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quinta-feira, 27 de maio de 2010

JORGE DE SENA (1919-1978) - A PORTUGAL





Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de ter nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu p´ró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra – museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser´s minha, não.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

CARTA AOS JOVENS DO SÉCULO XXI











A quase totalidade dos jovens não tem confiança nas instituições de carácter político.
A quase totalidade dos jovens não tem confiança nas instituições judiciárias.
A quase totalidade dos jovens não confia na autoridade.
A quase totalidade dos jovens não confia na religião e seus representantes.
Uma parte dos jovens ainda confia na família.


Grassa a desonestidade, a imoralidade e mesmo, a amoralidade.

Vivemos um mundo de indiferença aureolado por uma carga negativa num deserto espiritualmente imundo.

O ser humano não “cresceu” nos 10.000 anos de “civilização”. Limitou-se a aperfeiçoar técnicas, a maioria violentas, odiosas e degradantes.



Mais de cinquenta por cento da população mundial vive actualmente em estado de miséria ou pobreza extrema, com um rendimento inferior a dois dólares diários.

Mais de 20.000 pessoas morrem por dia em consequência da fome e da pobreza extrema.
A cada 3,5 segundos um ser humano morre em consequência da fome.
A globalização torna os pobres mais pobres e os ricos mais ricos.


Nos finais do século XX existiam 1,2 mil milhões de pessoas que viviam em pobreza absoluta e aviltante, ou com um rendimento de 1 dólar ou menos por dia, valor que se manteve estável na sua última década.
Metade da população mundial – cerca de 3 mil milhões de pessoas – vivia com dois dólares por dia ou menos.

Em 2006, numa população total estimada em 6,5 mil milhões de almas, 1,3 mil milhões não tinham acesso aos cuidados médicos mais básicos.
Faltam mais de quatro milhões de profissionais de saúde no mundo, escassez que é sentida essencialmente em África e na Ásia.


Em 2000 existiam 150 milhões de desempregados e 750 milhões em situação de subemprego.
Mais de 250 milhões de crianças trabalhavam como mão-de-obra infantil e 120 milhões não frequentaram a escola primária.
Em África 70% da mão-de-obra concentrava-se na agricultura e 40% das crianças com idades compreendidas entre os 5 e os 14 anos eram obrigadas a trabalhar.

Praticamente, de um terço a metade de todas as mulheres foram sujeitas a violência física por parte dos companheiros.


Apenas como curiosidade mórbida, triste e trágica, diga-se que os bens dos três homens mais ricos do mundo, são manifestamente superiores ao Produto Nacional Bruto de todos os países menos desenvolvidos e dos seus 600 milhões de habitantes... E isto, enquanto todos os anos morrem 3 milhões de pessoas como consequência da poluição e mais de 5 milhões por doenças diarreicas originadas pela contaminação da água.


Aguardando-se que a população supere os 7 mil milhões até ao ano de 2015, com 98% do aumento a registar-se nas regiões pouco desenvolvidas, o panorama é quase assustador. A pobreza continuará a aumentar, bem como a carência dos mais básicos cuidados de saúde, malgrado as palavras de políticos e altos dirigentes, tão imbuídas de esperança quanto de falsidade e hipocrisia.

Os animais continuam a ser tratados de modo desumano, sem protecção eficaz, porque são apenas “animais”.



Quem quiser um mundo melhor terá de lutar por ele. Quem quiser um mundo melhor não se poderá abster.
É urgente uma revolução no amor, na cultura e na moral.
A sociedade actual é funestamente mentirosa: atribui aos jovens a responsabilidade do futuro, mas incute-lhes princípios monstruosos.
A sociedade actual quer forjar o futuro do homem por calamitosos métodos pedagógicos e pela comunicação social.
Se os perfilharem, o futuro não será ridente, mas algo de demoníaco e aterrorizante, onde o homem será cada vez mais lobo do próprio homem.
Se o século XX foi o século de Caim, o XXI será o de “Satanás” feito gente.


É esta a realidade que vos querem esconder e fazer esquecer.
É esta a realidade que vos querem deixar em testamento, caminho armadilhado de minas dissimuladas.
Repudiai tal testamento, renunciai a ideais contaminados pela ambição, pela crueldade, pela corrupção. Que os seus autores os transportem consigo para o coval que para vós demarcaram.

É este o mundo que quereis?

Que mundo é este?
Que gente esta?
Que bando de famigerados malfeitores este?

É este o mundo que quereis?

Respeitai tudo o que ao respeito se dá.
E revoltai-vos, indignai-vos contra o que de nenhum respeito for merecedor.



Revoltai-vos
Que cada um de vós seja uma das vozes da indignação
Que cada um de vós seja uma das vozes da revolta
Revoltai-vos
Um a Um
Cada Um
Por si
Pelos outros
Por todos os que hão-de vir






QUE ESTE SEJA O VOSSO MANIFESTO PARA TODO O SEMPRE
AMOR - LIBERDADE - BELEZA



Onde houver Amor não haverá guerra ou fome
Onde houver Liberdade não existirá iniquidade
Onde houver Beleza haverá Felicidade








Negai este mundo
Não a sua realidade
Mas os seus rótulos

A história da humanidade inumana
É um incessante desfilar de agressões e crueldades
Mais guerras do que anos
Hipocrisia cinismo falsa modéstia autocaridade
Corrupção aproveitamento próprio
Por breves momentos salpicada de compaixão
Em que homens raros de um planeta de predadores
Purificados da avidez da inveja e da ambição
Derramaram Amor nos seus semelhantes
Raros são
Raros serão
A menos que a Revolta se instale nos vossos corações


Os homens temem a morte
O que os espera
Que não será o que esperam
Nem o que julgam

Só morrendo em vida conheceremos a Morte
Mas só pode morrer em vida quem vive
E não quem nunca viveu ou
À vida se deu

De que vos serve uma vida longa se nem por um dia vos destes à Vida
De que vos serve acumular anos apegados a estúpidas ilusões e asnáticos ídolos
Asnáticos artistas saltimbancos de jornais borra-botas e revistas cor-de-rosa que apenas servem para vos desviar do essencial e fazer crer que esse produto nacional é a vossa glória e o alicerce do vosso futuro
Para que gritais e agitais bandeiras mostrando aquilo que não sois mas em que vos querem tornar
Governar um bando de imbecis
Assim será mais fácil governar


Não vos apegueis a clubes
Associações
Partidos
Selecções
Grémios e
Religiões
Que mais não são do que prisões


Irradiai adivinhadores
Bruxos astrólogos videntes
Encantamentos possessões amarrações
Bruxedos mau-olhado feitiçaria
E tantas outras crendices
Forjada por impostores
E apadrinhada pela comunicação social
Mãe de tantas sandices
Artífice de tantos tolos idolatrados
Que ignorados apenas deveriam ser


Estado Políticos Filosofias Religiões
São o ventre gestante de absurdos imperativos
Que aniquilam a Beleza e o Amor
Extermina-os
Extermina de quando em vez o teu eu
Para alcançares a Liberdade
Para alcançares a Realidade


Não há cristãos budistas muçulmanos hindus ateus democratas comunistas portugueses chineses
Há Homens
Não há nações
Somos cidadãos do Mundo


Que os cerimoniais e outros aspectos formais da existência vos não afectem nem iludam
Um general numa farda imponente
Com o peito minado de condecorações
Um magistrado na sua toga negra
Um papa de vestes sumptuosas
Se nus
Mais não são do que pobres-diabos

Um papagaio engravatado
É sempre um papagaio engravatado
Tal como um macaco vestido de púrpura
É sempre um macaco asinino
Deita as citações no cesto dos papéis
Tolo tolo aprendiz da lida de catedrático
Insensato como criança ou menino
Lê-te a ti mesmo e à Vida


Sociedade de aparências
Carro topo de gama
Casa luxuosa
Carne para o cão que não há
Peixe para o gato que não existe –
Fome em casa


Desmascarai temerariamente
Embusteiros e hipócritas
Que decentes e honestos
Aos olhos do mundo querem aparecer
Mas são grosseiros e viciosos
Corruptos imorais e manhosos

Criaturas vis violentas mesquinhas
Para com seus irmãos e para ti
Criaturas
Miseráveis infelizes
Ansiosas em si


Corrupção e compadrio
Qual a diferença entre o que
Por dinheiro se vende
Por qualquer valor
E quem por poder o faz
Ou até por amor


Avaliai o progresso
Entendei as suas duas faces
Aniquilai-o sempre que destrua
O crescimento do espírito

Esta sociedade já à falência foi apresentada
Por débitos –
O compadrio o aproveitamento próprio a corrupção
De seus gestores e administradores
A miséria e resignação dos desvalidos
Sem voz e coração destroçado
Para quem a mais forte esperança
Apenas na morte reside
Por créditos –
A aparência a falsidade e a presunção


Não permitam que os animais sejam desumanamente tratados
Quer por simples prazer
Quer por negligência
Quer ainda para utilização decorativa

Um animal não é muito diferente de nós
E se o for
Será para melhor

Olhai nos seus olhos
Senti as suas emoções
Estai atentos às suas manifestações
Dai-lhe voz
A eles
Que se são diferentes
Diferentes
Leais
Bem melhores do que nós
Lutai por uma legislação eficiente Muitos Estados que se dizem desenvolvidos têm legislações desadequadas e ineficazes enquanto as autoridades nada fazem por ignorância ou displicência

Erguei a vossa voz em nome de quem a não tem
Erguei sempre a vossa voz em nome de quem a não tem

Chegará o dia em que os crimes perpetrados contra animais serão considerados crimes contra a humanidade


Não deixeis que o mundo seja destruído pela ambição
As florestas já existiam antes do homem
Agora seguem-se-lhe os desertos
São esses desertos que vos estão destinados
Pobres jovens artificiosamente enganados


A humanidade está em nós
Debruça-te sobre a tua janela
Vê o desespero que desfila
A angústia que no coração se instala
O entusiasmo A fadiga A alegria
Tudo isso somos nós
Nós sós
Nós e o mundo
O mundo e nós

O mundo somos nós
E nós somos o mundo







Negai as revoluções colectivas
Vós apenas vós
Cada um de vós
É a única e verdadeira revolução

Não tentes mudar os outros
Seja em nome de Deus
Seja do Amor
Seja de um qualquer ideal

Mesmo que te acusem de seres indiferente ao mundo
Lembra-os que a luz da Polar é débil mas indica o Norte com segurança aos navegantes
Que algumas poucas gotas de água podem salvar a vida ao náufrago e
Que uma candeia não ilumina uma floresta mas pode incendiá-la


Não permitais que o homem mate
Impiedosamente
Em nome de deus
Da religião
Do estúpido nacionalismo
De uma revolução dissimulada
Do faccioso partidarismo
Ou de qualquer outra mascarada
Inventada por quem escrúpulos não tem


Uma revolução violenta é apenas uma revolução violenta Revolução política Falsa mudança do estado das coisas
A revolução individual revolução psicológica se por muitos realizada tornará o mundo melhor
Nenhuma revolução triunfa se não revolucionar os vossos corações
Só atingirá objectivos válidos se for o somatório das revoluções individuais

Que cada um branda o acutilante e aguçado punhal da Verdade
Que cada um saia às ruas às praças sem temor e acuse os falsos doadores de felicidade e confiança
Que cada um saia às ruas para que as ruas sejam Liberdade para que o Mundo seja Esperança
Sorrindo às estrelas e à Lua
Ao Sol e ao luar de prata que exala dos olhos da Criança Nova







O Amor dispensa a reciprocidade
O Amor aniquila o egoísmo
O Amor dispensa a moral
E torna obsoleto o Direito

Ama quem voa num oceano de Liberdade
Ama quem no deserto infindo se perde
Se quem ama vive mais no que ama do que em si
Já não está aqui Habita na eternidade

Ama o Amor
Amor que é sensibilidade por tudo e por nada


Não dês para receber
E quando deres
Que sejas tu a agradecer

Que a vossa mão esquerda não saiba
O que a direita doa ou faz
Não faças oferendas esperando retribuição
Não compres a divindade com orações
Não a confundas com vigaristas e vendilhões


As uniões amorosas
Só poderão sobreviver enquanto o Amor existir
Se se extingue
Extingue-se a relação
O casamento não é um contrato forçado irresolúvel vitalício
Mas acordo a evitar
Se se quiser usufruir de liberdade

Só haverá relação
Só haverá confiança
Na imersão total do Amor


Queres saber o segredo
O segredo dos segredos
Não não é degredo
Ou solidão -
Morre para o passado
Vive no mundo sem ser do mundo
Caminha só na vereda da Vida com o abismo à espreita
Solta amarras Iça a vela grande
E parte rumo ao Nada
Sem que temas a tempestade nem desejes a calmaria
Consciente de que nada nem ninguém
Tem o poder de te retirar a Paz e o Amor

Ninguém tem o poder de te fazer feliz
És tu que decides se queres ou não ser feliz

Tu és o Amor
O Amor é Beleza
O Amor é Liberdade
A Liberdade é Beleza
Onde há
Amor
Liberdade
Beleza
Há Paixão
Há Criação







Escolhe a tua própria liberdade
Não deixes que por ti a escolham –
A Liberdade de um rio
De uma árvore
Dum milhafre

Sê livre
Não democrática mas psicologicamente
Liberta a tua mente do ciúme inveja ambição
Abre a tua mão
Aí está a liberdade
Aí está a liberdade sem limitação

Vós sois livres
Não sois carneiros
A apascentar nas colinas e outeiros
Como rebanhos de homens
Miseráveis e subjugáveis

Não permitais que o Estado
Esse aborto horrendo eduque vossos filhos
Não vos demitais do que por direito natural vos foi confiado
Os vossos filhos são a esperança do porvir
São a vossa esperança
São a nossa fé regozijo de nossa alma infeliz


Se vos libertardes dos vossos condicionamentos
Da autoridade interior e exterior
De dogmas crenças doutrinas
Sereis livres


Expõe-te sem temor A contenção sentimental que visa o agrado é pura hipocrisia

Que cada um seja o que é
A mudança compulsiva pressupõe esforço
O esforço é contenda
A contenda padecimento

Morrer para o passado para viver o Agora
Ser-se o que se é
Não querer ser
É o princípio da mudança

As coisas mudam constantemente
A cada momento
Só o não-condicionado o entende
Só o que está livre de contradição
Que é independente e solitário
O percebe

Só é livre
Quem sozinho caminha
No deserto ou na multidão
Na luz ou na escuridão

Afasta todos os medos E são tantos
Não temas o conhecido
Não temas o desconhecido
De nada te adianta conheceres a sua causa
Escuta-o
Escuta o sofrimento
Ouve-o e sente
É apenas pensamento
Morre com ele a cada instante
Morre e Vive
De novo
Inocente







Nunca te vergues a políticos e poderosos

O Estado é a propriedade dos privilegiados
E os privilégios são iniquidades
E as injustiças devem ser exterminadas

Não podemos confiar em nenhum sistema de governo seja ele qual for
Todos em essência são manifestamente corruptíveis

Confiai em vós não nas instituições
Confiai nas vossas próprias leis e determinações

Qualquer governo
Queiram ou não
Transforma-se numa ditadura
De modo directo ou velado
Num lugar de escravatura
No centro da opressão


O estado é um monstro frio
A quem o coração morreu
Vive da carne e sangue
De indefesos e desgraçados
Do luto dos esfomeados


Não condeneis a riqueza
Não deixeis que a inveja vos consuma
Condenai a opulência
Condenai a avareza
Condenai a ganância

Se os ricos forem cada vez mais ricos
Que os pobres sejam cada vez menos pobres
Por ora basta-nos
Mas só por ora
Depois se verá


Que em vossas casas e países
Não entrem os que no mundo
Verdadeiros homicidas e ladrões
Roubam e assassinam seu povo
Alimentado no lixo dos latões
Governantes sem piedade
Criminosos da humanidade
Tratai-os como merecem
Sem um único aplauso
Sem o menor indício de consideração
Dizei bem alto
Ide-vos salteadores


Não há altos nem baixos dignatários
Há bons e maus profissionais
Prefere um bom varredor de ruas
A um mau presidente


Propaganda eleitoral
Promessas vãs palavras dóceis
Mentiras fáceis
Beijos pelas ruas
Um sorriso teatral
Programas lançados à lua

O político tem duas línguas
Raramente dando uso à primeira
Que é a verdadeira
Mas apenas à segunda
Serva da oportunidade
E da sua necessidade

Político labrego
Será sempre labrego
Sem raiz
Que porventura com o tempo
Aprenderá a arte das palavras
Melodiosamente falsas
Com o ranho a escorrer do nariz


Entre ter telhados de vidro
Ou algum que de palha seja
Preferível será não ter nenhum


Não é o que tens Não é o ter
Que faz de ti quem és
Se caminhas em quatro patas
Descobre que podes caminhar em duas
Vislumbrando novos horizontes


O brilho da opulência é a escuridão da alma
Por isso a alma da igreja é escura como breu
Apregoa-se a pobreza a caridade
No meio de colunas e capiteis doirados
De paramentos ricamente bordados
Que vestem hipócritas falsos santos
Enquanto Jesus nu e faminto
Em carne viva de chaga em dor
Anda de porta em porta
Na alma dos seus pobres







Tantas estrelas no céu profundo
Tantas montanhas recortadas pela luz incendiante da aurora
Flores exuberantes
Águas cintilantes
Vales verdes de pão ondulante
E contudo
A hipocrisia e a baixeza
A pequenez e a farsa
A impostura e a falsidade

A verdadeira Beleza tudo transcende
Seja a forma seja a cor
Assim como a Criação só germina
Onde existe destruição







Paz caridade humildade
Hinos de amor
Palavras ocas
Poder guerra e ambição
Armas loucas
Nas mãos
De assassinos
De políticos impostores
E falsos senhores







Sem justiça justa
Não há crescimento económico
Sem justiça comutativa
Não há liberdade
Há prisão
Sem justiça distributiva
Não há igualdade
Há favor
Sem educação
Não há crescimento
Há barbaridade
Sem saúde
Há miséria dor e choro


Que a justiça não seja uma ficção
Que a igualdade seja uma realidade
Que os homens sejam leais
Que a magistratura desconheça a discriminação
E a autoridade as classes sociais







Não confundam nunca conhecimento e sabedoria

Vejam como o mundo se enche de sendeiros
De curta vista diplomados e
Atestado está de doutores analfabetos
E de alguns analfabetos que são doutores
Mandando quem menos sabe
Porque se quem sabe ordenasse
Fosse o que fosse
Os impostores não teriam assento
Nem lugar onde se acoitar


O que vale a ciência
Quando confrontada com o céu estrelado
De que vale a filosofia
Face ao deslumbre de um vale
Enriquecido por um rio

Aprende a usar os teus olhos
Ouvidos nariz boca e mãos
Irão conduzir-te à Realidade







O trabalho é o que é
Um modo de subsistência
Nada tem de prestigiante
Quando se transforma em luta


Mais não é
Do que mulher da rua ou puta


Trabalho e riqueza são invenções do estúpido progresso
Trabalhai porque tal é necessidade vital
Mas não olvideis a Paz a Beleza e o Amor em prol duma qualquer estéril carreira profissional







Não vos comporteis como senhores do Cosmos
Quando nem por um momento vos aproximastes da Verdade e tudo é mistério

Livros divinos da revelação ideia de deus
Tudo o pensamento gerou
E o pensamento é limitado
Construiu tudo o que está para além da natureza

O que é limitado só pode atingir o limitado nunca o Absoluto que transcende o espaço-tempo

Se o pensamento cessa de se movimentar desaparece o eu
E aparece em todo o seu esplendor a Verdade o Amor e a Beleza

Pensamento que cessa quando o observamos em vigilância constante
Sem implicar qualquer prática mortificante

Isto é meditação
E meditação é a única coisa que vale a pena se com ela termina o sofrimento

Observar o pensamento e o seu movimento
Numa vigilância passiva
E tudo o que nos rodeia
Sem comparar ou interpretar
Em constante desenvolvimento dos sentidos
Ser
Ser sem nada buscar
Intensamente e com Paixão

Só com a meditação podes descobrir o que está para além do espaço-tempo
Enquanto Paixão e Amor caminham de mãos dadas ausentes do pensamento


Se julgas que Deus existe procura-o
Se julgas que não existe procura-o também
Não aceites máximas
Que se Deus não existisse seria necessário inventá-lo
Ou
Que se Deus existisse seria necessário aboli-lo
Procura-o dentro de ti
Não recorras a qualquer autoridade auto-investida por falsa revelação
Mas se Deus existe não serás tu um seu escravo
E se o homem cria deus não passa a ser escravo da sua própria criação

Não mates o Deus verdadeiro mas mata os deuses eleitos e pelos homens criados
Sinónimos de poder e riqueza

Se julgas que a alma existe procura-a
Se julgas que não existe procura-a também
Se existe nada mais tens para saber
Se não existe para saber mais nada tens







Que queres tu da vida
Eu
(e o que eu quero pouco importa porque importa o que tu queres)
Eu apenas quero
(o que é muito ou pouco
Tu o dirás)
Aniquilar o ciúme o ódio a agressividade
A impaciência a inquietude a inveja
A ilusão e os medos
Quero compreender a inconsistência de anseios e apegos
Libertar-me de todas as convicções e dogmas
Destruir as experiências psicológicas passadas
Ficar só
E em paz numa solidão afectuosa
Olhar as estrelas as nuvens que correm no céu azul
Os rostos das crianças das mulheres
Os ribeiros e fontes da montanha
Os picos da serrania
E o poente da minha existência
Ficar só
Estar só para amar indiscriminadamente
Para amar de modo espontâneo
Gratuitamente
Quero observar as coisas tal qual são sem interpretações ou justificações
O que é apenas e o que é
É válido
O resto é ilusão


Admite a impermanência
Tudo é insegurança
E onde reina a efemeridade
A vida torna-se exuberante e colorida


Não busques o sentido da vida
A Vida é um dom
A ser vivido com intensidade
Com Paixão
Em todos os seus momentos







Neste mundo de predadores
Não percas discernimento e bondade
Transformando-te em escravo de sistema
Asqueroso nojento e putrefacto

Aprende com a serpente
Que o teu espírito seja o dela
Aprende com a pomba
Que o teu coração seja o dela

Enquanto a acácia cresce
Crescerá a tua perspicácia
Não ofenderás nem serás ofendido
Não te perderás nem serás perdido


Faz findar o sofrimento psicológico
Prestígio ambição vir-a-ser o que não se é
Ciúme sentimento de posse inveja ódio
Limita-te a observar o que és
O querer ser é ilusão
A ilusão é dor
A dor é morte em vida
Não há maior desdita


Se queres modificar-te
Começa por conhecer-te
Minuto a minuto
Instante a instante
E a mudança ocorrerá sem esforço
Porque o que sempre se observa
Destrói todos os sentimentos negativos


Não aceites mestres
Os lírios florescem sem auxílio
Nasceram para si
E fenecem sozinhos
Tu és o teu próprio Mestre
Sem caminho
Porque para o Amor
Não há caminho
Não há destino
E um cego não pode outro cego conduzir

Cuida-te dos aduladores
Víboras de inveja
Prefere um inimigo leal
A cem amigos de ocasião



A transformação da sociedade
Depende de ti
Apenas de ti
Não depende do político
Não depende do legislador
Não depende da justiça
Nem do religioso
És tu no teu próprio caminho
Sem mapa e sem rumo
Que dia a dia construirás o mundo
Um Novo Mundo

Não te mascares
Sê tu tu mesmo sem adereços

Aprende a viver com os recursos disponíveis
Para que não te angusties na escassez e não te vendas aos poderosos


Morre para o passado já fenecido
E para o futuro inexistente
Mantém-te no Eterno-Agora
Começa sempre de novo
Imaculadamente
Só serás introduzido no mistério da Morte
Se a cada momento morreres para o eu
Só criarás quando de tudo estiveres liberto
Até da busca dessa liberdade
Porque a criação tem a sua origem no novo
E sua essência é o Todo
E a explosão da liberdade Inocência


Não sejas o jazigo magnificente
Onde no interior reina a corrupção


Não te deixes comprar
Não compres
Nem te vendas
Seja
Por valores
Ou amores

O homem nobre cuja virtude se lê nos olhos enfrenta qualquer risco ou afronta em favor da verdadeira justiça e em detrimento da imoralidade
Opta pela privação da liberdade ou mesmo pela morte quando o poder instituído o instiga a acatar normas manifestamente injustas
Não corrompe nem se deixa corromper nem se deslumbra com prestígio ou fama

Não abjures como Galileu
Rejeitando a verdade
Nem que para escapar à morte seja


Ganha o pão com o suor do teu rosto
Não com o suor de pobres e desvalidos
Que os teus cofres não se encham
De oiro e pedrarias sujos de sangue e podridão







Consome tu a Vida
Não deixes que seja ela a consumir-te


Tu és um cidadão do Universo
Universo que é dança e combate

Que teu seja o tempo da justiça
E
No dia em que te sentires feliz sem razão
No dia em que sentires prazer em tudo e nada
No dia em que sem causa teu coração se alegrar
Sabe sabe que encontraste a Terra-da-Verdade
Único lugar onde o Amar é puro e gratuito
Espontâneo verdadeiro transparente como o vento
Que encontraste a Terra-Da-Felicidade-Sem-Fim
Chamada Reino
O teu Reino




Se nenhum de vós
For agora e no futuro
Uma verdadeira revolução
Para que vivi eu então




JOSÉ MARIA ALVES

terça-feira, 25 de maio de 2010

JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984) - O MEU É TEU





O meu é teu. O teu é meu
e o nosso é nosso quando posso
dizer que um dente nos cresceu
roendo o mal até ao osso.

O teu é nosso. O nosso é teu.
O nosso é meu. O meu é nosso,
e tudo o mais que aconteceu
é uma amêndoa sem caroço.

Dizem que sou. Dizem que faço,
que tenho braços e pescoço
- que é da cabeça que desfaço,
que é dos poemas que eu não ouço?

O meu é teu. O teu é meu
e o nosso, nosso quando posso
olhar em frente para o céu
e sem o ver galgar o fosso.

Mas tu és tu e eu sou eu
não vejo o fundo ao nosso poço,
o meu é meu, dá-me o que é teu
depois veremos o que é nosso.

MARIA TERESA HORTA (1937) - VERTIGEM








Quando sob o meu
está o teu corpo
e eu nado dentro
do desejo e enlaço

os teus ombros as ancas
e o dorso
enquanto o espasmo se faz
num outro abraço

Desprendo a boca
depois
no grito solto

Mordo-te os pulsos
ambos
no orgasmo

Volto ao de cima
da água
do meu gosto

Bebo-te a vertigem
e em seguida o hálito

MÁRIO DIONÍSIO (1916-1993) - UMA MULHER QUASE NOVA







Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

VINICIUS DE MORAIS (1913-1980) - SONETO DO AMOR TOTAL





Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

PAUL ÉLUARD (1895-1952) - PALMEIRAS



As árvores a copa orvalhada de sol
Rectas. Dou ao meu sol a seiva evaporada.
O sol repousa sobre o mármore das folhas
Como a água do mar no fundo adormecido.

O céu é de um só bloco a terra vertical
E as sombras das árvores continuam as árvores.

Tradução de Manuel Bandeira

PEDRO BARRA Y VALENZUELA (1894-1978) - O COLIBRI







No interior da flor
palpita uma esmeralda viva.
O colibri esqueceu o seu antigo ninho.

Tradução de Maria Etelvina Santos

NELLY SACHS (1891-1970) - ASSIM FUGI EU...





Assim fugi eu da palavra:

Um pedaço da noite
de braços abertos
só uma balança
para pesar fugas
este tempo de estrelas
afundado em pó
co’as pegadas impressas.

Agora é tarde.
O leve sai de mim
e também o pesado
os ombros já voam
como nuvens pra longe
braços e mãos
sem gesto de levar.

Fundo-escuro é a cor da nostalgia sempre
assim a noite toma
de novo de mim posse.

Tradução de Paulo Quintela

EDWARD LEAR (1812-1888) - ERA UMA VEZ UMA VELHA SENHORA DE PRAGA





Era uma vez uma velha Senhora de Praga,
Cuja linguagem era horrivelmente vaga;
Quando lhe perguntavam:«Isto são bonés?»
Ela respondia: «Talvez!»
Aquela oracular Senhora de Praga.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro

UGO BETTI (1892-1953) - PECADO ORIGINAL







A luz sobre os calmos mares
lentamente difundiu-se;
Dormiam como cerradas folhas
os continentes solitários.
E adiantaram-se as duas criaturas
Amedrontadas, dando-se a mão,
por dentro do silêncio e da frescura

Aos seus passos, como uma pomba
desaninhada o eco elevou-se, depois emudeceu.
Timidamente abriram a ramagem...
espiaram a cava sombra das águas...
e naquela sombra avistaram dois rostos
que subiam fremendo
por entre os céus revoltos

Então, com grande pasmo e medo,
olharam-se, tocaram-se,
Nus estavam, entre o céu e as rochas
e arrepiavam-se, como ao vento,
Dentro dos torsos de argila
Inchava-se uma ignota
tristeza, com o mugir da onda...
Depois caíram. E gravaram a lama
com indelével cunho.

Tradução de Hermínia Ferreira

AL-THURTHUSI (SÉC. XVI) - OLHO O CÉU SEM FIM







Olho o céu sem fim
à espera de ver a estrela que tu vês

Vou ao encontro dos viajantes que chegam de todo o lado
à espera que alguém se tenha inebriado com o teu perfume

Enfrento os ventos
à espera que tragam uma mensagem tua

Vagueio sem destino
à espera de ouvir uma canção que fale de ti

Olho as mulheres que encontro sem outra intenção
que descobrir um toque da tua beleza nos seus rostos

Tradução de Jorge Sousa Braga

FANG TCHENG-TA (1126-1191) - O DEUS DO LAR







No último dia da duodécima lua
o deus do Lar volta para o Céu
para contar o que viu cá na Terra.

Antes de o queimarem e em fumo o tornarem
toda a família lhe dá de comer
para que fique com o ventre farto.

Leitão bem assado, peixe mui gostoso,
bolos aloirados, frutos bem maduros,
o vinho um regalo, não se olha a despesas

O deus do lar esquece as querelas,
as palavras insolentes, as faltas de todos.
Sobe ao Céu bêbado e satisfeito.

O que é preciso depois é arranjar outro deus.

Tradução de António Ramos Rosa

sábado, 15 de maio de 2010

CECÍLIA MEIRELES (1901-1964) - CANÇÃO DO AMOR-PERFEITO






O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

JOSÉ MANUEL MENDES (1948) - BARCAROLA






no mar de arzila
namorei
teus olhos

no mar de arzila

uma voz antiga
tangia
a claridade
dobava o musgo
das pedras
adormecendo

no mar de arzila

havia o meu canto
recluso
do teu canto
gaivota gaivota
e nas praças
o tempo
renascera

no mar de arzila
namorei
teus olhos

no mar de arzila

ANTÓNIO OSÓRIO (1933) - O RIO APENAS DE LEVE







O rio apenas de leve
se mexia e virava:
menino dormindo,
suspirava de calor.

- Que sabes (disse Eva) da corrente
do teu sangue?
Escuta em mim:
sentirás este fundo rumor do mar,
ondas que tocam na terra,
regressam e voltam
para o teu corpo

ESTRATÃO DE SARDES (século II a.C.) - A UMA JOVEM ESCRAVA







Fosses tu ainda inocente talvez reconsiderasse antes de te falar
Há tempos no entanto que recebes lições do teu amo
que adormece a teu lado mal o deixas satisfeito. Eu ofereço-te o amor a terna intimidade o riso e essa suave conversa que prolonga o acto da carne. A doce liberdade (se assim o entenderes) de não aceitares nenhuma destas coisas

Tradução de Jorge Sousa Braga

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938-2007) - AMOR É O OLHAR TOTAL






Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.


EGIPTO - ODE DO DESESPERADO






A morte está agora diante de mim
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.

A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.

A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se à beira da embriaguez.

A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.

A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.

Versão de Herberto Helder

INTERIOR E EXTERIOR




Quem olha para dentro e não vê o que está fora é tão cego quanto o que não vê o exterior e se queda pelo interior
Não há dentro sem fora e fora sem dentro
Nem conhecimento apartado


JOSÉ MARIA ALVES

NEM SEMPRE A DOÇURA...





Nem sempre a doçura mais se adoça e o que amargo é mais se amarga
O que se amarga adoça-se e o adoçado amarga-se
Como a sucessão dos dias e das noites
Das estações
Do frio e calor nos corações


JOSÉ MARIA ALVES

QUEM MATA O QUE ME MATA




Quem mata o que me mata
Quem mata o medo da morte
Senão a própria Morte

A Morte do passado
A Morte de prazeres e dores
Das ilusões e projectos

De um lar sem tecto
Das flores ao orvalho
De um coração atormentado


JOSÉ MARIA ALVES

YÁNNIS KONDÓS (1943) - PEQUENO JARDIM ZOOLÓGICO





Teus dois pequenos seios
sorriem dentro da tarde.
Eu de noite acendo fósforos
para ver como dormem.

Teus dois pequenos roedores
me comem os dedos
no escuro.
De manhã, asas de pássaro
nas minhas mãos.

Tradução de José Paulo Paes

PETRARCA (1304-1374) - NEM TENHO PAZ NEM COMO FAZER GUERRA






Nem tenho paz nem como fazer guerra,
espero e temo e a arder gelo me faço,
voo acima do céu e jazo em terra,
e nada agarro e todo o mundo abraço.

Tem-me em prisão quem ma não abre ou cerra,
nem por seu me retém nem solta o laço,
e não me mata Amor, nem me desferra,
nem me quer vivo ou fora de embaraço.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,
anseio por morrer, peço socorro,
amo outrem e a mim tenho um ódio atroz,

nutro-me em dor, rio a chorar aflito,
despraz-me por igual se vivo ou morro.
Neste estado, Senhora, estou por vós.

Tradução de Vasco Graça Moura

RIO SEM MARGENS




Um rio que corre sem margens
Flores que não florescem
Fogo donde não brota fumo
Fumos nos ares sem fogo

Quando morrer que me deixará o barqueiro da Morte transportar para a outra margem


JOSÉ MARIA ALVES

HOPIS - PARA OBTER A CHUVA






Vem, trovão, e olha à volta!
Vem, ó frio, e faz chover!
O trovão bate, o calor cresce.
Os grãos germinam se está calor.
Trigo florido,
feijão florido,
o vosso rosto olha os jardins.
Meloeiro de água, meloeiro de almíscar,
o vosso rosto olha os jardins.
Aé, aé, i!
Fazei chover.

Versão de Herberto Helder

AMARU (séc. VII) - POEMAS DE AMOR





ELE:
Quando embriagada pelo doce vinho
viu os arranhões de amor
que ela mesma me infligira
partiu ofuscada pelo ciúme
Tomando-a pela franja do se sari
detive-a... Como esquecê-la
quando me disse: «Deixa-me, deixa-me!»
olhando para trás
os olhos cheios de lágrimas
os lábios tremendo de despeito

O POETA:
Os amantes
arrastados pela torrente do seu amor
e contidos pelo dique
das pessoas mais velhas da casa
estão ainda juntos
mas não podem satisfazer os seus desejos
Imóveis como se tivessem sido pintados
bebem o néctar da paixão
com que os brindam os negros lótus dos seus olhos

ELA A UMA AMIGA:
Quando o meu amante se deitou a meu lado
por si só se desprendeu o meu cinto
e mal suspenso da cintura
o vestido deslizou-me pelos quadris
É a única coisa que sei
pois mal senti o contacto do seu corpo
de tudo me esqueci:
de quem era ele
de quem era eu
de como foi o nosso prazer

ELE:
Esmagados contra o meu peito
os seus seios estremecem. Entre as suas coxas
flui a seiva doce do amor...
«Não, outra vez não... Deixa-me descansar...»
E aos sussurros sucedem-se
as súplicas e às súplicas os suspiros
e aos suspiros o silêncio...
Terá adormecido? Estará a agonizar?
Ou serei eu que estou a sonhar?

Tradução de Jorge Sousa Braga

QUÍCHUAS - CANÇÃO






Rio cristalino
nos bosques de cardos,
lágrimas
dos peixes de ouro,
pranto, oh pranto,
sobre os precipícios.

Tão fundo é o rio
nos bosques de áruns
que se precipita
em voltas no abismo
- o rio estrondeia
por entre os loureiros.

Rio que eu amo,
leva-me, leva,
longe, tão longe,
pelo meio do campo,
sob as bátegas de chuva,
abraçado à amada.

Versão de Herberto Helder

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943) - CAFÉ DO MOLHE





Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

APROEI O VELEIRO




Aproei o veleiro
Ao horizonte nu

Dias e dias
Naveguei
Na busca
Da Terra da Salvação

Apenas vislumbrei
Mar Mar e Mar

Sem outra embarcação
Em meu rumo
Sem navegante
Com sextante aferido
À Lua minguante

Lua Estrelas Sol do meio-dia
Latitude à meridiana
Dia noite-escura
Latitude à Polar
Noite Dia Água-azul-morna

Alma agrilhoada
Em pesquisa absurda
Absurda Inútil
Inútil
Obsessivamente metódica
E inútil

JORGE DE SENA (1919-1978) - AMO-TE MUITO, MEU AMOR






Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

NATÉRCIA FREIRE (1920) - POEMA DE AMOR







Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de água vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

CHUVA DE VERÃO





Chuva de Verão
Alegria dos cachos
Pendentes -
Tristeza de meu coração
Indiferente


JOSÉ MARIA ALVES

MORRER NO MAR






Noite escura

Não li por escuridão
Por dormência
Do espírito vagabundo

Em que pensas tu irmão

Nos olhos dela Nos seus olhos azuis

E no mar
No mar profundo

Nunca mais saí aos temporais
Às vagas crispadas de rugas
Não mais capeei em capa ardente
Olhando o mar de frente
Temente
Mas não como outra
Gente
Cobarde e doente

Se o mar me matasse eu
Eu morreria
Contente

Há um Mar que corre em nós

Amar

Há veias
Veios d’água e sal
De lágrimas
Por não se saber Amar
Ou o que é o Amor

Há um Mar escondido
Nos confins da alma
Muro erguido
Em redor
Da Lua
Muro de Dor

Salpicou-me o lanceiro
Salpicou-me o flanco
De lírios
Azuis

E teu olhar
Tua feição
É uma mentira
Que mente ao Mar
Que te mente a ti
Mas a mim não ludibria

Que o Amar comigo morra
No Mar


JOSÉ MARIA ALVES

AVÓ




A avó
Brinca com a neta
No quintal
Ela
Que personifica
O amor gratuito –
Duas vezes mãe


JOSÉ MARIA ALVES

AS CEREJAS AMADURECEM




As cerejas amadurecem -
Cada uma pende da cerejeira
Pelo seu próprio pé


JOSÉ MARIA ALVES

JOÃO PENHA (1838-1919) - JURA





Quando ao ver-te aborrecida,
Em teu sofá recostada,
Te propus, com voz magoada,
Consagrar-te a alma e a vida,

Uma proposta sentida,
Recebeste-a à gargalhada!
E logo eu disse: coitada!
Estás de todo perdida!

Como na boca do sapo
Se vai meter a doninha,
Hás-de cair-me no papo.

Não me escapas, avesinha:
Não me tenho por guapo,
Mas, que importa? Hás-de ser minha!

O INFINITO




O som da flauta
Parece longínquo -
Tal é o infinito


JOSÉ MARIA ALVES

LUME DE LAREIRA




Lume da lareira
sua beleza
É luz e som

A luz da extinção
E o som crepitante
De velhos
E generosos paus


JOSÉ MARIA ALVES

A TUA PAZ




Ensina-me amigo
De longas noites de invernia
A viver o instante
Ensina-me amigo
A ser como tu
Nessa tua paz
Que sendo tua
Também é minha


JOSÉ MARIA ALVES

ADÉLIA PRADO (1935) - A MEIO PAU



Queria mais um amor. Escrevi cartas,
remeti pelo correio a copa de uma árvore,
pardais comendo no pé um mamão maduro
- coisas que não dou a qualquer pessoa –
e mais que tudo, taquicardias,
um jeito de pensar com a boca fechada,
os olhos tramando um gosto.
Em vão.
Meu bem não leu, não escreveu,
não disse essa boca é minha.
Outro dia perguntei a meu coração:
o que que há durão, mal de chagas te comeu?
Não, ele disse: é desprezo de amor.


POETA DO INSTANTE




Poeta do instante
Do momento
Do tempo-sem-tempo
Do vazio -
Mas doem-me as pernas


JOSÉ MARIA ALVES

SÓ O INSTANTE VALE





Só vale o instante
O sem-tempo construído
Sem ilusões e fantasias e ficções

Não sei se sou poeta ou não
Se mereço ou não ser lido

Não sei nem quero saber
Como também não quero
Ser mais um pedante
Mesmo que o possa
Ou não parecer


JOSÉ MARIA ALVES


EDMUNDO DE BETTENCOURT (1899-1973) - AR LIVRE







Enquanto os elefantes pela floresta galopavam
no fumo do seu peso,
perto, lá andava ela nua a cavalgar o antílope,
com uma asa direita outra caída.
E a amazona seguia...
e deixava a boca no sumo das laranjas.
Os olhos verdes no mar.
O corpo em a nuvem das alturas
- a guardadora
da sempre nova faísca incendiária!

HERMAN DE CONINCK (1944-1997) - ELEFANTE






É feito dos efeitos mais grosseiros,
usa as calças como o palhaço pobre,
os joelhos a nadar; dá passinhos de dança
como um pastelão a martelar um tango,
enquanto o olho do cu parece
uma dentadura
acabada de tirar. E depois a tromba
e mesmo ao lado os olhos. Como é que ficarias
se te pusessem a gaita no nariz?

JOHN SUCKLING (1609-1642) - PORQUE PÁLIDO E TRISTE, MEU RAPAZ?







Porque pálido e triste, meu rapaz?
Dize: porque tão pálido?
Ou, quando um ar jucundo não lhe apraz,
um ar triste – é mais cálido?...
Dize: porque tão pálido?

Porque silente e mudo, pobre jovem?
Dize: porque silente?
Ou, quando meigas falas a não movem,
ser mudo – é eloquente?...
Dize: porque silente?

Vamos, vamos!... juízo! O teu penar
que pode ter, que enleve?
Se por si mesma te não quer amar,
mais fria do que a neve...
o demónio que a leve!

Tradução de Luís Cardim

NATÉRCIA FREIRE (1920-2004) - QUENTE, O TEU CORAÇÃO QUENTE





Quente, o teu coração quente
pulsa no lusco-fusco.
Palpita em toda a casa
deserta que nos vê.
Galga as sacadas altas,
corre nas avenidas.
É o silêncio o amor
que abre as veias na tarde...

Quente, o teu coração quente,
é uma estrela no escuro
que a pele das tuas mãos
prolonga em minha pele...
quem te amou e é já morto
renova a primavera.

Oh! doce comunhão
de desejo e infinito,
de saudade e de céu,
de paraíso e grito!

Água clara e tremente
a boca, a sede, a fonte.
Flor de sangue à corrente
o teu coração quente.

NIMA IUCHIDJ (1895-1959) - AINDA RESTA UM POUCO DA NOITE







Ainda resta um pouco da noite;
canta o rouxinol nela.
Pirilampos bruxuleiam no escuro
para os lados do mar.
Como a minha lâmpada
que bruxuleia à minha janela.
Como a minha alma onde um pouco
de paciência e de esperança perdura.
Como a visão do meu amargo amor a cantar,
Como a minha lâmpada
que bruxuleia à minha janela,
De seus olhos ardentes pousados sobre mim, o olhar,
- Um raio de esperança –
bruxuleia nesta casa escura.

Tradução de Kurt Scharf

GHEORGHE BACOVIA (1881-1957) - E SE...







E se o tempo traz de volta
Mais dúvidas em meu redor,
Inferno é, desgosto a vida –
Não há-de haver nada pior.

Quando, em silêncio envolto, creio
Que a paz é meu esteio maior,
Prazer é, paraíso a vida –
Não há-de haver nada melhor.

Tradução de Doina Zugravescu

MALEDICÊNCIA





Gente ingrata
E maledicente –
Não é este o meu povo


JOSÉ MARIA ALVES

QUE VÍCIO É O AMAR





Mesmo doente
A falta do corpo
De mulher –
Que vício
É o amar


JOSÉ MARIA ALVES

GUO MORUO (1892-1978) - MÃE








O coração da mãe está triste,
Quando acompanha o filho até à entrada do barco.
As lágrimas só secam se esfregar os olhos,
Afastando-se na praia, não volta a cabeça.
É um lamento profundo como as águas que correm,
Como eu, melancólicas, nuvens e montanhas.
Não esqueço as palavras à beira do rio:
Pára de viajar para outros países!

Tradução de Li Ching

O AMOR SÃO PÉTALAS...




O amor
São pétalas
Que caem da flor
Na brisa que
Do mar vem

Poiso nas vagas
Vagarosamente
Meu olhar
E as pétalas
Esvoaçam

Graciosamente
Na aragem
Com fragrância
A oceano


JOSÉ MARIA ALVES

ERICH MUHSAM (1878-1934) - O REVOLUCIONISTA






Era um revolucionista
Limpava candeeiros a gás;
Marchava que enchia a vista
C’os companheiros, o rapaz!

Diz: «Vou revolucionar!»
E de boné revoltoso
P’ra banda esquerda a tombar,
Até se julga perigoso.

Mas a revoltosa gente
Mete pela rua de trás,
Onde ele, pacatamente,
Limpava os candeeiros a gás.

Às lanternas deitam mão,
No pavimento enterradas;
Querem arrancá-las do chão
P’ra construir barricadas.

E o nosso revolucionista
Grita: «Eu sou o lavador
Desta luz que é nossa vista
Não ma tirem, por favor!

Se lhe cortarem o gás,
Não vê nada o bom burguês.
Por favor, voltem atrás! –
senão, não vou com vocês!»

Mas os revoluças riram,
E o lavador foi-se embora;
Os candeeiros a gás caíram –
Ele, desespera e chora.

Ficou em casa a escrever
Um livro em que diz como é
Que se revolve a valer
Deixando os candeeiros de pé.

Tradução de João Barrento

MUNDO BELO E SOFRIDO





Mundo belo
E sofrido –
Das mãos do ladrão de rosas
Esvai-se a felicidade


JOSÉ MARIA ALVES

A SOMBRA DA PAZ





Dia de Inverno
Sol de Primavera

Nu no terraço

Lá dentro
Na sombra da Paz
O Peste dormita
De olhos abertos


JOSÉ MARIA ALVES

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA (1954) - CARTA DE NAVEGAÇÃO







Talvez além do que tu vês
não esteja nada
nem a alada criatura com que sonhas
sequer a sombra da sombra de uma sombra

Talvez nisso que vês só haja espelho
de um desejo sem rosto e sem esperança
que toda a vida (às vezes) seja apenas
esse deserto crescendo à tua volta

Aprende a não amar o amor
a nada querer
não desejar o desejo
nada ter

MARCELO GAMA (1878-1915) - TAEDIUM VITAE





Dias de tédio, amargurados dias,
Estes os que arrasto à espera de melhores,
Estes de sol, então, são os piores:
Mais me abatem as lassas energias.

Porque este sol que me ilumina e aquece,
Embora luz, calor e vida seja
- lascivo sol que a natureza beija
lubricamente, e os seios lhe intumesce –

é o mesmo sol que me amesquinha e oprime,
o alvissareiro da maledicência,
que põe, perfidamente, em evidência,
esta pobreza vil, que é quase um crime.

Por isso à lua, mal o sol se esconde,
Horas fico a cismar, contemplativo...
Abominável terra, esta onde vivo!...
Vêm-me vontades de partir... Mas onde?...

Mas onde achar a paz que est´alma aspira?
Se em toda a parte os homens são iguais!
Se aqui na terra são convencionais
Honra e virtude, e o mais – tudo mentira.

Lá onde eu fosse chegaria o tédio.
Que à vida é necessário o sofrimento,
E bem sei, para meu maior tormento,
Que esta dor só na morte tem remédio!

Todo este mal, toda esta desventura,
Vem do sentir e amar em demasia,
E ver que é sempre simulada ou fria
Toda afeição que eu supusera pura.

Conto os meus anos pelas minhas dores,
E são mais minhas dores que os meus anos;
E não bastando os próprios desenganos,
Comovem-me os alheios dissabores.

Que uma só vez não há, que eu não vacile,
Quando a desgraça os outros arremete!
Já chego a duvidar como Stecchetti:
- Sono un poeta o sono um imbecile?

Tu, que os meus versos lês e que os condenas,
Quando não és de todo indiferente,
Como és feliz! Como é feliz a gente
Que insensível assiste a alheias penas!

Bendita aspiração, ditosa sorte:
- extinguir-me, ou vencer estes espaços!
Por que nos teus escanifrados braços
Não me estrangulas, redentora morte?

Ontem levaste, aqui da vizinhança,
A pobre mãe de três loiros filhinhos,
E entregaste-os à dor! Beijos, carinhos,
Mudaram-se em cruel desesperança.

E deixaste-me entanto, atormentado,
Escravo destes miseráveis nervos!
Meus dias, que penoso é maldizer-vos,
Sendo até pela morte desprezado!

Morrer!... Antes morrer! Que só existe
No renunciar à vida a paz perfeita.
Tornar-se a gente em pó, na cova estreita,
É deixar, finalmente, de ser triste.

E se algum dia for desenterrada
Minha carcaça, hão-de me ver sorrindo...
Porque as caveiras riem, assistindo
Deste mundo à infinita mascarada.


PEDRO HOMEM DE MELLO (1904-1984) - BIOGRAFIA






Com lírios nas mãos de neve,
Subi ao último andar.
A haver farda, era tão leve
Que fui subindo a cantar!
E fui subindo, subindo...
Só parei no patamar.
Abri portas e janelas
Para poder respirar.
Tudo o que se via delas
Tinha a cor do meu olhar.
Da varanda me inclinei,
Para medir-lhe o tamanho.
Ai! dos vassalos de El-Rei
Aos quais El-Rei fica estranho!
Lá do alto, cá em baixo, o rio
Transformara-se em regato.
Reparei que, debruçadas,
Sobre o seu leito vazio,
Faias, apontando espadas,
Lhe exigiam um retrato.
Soprou, de súbito, o vento!
Varreu a noite a direito,
Rindo... Que risada fria!
Entanto o solar, ao vento,
Erecto, fazendo peito,
Resistia, resistia...
Mas, das brechas do telhado,
Água, sôfrega, escorrera.
E o torreão do solar
- Ameias de pedra ou cera?
Era um pássaro assustado
Sem asas para voar!

EUGÈNE GUILLEVIC (1907-1997) - VARIAÇÕES SOBRE UM DIA DE VERÃO





Acariciar o verão
saber dele

O peso de alegria
Que suporta a mão.

Caminhar na luz
Quase como se
Estivesses em casa.

Ela vem de longe
Esta bebedeira

Que tem por dever
Abrir as fronteiras.

Tradução de Eugénio de Andrade

ANTÓNIO GEDEÃO (1906-1997) - REFLEXÃO TOTAL






Recolhi as tuas lágrimas
na palma da minha mão,
e mal que se evaporaram
todas as aves cantaram
e em bandos esvoaçaram
em torno da minha mão.
Em jogos de luz e cor
tuas lágrimas deixaram
os cristais do teu amor,
faces talhadas em dor
na palma da minha mão.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

MANUEL BANDEIRA (1886-1968) - VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGARDA






Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei um burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d´água.
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

CATULO (séc. I a.C) - GOZAR A VIDA





Vivamos, minha Lésbia, e amemos,
e os murmúrios dos velhos mais severos
demos-lhes a todos o valor de um centavo!
Os sóis podem extinguir-se e voltar:
mas nós, uma vez que se extingue a breve luz do dia,
temos de dormir uma só noite, para sempre.
Dá-me mil beijos, depois um cento,
e mais mil, depois outro cento,
depois outros mil, e mais cem.
Em seguida, quando juntarmos muitos milhares,
misturamo-los, para que não saibamos
ou nenhum malvado possa invejar-nos,
quando souber que os beijos foram tantos.

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira

SEM PENSAMENTO




Sem pensamento
A noite paira na cabana

Sem sentimento desabrocha um lírio do meu peito

Pelas margens do cérebro
Em cascata corre veloz
O rio de prata
Como quem quer chegar
Chegar depressa
Ao mar
E ser um
Um com o oceano imenso
Dos navegadores solitários
Nascidos para amar
E para o mar imenso

Tanto mar
Tão pouco é o amar
Tão triste o sofrimento do pescador de almas

De cesto vazio sente-se
O pote de argila que se quebra
Nos rochedos da vida

Minha cabana é pobre de palavras
E por isso fala-se
Com os olhos a olhar até que o dia
Se espreguice
Por não querer dormir mais
Ou por tanto faz

Aguardo por ti Paz


JOSÉ MARIA ALVES

quinta-feira, 13 de maio de 2010

SEBASTIÃO DA GAMA (1924-1952) - ANUNCIAÇÃO



Quem bateu? Ouviste?
Tão de manso..., tão...
- Meu Amor, é gente,
meu Amor, ou não?

- Se será o Anjo,
para anunciar!?...
- Fosse a noite calma,
fosse o vento brando,

viria..., viria...
Mas assim, Amor?
Oh! a alma frágil,
nesta ventania?

- Meu Amor, vais ver?
- Meu Amor, pois vou...
- Que perfume é este?
Esta luz que entrou,

esta paz que veio
p’lo postigo dentro?
- Meu Amor, não vês?!...
Meu Amor, não sentes?!...

terça-feira, 11 de maio de 2010

MÁRIO QUINTANA (1906-1994) - CERTEZAS




Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,
quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível…
E que esse momento será inesquecível..
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre…
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém…
e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras,
alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons
sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente
importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca
cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter
forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe…
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia,
e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,
talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas…
Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder
dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim,
sem ter de me preocupar com terceiros…
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão…
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim…
e que valeu a pena.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

MARIA TERESA HORTA (1937) - JOELHO





Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas

JORGE SOUSA BRAGA (1957) - SONO DE PRIMAVERA







Adormeço sempre com o teu mamilo
entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas

DINO CAMPANA (1885-1932) - FLORENÇA





Por entre as pontes tuas multicores
O Arno pressago aquieta-se de areia
E nos reflexos calmos mal desfeita
Severos arcos no esfolhar das flores.

Azul estremece o arco entre colunas
Lançado a meio de palácios belos:
Alvas estrias pelo azul: anelos:
E branca juventude nas colunas.

Tradução de Jorge de Sena

WILLIAM SHAKESPEARE (1564-1616) - AO JURAR-ME ELA SEU FIEL AMOR






Ao jurar-me ela seu fiel amor,
palavra que acredito e sei que mente;
deve pensar-me um jovem sem tutor,
nos enganos do mundo inexperiente.
Assim, pensando em vão que me crê jovem,
saiba embora já fui melhor do que hoje,
as suas falas falsas me comovem
e a verdade de parte a parte foge.
Mas porque não dirá ser ela injusta?
Porque não digo minha idade avança?
No amor, idade e anos dizer custa
e é costume de amor fingir confiança.
Deitamo-nos, mentimos, mente, minto.
Mentir em culpa é-nos lisonja, sinto.

Tradução de Vasco Graça Moura

LUÍSA NETO JORGE (1939) - DESINFERNO II






Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
À mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria


quinta-feira, 6 de maio de 2010

MANUEL BANDEIRA - TEMA E VARIAÇÕES


Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado:
O de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado...
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.

BAY JUYI (772-846) - O VELHO CARVOEIRO





No monte do Sul o velho carvoeiro
serra a madeira, faz carvão.
O rosto cor de fogo, coberto de fuligem,
cinzentas as têmporas, negras as mãos.
Ganha tão pouco dinheiro, e para quê?
Roupa para o corpo, comida para a boca,
mas tão pobre, vestido de andrajos.
Tem frio e deseja o frio, por causa do negócio.
Esta noite um palmo de neve sobre a cidade.
De madrugada, conduz a carroça, rasgando o gelo,
ao meio-dia, o boi fatigado, o homem com fome.
Na Porta Sul descansam ambos na lama gelada.
Ah, quem são esses fogosos cavaleiros?
Um oficial vestido de amarelo, um rapaz de branco,
na mão um documento «Por ordem imperial».
Puxam o boi, levam a carroça para norte.
Uma carrada, trinta arrobas de carvão,
confiscadas pelos comissários do Palácio.
De nada servem protestos e lamentos.
Um pedaço de tecido em gaze,
umas tiras de seda florida,
tudo atado nos cornos do boi,
eis a paga do labor do carvoeiro.

Tradução António Graça de Abreu

EDNA ST. VINCENT MILLAY (1892-1950) - OS LÁBIOS QUE MEUS LÁBIOS BEIJARAM






Os lábios que meus lábios beijaram, onde e quando,
eu esqueci, e os braços que se estenderam
sob minha cabeça até o amanhecer... Mas a chuva
se povoa de espectros esta noite; eles batem à janela,
e espiam pelos vidros atrás de uma resposta.
Uma dor silenciosa em minha alma se agita,
rapazes esquecidos que não voltarão mais
a procurar-me entre lágrimas à noite.

Assim também no inverno a árvore solitária
ignora quais os pássaros que se foram um a um
e, no entanto, sente mudos seus galhos, mais que antes;
Não sei contar os amores que se foram um a um,
sei apenas que o verão cantou em mim
um curto instante, e já não canta mais...

Tradução de Sérgio Milliet

ARTUR LUNDKVIST (1906-1991) - AFO(LI)RISMOS







Nas casas demasiado silenciosas
os móveis falam sozinhos.

Algumas portas fecham-se com tal estrépito
que parece que jamais se poderão abrir de novo.

As palmeiras envergonham-se, cada dia mais,
de se terem convertido em árvores místicas.

O deus Pã morreu. O pânico, porém, persiste.
Iço as velas do teu corpo
e parto nele para o mar.

Tradução de Ana Hatherly


EUGÉNIO DE ANDRADE - TO A GREEN GOD






Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.


KESTENTTIN IVANOV (1890-1915) - MEDITAÇÕES DUMA VELHA FLORESTA


Males e dores se abateram
E eu mergulhei na amargura:
Jovens anos, anos felizes,
Desaparecidos, pra onde foram?
Desvaneceram-se como sonhos,
Os jovens dias, dias felizes.
Só as desgraças, só os tormentos
Como negras nuvens acorreram.

Tradução de Maria Etelvina Santos

domingo, 2 de maio de 2010

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952) - O VENTO DO ESPÍRITO








Senti passar um vento misterioso,
Num torvelinho cósmico e profundo.
E me levou nos braços; e ansioso
Eu fui; e vi o Espírito do Mundo.

Todas as cousas ermas, que irradiam
Como um nocturno olhar inconsciente,
Luz de lágrima extinta, não sentiam
A trágica rajada, que somente

Meu coração crispava! Ó vento aéreo!
Vento de Exaltação e Profecia!
Vento que sopra, em ondas de mistério,
E tanto me perturba e extasia!

Estranho vento, em fúria, sem tocar
Na mais tenrinha flor! E assim agita
Todo o meu ser, em chamas, a exalar
Luz de Deus, luz de amor, luz infinita!

Vento que só encontras resistência
Numa invisível sombra... Um arvoredo,
Ou bruta pedra, é como vaga essência;
E, para ti, eu sou como um penedo.

E na minha alma aflita, ó doido vento,
Bates, de noite; e um burburinho forte
A envolve, arrasta e leva, num momento;
E vai de vida em vida e morte em morte.

Vento que me levou, nem sei por onde;
Mas sei que fui; e, ao pé de mim, bem perto,
Vi, face a face, a névoa a arder que esconde
O fantasma de Deus, sobre o deserto!

E vi também a luz indefinida
Que, nas trevas, se fez, esclarecendo
Meu coração, que voa, além da vida,
O seu peso de lágrimas perdendo.

E aquele grande vento transtornou
Minha existência calma; e dor antiga
Meu rude e frágil corpo trespassou,
Como a chuva uns andrajos de mendiga.

E fui num grande vento; e fui; e vi;
Vi a Sombra de Deus. E, alvoraçado,
Deitei-me àquela sombra, e, em mim, senti
A terra em flor e o céu todo estrelado.