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sexta-feira, 1 de julho de 2011

CAMINHO DA LIBERTAÇÃO - 12




12. –
A nossa existência é vulgar e mesquinha, com as suas estúpidas rotinas, preocupações despropositadas e tempo desperdiçado. É o joio onde não vislumbramos trigo e a árvore que não floresce mas que teimamos em cuidar como se de frutífera se trate.
Precisamos de compreender este facto, não superficialmente, mas em toda a sua extensão e profundidade, nas suas múltiplas sequelas e manifestações perniciosas.

Imaginemos que nos dirigimos ao consultório do nosso médico assistente para tomarmos conhecimento do resultado de exames complementares de diagnóstico realizados face à existência de sintomas e sinais patológicos preocupantes.
Deslocamo-nos ansiosos aguardando a nossa vez na sala de espera, temendo o anúncio de grave doença.
Entramos no seu gabinete com um amargo de boca, suores frios e o coração a bater desordenadamente. Os pensamentos sucedem-se caótica e ininterruptamente.
Sentamo-nos à sua frente. Os olhos do clínico pousados silenciosamente no resultado dos exames deixam antever o pior. A sua expressão é inquietante e reveladora da gravidade da situação.
Diz-nos com a diligência e seriedade de um profissional competente:
- Está doente, muito doente. Uma doença incurável. Tem uma perspectiva de vida de seis meses, um ano, talvez um pouco mais... Vai tudo depender do acaso e também de si, da sua vontade de viver.
Visualizemos o acontecimento. Sintamo-lo como algo verídico.
Voltamos para casa.
Estamos conscientes. A morte é algo certo, previsível como sempre foi, só que agora podemos senti-lo profundamente. E como é estranha a sensação de um acontecimento inevitável, que nos recusámos a interiorizar na nossa curta, frágil e misérrima existência.
É tudo uma questão de tempo. Com sorte podemos permanecer neste mundo mais um ou dois anos.
Façamos em recolhimento uma retrospecção da nossa vida. Os acontecimentos mais marcantes, os momentos de alegria, de pesar, o luto, as constantes trivialidades que tanto valorizámos, o tempo dissipado com banalidades. Escrevamo-lo.

Imaginemo-nos agora prostrados no sofá ou no leito do nosso quarto, com a angústia e depressão a invadirem todo o nosso ser.
Os pensamentos sucedem-se e somos incapazes de nos concentrar num único assunto. A ansiedade cresce minuto a minuto.
Revoltamo-nos, rejeitamos o facto, solicitamos o auxílio divino, aquele “contrato” transcendental que nos poderá miraculosamente salvar de deixar de ser quem somos e de perdermos o que temos.
E afinal, quão miseráveis têm sido as nossas vidas. E é essa miséria cuja perda tanto nos assusta e aterroriza.

Lentamente, com o decurso do tempo, apodera-se de nós a serenidade possível. Estamos conscientes da inevitabilidade do facto.
Há que resolver de imediato questões financeiras e outros pormenores de índole material que protelámos como se fossemos viver eternamente. A declaração de morte eminente exige uma preparação burocrática que alivie os sobreviventes de problemas de difícil resolução.

Passada que esteja esta fase, temos de decidir como é que vamos passar os dias que nos restam.
O que é que lastimamos não ter feito?
A que actividades nos vamos dedicar?
Há algo em especial que queiramos fazer ou investigar?

Anotemos sequencialmente, hierarquizando tudo o que não fizemos ou não terminámos e deveríamos ou gostaríamos de ter realizado.

Provavelmente iremos constatar que tudo o que considerávamos essencial perde todo o seu significado: o dinheiro, o poder, a carreira profissional, os bens materiais, o sexo. Mas não o amor, nem a contemplação.
A escolha é nossa e só nossa.


JOSÉ MARIA ALVES
www.homeoesp.org


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