaço de corda visível ao crepúsculo é real
E irreal a serpente venenosa gerada por imaginação febril
Nem as águas sagradas e envenenadas do Ganges
Nem esmolas
Nem prânâyamas
Nem as acções ainda que incontáveis como todos os grãos de areia de todos os desertos da terra
O conduzirão à presença de Brama
Apenas a discriminação entre o Real e o irreal
O desejo de libertação
A morte do passado e vivência do eterno-agora
Permitem que a escravidão seja reduzida a cinzas


A FALSA BULA




Fim de tarde
Encheu um saco de moedas de oiro ganhas nas travessias do deserto de sal que lhe corria nas veias aquáticas e lacrimejantes
Espalhou-as como pétalas aos pés do Sumo Sacerdote
Falsa promessa escrita com perfídia na poeira do céu luminoso A bula encomendada nunca o salvaria
A libertação não tem preço
Nem qualquer acto astuciosamente construído sobre alicerces de efémera compensação
Continuaria a nascer de mulher
A sofrer interminavelmente
Até que a ausência do desejo dulcificasse os seus sentidos na Rosa dos Dias


CEM VIDAS DE BRAMA




Em vão citavam as escrituras que diziam sagradas Tão sagradas julgo como os projectos góticos e modernistas das pedras aguçadas por ponteiro retorcido ao vento do Sul
Ofereceram como sacrifício um cordeiro inocente Do seu sofrimento escorria vagarosamente sangue negro
Cumpriam escrupulosamente os ritos das basílicas como quem quer contar todos os pombos da cidade suja
Adoraram deuses esculpidos pela imaginação delirante dos profetas em noite de embriaguez inundada pela luz ténue dos archotes das janelas adormecidas
Nenhum atingiu a libertação nem a iria atingir mesmo que vivesse cem vidas de Brama


UM CRIME CONTRA SI MESMO




Sentara-se numa pedra de granito fosco aquecido pelo sol ardente do pensamento
A mente divagava pelos corpos macios e expostos na colina
A carne ansiava pelas sedas a esvoaçar no Oriente lânguido efervescente e pelos palácios suspensos de fino mármore
Os prazeres do leite derramado em coxas vivas e do néctar sulfuroso das taças sem fim esmagavam cruéis toda a ânsia de libertação no sentido da existência
Tarde o compreendeu
Cometia um crime contra si mesmo Era a sua perda e destruição
O mais calamitoso dos delitos


JIVANMUKTA




Nascera humano
Nascera homem na casta mais elevada
Em lençóis de linho ornados por rubis esmeraldas e folhas de oiro escondidas no mais profundo dos porões das naus
Seguiu a religião de seus avós compreendendo sem entender as escrituras sagradas e em tenra idade acedeu ao Eu e ao Não-Eu
De si para si atingiu o seu próprio Si identificando-se com o Sempre-Eterno
Libertara-se Tornara-se independente
Onde estavam os dois?
Não havia dois mas Um
Quantas folhas derramaram o seu sangue no solo ferido pela ave do tempo até que o atingisse? Ninguém o sabe ou saberá Nem mesmo o Um sem tempo e medida
Muitos foram os dolorosos nascimentos muitas as agonias da morte muitos os espinhos da vida gravados na trave mestra da Casa das Histórias
Agora restava a luz do meio-dia sem sombras


GOVINDA E O SAD-GURU





O corpo inclinou-se junto ao altar dos sacrifícios A luz do ensinamento penetrava na pele porosa e crespa alheia à palavra e aos ditames da razão
Nunca mais seria o mesmo
O coração transfigurou-se
Os sentidos penetravam a essência das coisas mortas naquele movimento incessante da Lua que rasgava lentamente o véu do templo iluminando o fio de poeira suspensa
Ele ali estava como também no odor húmido do vale e para lá de todas as montanhas purpurinas


TABARLY




Mar alto
Arte de navegação
Solidão


BOM DIA




Subo
A rua do Alecrim

Alvorece

A calçada adelgaçada
Nos cartões
Encapelados
Em pobres-diabos

Diz-me sussurrante
Bom dia


POLUÇÕES NOCTURNAS




As mulheres desfilam nos desejos recalcados sujos de impureza palpável das poluções nocturnas do último eléctrico para a Baixa inundado de esperma viperino
A câmara dos comuns espuma pelas ventanas opacas o misterioso anestésico da abjecção esventrada


APERTADA É A ESPERANÇA




Com medo do desejo
E medo do medo
Sendo curta a vida
É apertada a esperança


Ó ANA VEM VER




Ó Ana vem ver
Vem ver o vazio do oceano

Cuspo desliza lentamente nas mãos deformadas da cidade plantada à beira-rio em terra de Sol desbotado

Tudo murchou
Nas ruelas
Becos
Travessas e
Vielas
Onde
Há de tudo
Menos
O que se quer
Ou se cata
Nas algibeiras
Octogenárias
Da virtude vaginal


QUANDO EU MORRER




Quando eu morrer
Canta tu
Cigarra
Na pedra da minha campa
Rasa e calada


VERGONHA




Vergonha azul
Ultramarino
País de marinheiros
Com sal
Nas golas e
Nas solas

Anda tudo a roubar
A navegar a fome do dinheiro

Vergonha verde
Esmeralda
Não haver já
Gente do mar


O PIOR DESTERRO




A solidão
A dois
É o pior desterro


DISCÍPULOS




Na montanha
A Primavera perfumada
Rodeada de discípulos


A MAIS BELA DE TODAS AS ROSAS




Trazia as rosas
Na mão deformada
Ela
A mais bela
De todas as rosas
De todos os roseirais


VIRGINDADE AMORTALHADA




Vivem
Nos sentidos
Coloridos
Por mágoas
Clandestinas

Um oceano
De sensações
E projectos não palpáveis
Cativam
Os seios
Cheios
De cachopas
Seborreicas
Da avenida cinzenta

No jardim
Arredio
De amianto
Enfloram
As sombras
Da virgindade
Amortalhada

Alguém canta
Fado
Corrido
Desgraçado
Alguém joga
Meia dúzia
De tostões
Uivantes
Ao infortúnio

Ah a felicidade
Nunca descoberta
Nunca perdida


A LUA DESAPARECE




A Lua desaparece
Lentamente no rio
Que a amansa e afaga


ALI-BÁBÁ




Olho para as gentes dos casais em ajuntamento de festa ruidosa Copos cheios copos vazios de mil enganos A mesma parvoeira de todos os anos enxutos
Não há espelho em que se enxerguem na máscara estridente da chacota
Vão e voltam no tormento e na alegria dos ais da romaria onde a consternação é trocada por vinho avinagrado
Nos pratos pintados fragmentos de frango assado
Nos copos com sarro restos de vinho descuidados
Dançam ridentes os aleijados Mancos marrecos desconjuntados
Já são pó
Terra negra
Lodo
Excremento
Terracota
O funesto rosto da mentira
Envenenada
Como carta de amor por saltimbancos declamada
Por Deus tantos aldrabões enrodilhadores vigaristas-cata-vento ali estão suados como negros escravos ao Sol
Sinto inveja Sim uma inveja ressequida e corrosiva do Ali-Bábá que só com quarenta ladrões lidou
E não com milhões


DESCALÇO




Conheci-o descalço
Na praia
Em Verões e Invernos

A mesma camisa
Aos quadrados
Com mil e um rasgões

Dormia ao luar
Num batel azul
Morto na areal

Pouco comia
Habituara-se a um caldo
Frio uma vez ao dia

Dizia sonhar
Com florestas de velas
Longínquas
Infinitas
Como o mar


VELA AZUL




Já não tinha amigos Desapareceram com a lúgubre canção das flores do coval
Restava-lhe a cama de ferro do quarto vazio da choupana e uma vela azul


VISÃO DA TAMAREIRA




A areia ardia ao sol
O jovem animal
Corria
Voando dentro
Da visão da tamareira


ENFADO





Naquela casa
Tudo o que entrava e saía
Era ou compadre ou comadre

Dito com voz melada
A modos que arrastada
Ó compadre
Diga comadre
Ó comadre
Tenha a bondade compadre

Tanto compadrio
Tanta melodia sem harmonia

Que enfado


CORRENTES DO GOLFO




O medo afastara-o das correntes traiçoeiras do Golfo Navegava num mar interior sem princípio nem fim As gargalhadas do mundo não o interessavam Ele era o seu próprio alimento


HARPA DO DIA




A harpa do dia
Escureceu
À passagem da nuvem negra


RUA CALADA




Anoitece
A rua está severamente calada

A penumbra de uma árvore
Estremece a calçada de cujo
Ventre nascem pequenas flores
E ervas de dias contados

Serão calcadas
Ao amanhecer
Pelos viajantes da alba
Que habitam as veias rurais
Da aldeia onde
A Primavera palpável
Há muito atravessou
O ocaso


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SONHO TRANSPARENTE




Seria tarde O mar abraçava amorosamente as rochas pontiagudas como folhas de navalha Um peixe prateado saltou sem destino Aerador no esplendor da tarde em flor Parecia um sonho transparente de quem cerrava lentamente as pálpebras à realidade fechando o livro de escuma aberto à sua frente


CHEGAM OS EMIGRANTES







Verão –
Chegam os emigrantes
Os fogos
As barrigas grandes








SERRA DO PISCO




Uma coluna de fumo
Negro passeia-se na Serra
Do Pisco
As labaredas lambem
Crepitantes
O solo ressequido
Tal chicote de escravos
De brasas aceso
Pedras
Giestas
Pinheirais
Tudo varrido
Pela boca do inferno
Num beijo vermelho
Convexo


IMORTALIDADE DAS ALMAS




Esta noite
Sonhei com a imortalidade
Das almas
Com a estranha inutilidade
Da eternidade
Exposta à acalmia
De um mar excelente


GRANIZO







Granizo
Na estrada de asfalto
Faz fumegar o calor






A ALDEIA DA MINHA INFÂNCIA







A aldeia da minha infância
É hoje a mesma aldeia
Com mais algumas maisons
Mas já não é a mesma aldeia
Que o meu coração em sonhos chama




UM MODO DE AMAR




Amo-te nas vagas da distância esmagadas pelos dedos do amor
Um cão danado no meu caminho Espinhos silvestres nos pés sangrantes de viandante
Não me respondes Já não ouço a tua voz
Amo-te e esqueço-te Afinal o esquecimento também é um modo do verbo amar


RESTA-ME O MEU CORPO




Ouvia a tua voz
A respiração doce
O som do leve sorriso inocente
A confissão de amor
De quem nunca mente

Não sabia que ia ficar velho
Que ia ser amado por quem não amo
Na Mansão do Mar
Em que na solidão e no espelho
Por ti clamo

Tarde demais
Perdi-te para sempre
Resta-me o meu corpo


SE TODOS OS LIVROS...




Se todos os livros morressem se cada poema mais não fosse do que uma prece
Tu retornarias dos Céus e descerias da Cruz de todos os dias


CASAMENTO NA ALDEIA




Casamento na aldeia –
Amor prazer e a adolescência a desabrochar
Embriagados de vinho novo


CIDADES SUBMERSAS




Em lume brando
Consumo este sentimento
Semelhante ao dos deuses
Na luz morta do luar

Cinza que escorre na palma da mão
Do corpo suado por águas escuras
Onde as vozes naufragam depois do exílio
Em barcas pelo tempo impelidas
Para as cidades submersas da solidão


O BRILHO DO MAR ALTO




Trazia nos olhos
O brilho
Do alto mar


A "MANHOSA"




Manhosa
Era o nome da burra
Que para toda a parte
Com seu dono ia
E dizia-se
Que com ele bebia

Morreu o dono
Com disenteria
Ficando a besta entregue
À viúva do falecido
Abstémia convicta
De beatice assumida

Certo dia
Velha e cansada
Deixou-se morrer deitada
E sóbria
À porta do cemitério
Onde o dono jazia


BODA




Cai a noite A boda vai findando lentamente sem música com a felicidade única do vinho Na rua principal do povoado o silêncio O mesmo silêncio gelatinoso e sepulcral do campo-santo onde dormem quimeras ósseas de vaidade e nobreza sem vintém
Dói-me o corpo quebradiço em arco Não há para onde ir O último navio fantasma esgueirou-se há séculos pela fresta da porta de castanho cozida pelos anos doridos da guerra Nele partiram todos os meus sonhos todas as minhas transparências a minha vontade argêntea os meus desejos laminados a ouro
Ficou este som de morte preso por um fio de inócua aranha a desenhar a flor do mundo


O AMOR É...




O amor é
Doença
Que nenhuma dor cura


FELICIDADE DE UM ÚNICO DIA




Se amanhã não houver nascimentos Se amanhã não houver mortes
O mundo será mais feliz
Felicidade de um único dia


OLHAR MACIO




O olhar macio
Doce e lacrimoso da noiva
Deslizava no corpo morto
Da torre em chamas


ESPINHEIRO




Ó espinheiro
De branca flor
Adorna tu a minha sepultura


MANHÃ TRISTE




A manhã estava triste As paredes pintadas dos casebres mergulhavam numa melancolia mortal Não se via gente O sino tocou e o seu som congelou na copa do carvalho prateada como a cabeça do ancião sentado imóvel no banco de pedra do adro do deserto


UMA AVE




Uma ave canta no amanhecer
Nascido das raízes da velha árvore
Ressequida e nua

Há cinco Outonos
Ali fez o pica-pau seu ninho
Resguardado do vento forte

Dos temporais do Norte
Das noites frias da floresta
Chuvosa e uivante

Sem saber
Que o destino do seu abrigo
Era o corte incompassivo


PUTREFACÇÃO




Um odor a lilás
Percorre
As narinas putrefactas


O MENINO DE SEMPRE




A corola aberta
A árvore florida
As vozes frescas das ceifeiras
No espelho de água lisa

Os sorrisos louros
Nos rostos avermelhados
Do sempre-feminino

Ali junto à fonte
Onde repousa a brisa matinal
Brinca o mesmo menino
De sempre


AS NOITES LONGAS




Como são longas as noites
Curtos os dias
E a velhice inerte




CORDEIRO IMOLADO




Um cordeiro imolado
Berra como pura criança
Na inocência do mal


LUGAR DE REPOUSO




Aquele era um lugar de repouso com pinheiros silvestres blocos de granito e algumas lascas de xisto Por vezes o céu era mais azul e o poente mais rosado A brisa vinha de Oeste e percorria as artérias da Alma fazendo-nos ficar simplesmente ficar como crianças pasmadas que brincam com as alaúdes ou com as ondas mansas da praia esquecida


OS PRIMEIROS ANJOS




Chegaram os primeiros anjos
Cedo
Tão cedo que mais ninguém ocupava o adro naquele dia de calor infernal
A procissão iria começar
Lenta
Com o Senhor
Ajoelhado no andor
A suar
Sangue divino


POBRE GENTE




Havia morte na cadência dos passos descendentes
Olhares vagos
Luzidios
Tristes
Indiferentes
À visão do cemitério
Penetrado por ciprestes

A terra prateada
Vestida de mármore
De granito polido
Resplandecia
E na morte
O ar respirava a fé
Da ressurreição

Pobre gente


ESSÊNCIA DO NADA




Banhado no seu próprio sangue
Confundia
A essência e o sentido de tudo
Com a essência exangue do Nada


FLOR DA DOR




A vida é
Hoje
Esperança amor
Um poema
Fantástico
Perfumado de jasmim
Flor da alegria

Amanhã
Quem sabe
Poderá ser
Ou não
A mais bela
Flor da dor


SOMBRA DO SONHO




A sombra do sonho
Era idêntica à sombra da realidade –
Dois corpos em intenso amplexo


COM A DEVIDA VÉNIA




A observação pode parar mas o raciocínio também amigo Pessoa que jazes inútil em pó pelos Jerónimos A tua observação clarificou-nos como o riacho que corre sereno e alegre no vale verde e doirado da existência O teu raciocínio limitado como convém a um génio está corroído pela traça do tempo enterrado nos gogos e areão do fundo com que muitas vezes se amassa e adorna o cimento destinado à construção das casas que disformes adormecem a beleza das aldeias
Agradeço-te o sempre-novo e rejeito liminarmente os ossos do passado
Com a devida vénia
Obviamente


POBRES MORTAIS




Chegámos à aldeia
O sino toca a finados
A morte voltou

O marido da defunta
De azul marinho
E preto
Tem os olhos inundados
De resignação

Falámos da existência
Do sofrimento
Da melancolia do futuro
Mergulhados
Em meditação ocasional
De quem só pensa no decesso
Quando acontece
E a nós nos toca
Pobres mortais


ILUSÃO CONTINUADA




Há vida
Há terra
Ar
Fogo
E
Água
Até que a verdadeira vida
Nasça nesta ilusão continuada


terça-feira, 9 de agosto de 2011

ETERNO RETORNO




No infinito
Num dos seus pontos
Estás tu
Esplêndida
Fonte de luz
Na noite eterna

Viajante
Sem norte
Movendo-se como esmeralda
Imóvel
Nesse e em qualquer outro lugar
Centro do infinito
Eterno retorno


ANEL DE NOIVADO




O quarto é assaltado pelo perfume das flores silvestres
Orvalhadas pela noite de Lua Nova

Perguntas-me solenemente pelo anel de noivado sem que te saiba responder
Digo palavras soltas
Folhas esvoaçantes de Outono

Mas há o teu cheiro
O teu corpo
Os teus aposentos vermelhos
Teus lábios de framboesa a colher
Tudo para além das meras palavras
Para além dum mísero anel de noivado


PEITO SANGRANTE




O meu peito sangra
Na oração
Suave escada

Descansa no meu coração
Faz em minha alma
A Tua morada


PEREGRINOS




Peregrinos para Fátima –
Quem persegues
Ou contigo o trazes
Ou nunca o hás-de encontrar


BALBOA




Balboa é a terra à beira do último dos precipícios do universo
Há que saltar para o vazio dando continuidade aos passos inacabados e começar os que nunca foram dados
Balboa é um marco de fogo na escuridão da noite terrífica A candeia que ilumina o cego A vara que penetra a fera O medo transmudado em coragem
É a determinação absoluta que afecta a dúvida e a quietude
Balboa é a única acção na senda da vida e da morte


JÁ NÃO SOU SENHOR DE MIM




Rufam tambores
No meu coração em chama
Ardente de carne viva

Já não sou senhor de mim

Beijo-a embriagado
Lado a lado com o jarro
De vinho adamado


SONHO DE CACHORRO




O cachorrinho dorme
Sonha com brincadeiras
Infindáveis
As patas deitadas
Agitam-se
Correm sem cessar


CONVERSA FIADA




Tanta conversa fiada
Tanta cousa por dizer
Deixem o burro falar
Que não se consegue conter


CORPO DECRÉPITO




A sombra saudável
Sentou-se junto
Do corpo decrépito


AS RAÍZES DO CORAÇÃO




Ao cortar a árvore do jardim
Cortei as raízes do meu coração


NONA NOITE




Nona noite Os corpos já se estendiam no tacto subtil do final do dia
Suores fiéis dançavam rodopiantes entre membros desnudos como ramos de cipreste vergados ao desejo
Ouvia-se a sua voz
O testemunho do acto vibrante


O RIO BRANCO DO CÉU




No fim do caminho
Coberto de neve
O rio branco do céu


BRINCADEIRA




O menino brinca
Com a papoila
Como se brinca com um malmequer


JARDIM PÚBLICO




Gente no jardim público –
Tanto mal
Tão pouco bem


ONDE OS AMANTES MORAM





A noite resvala lentamente no quarto opaco O dia levanta-se apático estremunhado corroído por débil vontade que o espelho deformado do tecto não reflecte
Mais abaixo os salgueiros bebem a água do ribeiro e o vinho aquece ao Sol crescente
Não vamos Ficamos onde moram os amantes entre lençóis de linho aquecidos e sorvemos o gozo que dos corpos se extrai


MINIMALISMO




A mesma frase musical
Tocada pela flauta de bambu
Cem ou mais vezes –
Medito e adormeço


O DISCURSO DO POLÍTICO




O político
Discursava

O texto era antigo

Tão antigo
Como a mentira


CARTAS DE AMOR




Já não escrevo cartas de amor
Limito-me a remeter pensamentos escritos na nocturna solidão do piar daquela ave cujo nome desconheço
Pensamentos enviados nas asas do vento


PAÍS DE LADRÕES




País de ladrões –
Por fechadura
Uma Magnum



MORREREI A CAMINHAR




A Tua montanha Senhor é longínqua São tantas as que minhas pernas vergadas e trementes descobrem sem que a Tua veja resplandecer ao doirado Sol da aurora
Morrerei a caminhar


PORTÃO DE QUINTA-FEIRA




O portão da quinta-feira
Há anos não era pintado
Há anos que ali
Ninguém entrava


DORMIA À LUZ DA LUA




Dormia à luz da Lua
Com árvores animais
E a Alma dolente a seu lado


ANDORINHA




A andorinha alimenta os filhotes –
Desconfiada
Espreita-me
Pelo canto do olho







COMO TE LAMENTO





Quando chegar o tempo em que não houver ninguém para te amar em que nenhuma mensagem percorra continentes para te consolar tocarás a flauta no sopro do suspiro
Como te lamento assim envelhecida com a luz do coração a extinguir-se Como te lamento


CHAPIM





Abre-se a porta
Ao olhar curioso
Do chapim


OLHOS HUMILDES




Os olhos
Esfarrapados
Do homem
Estranho à aldeia
Apenas pediam
Humildes
Alguma compaixão
Num copo de vinho
Num naco de pão


OS VELHOS TAMANCOS




À porta
Os velhos tamancos
Que mais ninguém irá usar


PARTIDA





Partira sem pegadas as estrelas por companheiras à luz da vela vermelha
Não suportava mais a música entristecida dos encontros secretos ao arrepio solar
Um rio eterno de safiras e esmeraldas haveria de existir em qualquer lugar As flores da amendoeira da berma inóspita eram o seu mais íntimo presságio
Nunca mais iria voltar



VENTO SURDO




Vento surdo
De fim de Primavera –
O lavrador alivia a enxada


SONS DE PRIMAVERA




Os sons de Primavera
Espraiam-se ligeiros
Na água da fonte


MAR DE CHAMAS




Mar de chamas
Em toda a colina –
Voltou o inferno


TRUTAS




Trutas imóveis nas pedras soltas do rio transparente Outras fogem do pescador de almas em corrida ascendente


TODA AQUELA BELEZA




Toda aquela beleza
Reflectida nos teus olhos
Projectada na minha alma


ROUXINOL




Não há ninguém
Que te não ouça cantar
Rouxinol


QUE DEUS NOS PERDOE




Tanta beleza
E
Sofrimento

Tanta dor
E
Tormento

Que Deus nos perdoe