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OS TRATAMENTOS SUGERIDOS NÃO DISPENSAM A INTERVENÇÃO DE TERAPEUTA OU MÉDICO ASSISTENTE.

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domingo, 26 de setembro de 2010

CONTRA-INDICAÇÕES, EFEITOS COLATERAIS E PRECAUÇÕES EM HOMEOPATIA






Muito se tem dito quanto às contra-indicações dos medicamentos homeopáticos.
É usual a afirmação de que a homeopatia não produz quaisquer efeitos colaterais e de que não tem contra-indicações.
Mas, a realidade é outra. Infra, especificamos algumas (as mais importantes) das contra-indicações dos remédios, alertando fundamentalmente os terapeutas mais incautos para um exercício seguro e deontologicamente correcto da Homeopatia, ou seja, sem grave prejuízo para a saúde de seus doentes.



ACONITUM –
Na febre, deve evitar-se que o paciente beba todo o tipo de bebidas, à excepção da água.


ARGENTUM NITRICUM –
O uso continuado e habitual deste medicamento pode fazer surgir os sintomas inerentes à sua patogenesia.
Natrum Muriaticum faz cessar o emagrecimento do paciente Argentum provocado por doses excessivas, altas diluições ou derivado de efeitos patogenésicos.


ARNICA –
A existência de ferida contra-indica o uso externo de Arnica, que pode ser substituída por Calendula ou por Echinacea.


BARYTA CARBONICA –
Não deve ser ministrada depois de Calcarea Carbonica.


CALCAREA CARBONICA –
Baryta carbonica e Sulfur não devem seguir Calcarea.
Kalium bromatum e Nitricum acidum não a devem preceder.


CAMPHORA –
Antidota praticamente todos os remédios homeopáticos.
Não se deve ministrar Camphora depois de Kalium nitricum.


CARBO VEGETABILIS –
Kreosotum não deve seguir Carbo vegetabilis.


CARCINOSINUM –
Alguns autores referem que deve ser evitado no cancro.
De qualquer modo, deve ser ministrado com precaução.


CHELIDONIUM MAJUS –
Durante o tratamento com este medicamento, deve ser evitado o vinho, que o antidota.


DENYS –
Não deve ser ministrado a pacientes cujo organismo não esteja drenado.


DROSERA –
Não deve nunca ser ministrada na otite.


HEPAR SULPHUR –
O uso de Hepar, conduz a precauções várias:
- 4 CH, faz supurar por mais tempo;
- 5 CH e 7 CH, têm acções opostas, segundo o estado evolutivo;
- 9 CH e mais, impedem a evolução do processo supurativo e podem fazê-lo regredir, caso ainda esteja em tempo – se não estiver, verificaremos um agravamento.

Hepar, em diluições baixas ou médias (segundo os critérios da Escola Francesa), não deve ser ministrado nos abcessos das cavidades fechadas.


HYOSCIAMUS –
As baixas diluições agravam o estado mental.


IGNATIA –
Não deve ser administrada em baixas ou médias diluições, em indivíduos que tomaram estricnina.


ISO SANGUÍNEO –
Não deve ser ministrado em pacientes com cancro ou desde que se suspeite de lesão cancerosa.


KALIUM CARBONICUM –
É um medicamento que não pode ser repetido com muita frequência.


KALIUM BICHROMICUM –
Não deve seguir Calcarea.


KALIUM NITRICUM –
Não se deve ministrar Camphora depois de Kalium nitricum.


KREOSOTUM –
Não se deve ministrar Carbo vegetabilis após Kreosotum.


LACHESIS –
Em baixas ou médias diluições, nos estados maníacos.



LYCOPODIUM –
Não deve ser ministrado depois de Sulphur, a menos que o seja na formulação clássica:
Sulphur » Calcarea » Lycopodium » Sulphur » Coffea.

As altas diluições prescritas de forma improvisada agravam.
Não é aconselhável iniciar o tratamento de um estado crónico por Lycopodium, já que a sua acção pode produzir perturbações graves e duradouras caso as funções hepáticas e renais não estejam devidamente estimuladas.

No caso de agravação devida à grande liberação de toxinas, China é em geral o medicamento indicado para a suster.


MARMOREK –
Este medicamento não deve ser ministrado num organismo insuficientemente drenado.
No entanto, é a única tuberculina a prescrever aos pacientes febris e fatigados, em período de emagrecimento suspeito.


MEDORRHINUM –
Como todos os bioterápicos deve ser prescrito em função da sua patogenesia e dos sintomas apresentados pelo paciente, podendo e devendo tomar-se em consideração os eventuais antecedentes blenorrágicos.


MERCURIUS –
Aceticum acidum e Silicea não devem ser ministrados depois de Mercurius (dinamizado), mas antidotam a substância pura.


NATRUM MURIATICUM –
É contra-indicado em altas diluições em indivíduos palúdicos, ou que tenham tomado quinino.


PHOSPHORUS –
Nos casos de tuberculose, Phosphorus não deve ser ministrado em diluição inferior à 30 CH e não deve ser repetido antes que tenham decorrido pelo menos trinta dias após a ingestão da dose.


PULSATILLA –
Não deve ser ministrada em enfermos tuberculosos com historial de hemoptises recentes.

Não deve também ser ministrada em baixas ou médias diluições, nas otites.


SILICEA –
Em Silicea, todos os corpos estranhos incluídos no corpo acabam por ser expulsos com uma supuração, que se torna necessário controlar.

Um foco tuberculoso, mesmo antigo e calcificado, pode como em Phosphorus, ser reactivado.


SULPHUR –
A prescrição de Sulphur deve ser prudente face às previsíveis crises de eliminação: eczemas, agravações curtas, mas importantes.
Há que atender às diluições e frequência de repetição de doses inadequadas.

Casos existem, em que sendo Sulphur o medicamento indicado, se justifica devido ao temor de eliminações violentas, o uso de Sulphur iodatum.
Estas eliminações podem provocar, em especial, no doente tuberculínico um rápido e acentuado emagrecimento.

Sulphur não deve ser ministrado em doses baixas ou médias, em indivíduos que apresentem uma inflamação do ouvido médio, mesmo que seja ligeira.

Sulphur é um medicamento que segue bem Lycopodium, mas Lycopodium não deve seguir Sulphur.


TUBERCULINUM –
Tuberculinum não é propriamente um remédio da tuberculose.
O seu mau uso comporta riscos de reactivação como Phosphorus e Silicea.


VERATRUM VIRIDE –
Deve ser evitado em pacientes com coração fraco e pulso lento, fraco, já que irá agravar os seus sintomas.




Segundo Voisin, quando um medicamento possa corresponder a “perturbações opostas”, e estejamos perante um paciente que apresente uma dessas perturbações, esse medicamento é indicado na diluição que a ela corresponde e contra-indicado na outra.
Exemplificando:
“Aurum é indicado de 6 a 9 CH nos congestivos hipertensos, activos e coléricos e, em 12 a 30 CH, nos melancólicos introspectivos com aversão pela vida. Dar o remédio a estes, em 6 a 9 CH é contra-indicado visto que tais diluições provocam um efeito depressivo.”

sábado, 18 de setembro de 2010

O MISTÉRIO DA FUGA






Partira na direcção do Leste
Quando a lua se escondia nos seios das fragas
As aves começaram a acordar no espaço surdo
Como se a escuridão da noite tivesse todas as portas do beijo e da paixão encerradas

Debruçou-se no seu próprio corpo
Como se debruça nas nuvens floridas quem nasce para amar
Olhou para as palmeiras com um pássaro verde e azul na cabeça
A semente do homem espalhara-se chegara aos corredores vazios
O mistério da sua fuga nunca seria desvendado

Pequena porta de cave ecoava num sonho avermelhado
A pele gelada as mãos frias de vento de Outono
Os degraus exaustos com a luz do Sol apagada
Um jardineiro de papel à entrada dava a ideia de ausência glacial
Gravatas e sobretudos cresciam nos cantos em vasos de plantas inventadas
Um coxo debruça-se na máquina de fazer cigarros cumprimenta-a e despede-se até mais logo
As mulheres seminuas absortas na concentração vítrea do lucro tremiam
A noite a retinir semeava o mar de navios e de fantasmas
Uma-oitava-acima cantava o desamparo de corsários ébrios

Ia de novo evadir-se do cárcere desgastado
Mas a porta escancarada com as goelas a espreitar
Tamponou o tempo
Que só fora dela existia

A taça orgíaca numa mão
Uma mulher orvalhada na outra
E a acidez da ansiedade a corroer-lhe o coração
Aproado à volúpia do rumor
Da madrugada no cais deserto



O LAÇO DOS DIAS





O homem tinha as mãos crispadas de lume ao colo
Perguntava-se como búzio que pergunta ao mar
O som ao eco
O peixe ao pântano
A nortada às raposas vermelhas da estepe
Que laço o prendia aos dias

A manhã clara acocorada num carro de prata entrava pela fresta da porta dos medos
O corvo de bico lilás aninhava-se na pele de uma cobra de água tépida
Eva devorou no coração exausto de Adão a serpente do arroubamento

Desviver?

O som profano das pastagens e a choupana de invisível sombra chamam-no
O céu azul de domingo de Ramos na noite em que as virgens se transformam em folhas imortais clama
Pela mesa de fogo curvada e rodeada por corpos negros como tições a apodrecer nos versos antigos do aparador da casa grande da aldeia que
Junta em cinza todo o passado

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

NOITE DE TEMPORAL





Noite escura da solidão

Rosto de espuma branca de gelo rasgado
Ó pescador de almas
A morte não existe para os jovens amados pelos deuses
Perfeita harmonia de tempo amarelecido como as folhas de livro de pedra
Devagar devagar
As flores casam as cores sobre o gume de adaga mortífera

Pinto um quadro monocromático de infinito
Enquanto em Agrigento Empédocles discursa uivando
Um bote voga na barra lavrando o mar
Funesto túmulo dos ignorados

Noite escura de temporal

INFANTICÍDIO





Árvore derrubada
Não chores

Eu sei
Sei que o machado de ferro

Tem o cabo
De tua carne feito

EU E TU






As coisas não são mais que coisas
Aquelas que vejo

Ou me contam de ter visto
E imagino como são

E vejo por outrem ou mesmo por mim
No lago da eternidade

Onde estão todas menos eu
Que se de coisa me revisto

Pertencendo ao imaginário que é teu
É porque se no que existo

Sinto em ti o que é meu e
Em mim o que é teu

LOUVA-A-DEUS





Oh um Louva-a-deus -
Se o meu louvor
Fosse como teu

SONHOS-PEDAÇOS-DE-COISAS






As coisas sonham sonâmbulas
Tecidas pelo néctar das velas enfunadas
Pela neve cantadas

As montanhas escondem as colinas
As bailarinas sussurram à chuva amargurada de Outono
E a saudade acomoda-se na esperança
Louvado seja Deus que não tem de a ter
Que nada tem de ter
Bastando-lhe o vinhal lavrado de cachos doirados com que embriaga a Morte que assim não sabe o que faz

Vinho bebedor e escanção é o gamo que no bosque se refugia na linha recta
Das tranças de sarças

Jogo do destino envolvido em jade
Brilho de Lua nos outeiros alagados de cedros e sândalo
Na mesa de louça de barro por calcinar
Abre-se o coração à lei dos espelhos frondejantes
Também os homens nascidos na aurora
Tremem de frio azul devastados por fome sibilante
Com o céu a desmoronar-se em sonhos-pedaços-de-coisas

A NUVEM DOS DIAS



Arbustos de fogo ardente
Braços de plumas agrilhoados
Príncipes do Nada pudibundos
Feras abatidas com palavras de aragem
Rugido de mar nos canaviais de gente
Asilada no pomo desfeito da nuvem dos dias

Abrigo
De pobres-loucos-rastejantes manchados de chagas pungentes cor-de-rosa
Olhos de devaneio incerto da anciã terra enegrecida por punhais das estepes

Salvação
O Senhor-do-Mundo bem sabe o que faz
Mata estropia banha-se no sangue quente da carroça de um só rodado
Ainda que não carregue o peso do delito exilado de subterrânea consciência

Tristão
Triste o boi sacrificado pela farpa despovoada de piedosos
E a canção renovada da música aquática
Desaparecida na névoa escura do mar sem fim

Almas de fogo ardente consumidas pela escarcha

sábado, 11 de setembro de 2010

O MENINO É DE OIRO





No arco desfeito por sete estrias azuis
Olho o reflexo da noite no asfalto brilhante
Com todos os seus corpos de sonho a errar sem destino

Caem por terra os grãos de cereal oculto
A quem o arado da angústia não semeia no coração do anelo há tanto perdido
No lume infernal das sete candeias ripárias

O menino é de oiro
Foi violentado pela marginalidade da volúpia e do desejo canibalesco
De quem se banqueteia com a culpa de sua própria carne
Das fezes expelidas na atmosfera húmida das bocas imundas de sémen negro

O menino é de oiro
Mas a justiça é negrura cega
Convertendo o oiro em lento esterco nauseabundo
Putrefacto
Pisado pelo veado dos anos-sem-fim
Da corça que tarde sempre chegou às prescritas pastagens
Da cumeeira tardiamente enfeitiçada por carvões em brasa

Em todas as coisas pequenas
Nos ínfimos detalhes com asas de tempo
Morre a memória do homem com a mão no ombro
De bolsos desflorados pela desonra

O menino é de oiro
Venderam-lhe a pudicícia na pedra do sacrifício
Estrangularam-no para todo o sempre
Em cabos de velame cinza inerte a olhar o Tejo a desfilar indiferente

A alma feliz senta-se à mesa
Banqueteia-se com os restos mortais do papel amarelecido
Maços de letras amontoadas no esquecimento entorpecido da capa escura
O piano toca a madrugada do redentor
Exausto afasta-se
Abre-se a história sagrada da lenda e do incenso
O homem do horizonte prende-se a um pássaro de campo por ceifar
A árvore de tranças purpurinas cortada em sete pedaços
A alma dos ímpios mergulha numa melancia gigante à beira-rio
Seis as talhadas
Seis os venenos
Seis as fraudes
Seis as ignomínias do lodo
Pisado suavemente por pescadores de púlpitos adormecidos em cadeiras bolorentas

Sete vezes setenta olvidados sem perdão

Anunciação
O vital reflexo da vida
Instante breve do adeus do corpo imóvel
Vitorioso caos do mármore calado
Nuvens presas por tiras de couro às trevas
A fábula iluminada por poema larvar
A quem resta o mar adormecido
Donde nascem estrelas
Desenhadas na morte do declínio

O menino é de oiro
Verde é a explosão no infinito da dor
Do deus-dardo criador da miséria e do sofrimento acolhido na sombra do aguilhão ensanguentado

Onde está o Atirador?

COMO TE HEI-DE ESQUECER?





Tal como a Ulisses
Meu velho cão
Aguardou por mim
Para morrer

Ó Peste
Como te hei-de eu esquecer?

A JUSTIÇA DO MEU PAÍS






As leis são como as teias de aranha que apanham pequenos insectos e são destruídas pelos grandes.
Sólon



Justiça tardia é denegação de justiça, seja para as vítimas seja para os próprios delinquentes.


Tenho evitado tecer quaisquer comentários sobre a justiça, de quem me “divorciei” há cerca de oito anos. E quem se divorcia, não volta a dormir na mesma cama da sua ex-mulher, não vá o Demo tecê-las...

Mas,
quando os ventos da desgraça arrastam todas as naus para os rochedos da barra, embriagando os pilotos com o néctar do prestígio, servido em taças de argila que não foram cozidas,
quando o povo assiste na praia ao inevitável desastre, transmudando em espectáculo circense uma verdadeira catástrofe,
quando os pilotos estão mais preocupados com a sua imponente-imagem-gravatal ao leme, do que com o rumo da embarcação,
quando a competência é preterida pela impressão causada em entrevistas de vão de escada,
quando os erros apenas são desculpáveis por terem a sua origem em náufragos esfarrapados, sem sextante, astrolábio ou quadrante, e incapazes de obter o ponto por desconhecimento da arte da navegação,
quando ninguém encontra protecção na Justiça, que para além de ter uma venda nos olhos, deveria também ter uma outra na boca,
numa insatisfação geral, de vítimas, aprendizes de criminosos e criminosos, e outros navegantes espectrais de navio fantasma a mergulhar nas profundezas da iniquidade,
que Nasrudin vos aproveite e sirva de lição.



Um comerciante em viagem entrou com a sua caravana numa cidadezinha do interior do país. Acometido por intensa cólica intestinal, não se conteve e fez as suas necessidades bem em frente ao templo.
Surpreendido por alguns populares, foi levado à presença do juiz, que era Nasrudin.
Este, perguntou-lhe:
“Era sua intenção ofender-nos com tal acto? Era sua intenção ofender a nossa sagrada religião e todos os que a professam?”
O comerciante respondeu:
“Não eminência, nunca. Respeito e sempre respeitei os costumes e crenças dos lugares por onde viajo. No entanto, padeci de tal dor de ventre, que não me consegui conter.”
O juiz olhou-o longamente e, perante a evidente sinceridade do réu, preparou-se para proferir sentença.
Perguntou:
“O que é que o senhor prefere? Um castigo físico ou uma pena de multa?”
“Uma multa, meritíssimo.”
Nasrudin, disse:
“Nesse caso, condeno-o ao pagamento de um denário.”
O comerciante retirou da sua bolsa uma moeda, outra e ainda outra, dizendo:
“Senhor, tenho apenas uma moeda de dois denários. Partamo-la ao meio ficando o tribunal com metade, assim se fazendo justiça.”
Nasrudin pegou na moeda de ouro, olhou-a calmamente e disse:
“Não! Esta moeda não deve ser partida. O tribunal arroga-se o direito de ficar com ela, concedendo ao réu o direito de no dia de amanhã voltar a fazer as suas necessidades diante da porta do templo.”


Assim se fazendo justiça...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

SACRÍLEGO PAÍS





Nas avenidas deste sacrílego país
Soterrado de mentiras e ardis
Ergueu-se pregoeiro de voz sonora
Velha raposa amestrada entre oiro e areia

Levantou os olhos às profundezas
Ergueu-se do covil do lobo branco
Jurando pelo demo embriagado de podre sarro
A candura das almas a leiloar

Políticos Magistrados Poderosos Letrados
Todos interrogados pelos
Compradores de Escravos

Outrora estimados hoje odiados nem uma
Moeda pagou seu resgate Nem Satanás
Os quis em suas terras ardentes


ALMA AZUL






A alma sangra
Empobrece
O lago esconde-se na pedra negra que os construtores rejeitaram
O céu derrama nuvens não profanadas
Com dedos de pétalas a apontar graciosamente a lua que hoje é nova
E penas sem remédio

De quem é aquele Castelo nos confins da tua voz?
De quem é o eco sem fim?
Que matronas vagueiam nas ameias que confirmam o trono de medusas?
De quem é o olhar verde que se desvia do abismo da matança dos inocentes?

Aquele que é filho da Terra e dos Mares
É o Vivente
O Estio do chapéu-de-chuva do Outono glacial
De largos gestos estreitados ao peito de mutilada estátua cinzenta
Fruto doirado a assistir insensível
À infinita mascarada das horas profundas
Depositadas em astros incandescentes
Nascidos dos ulmeiros da infância
Cingida por palavras anos-luz
Anunciadas por um sino velho e rouco
Engasgado pelo catarro húmido e irritante do relógio da torre

Enquanto isso
A alma sangra numa folha azul
E exaure-se

PEDIDO





Apesar de viver querer
Se antes de mim morreres
Pergunta à Senhora Morte
Se podes transportar contigo
Um velho amigo

ILUSÃO






A ribeira da minha aldeia
Seca no Verão

Sinto a água corrente
Vejo-a brilhar ao sol

Pura ilusão
De quem ver quer
O que não pode ter





AVE DO AMOR





O amor é ave de tormento
Fera atroz de flecha sombria a pairar no azul
Que acorda o cosmos na escuta dos passos
De um outro coração a sofrer no silêncio das trepadeiras do Sul

Sentado em ramagem púrpura
Na qual divaga a noite
De faces rosadas
O obus da claridade do mundo

Há uma névoa de marfim
Estanhada na Lua
As laranjas caem dentro das ameixas orvalhadas
E a mulher procura o instinto
Que se embrenha na fenda do castanheiro de argêntea cabeleira

A cidade morre lentamente a olhar o rio
Lânguida vista de vendedor de pensos e de melancolia ao peso
Há automóveis que são luzes puxadas por astros disformes
Há luzes no chão da harpa dolente
Há mulheres-caranguejos a subir e descer em Santa Ordem
O pátio da Esperança está vazio
Levantar-se-á cedo com as chamas do ocaso a queimar os cabelos inermes

No primeiro andar a morte vagueia no tecto sem beleza
E o Castelo das Trevas balbucia a alvorada da Casa dos Corações
E a pomba do calor do Verão sorverá a luz vermelha da Torre dos Moribundos

Deus vai descer à Terra
Pescará com redes de arame entrançado no tear de Yama
No oceano de todas as raízes
E verá dentro das mulheres que amo
O julgamento e a absolvição do vento nas árvores de portas abertas
E no vinho das taças derramadas onde habitam as marionetas de cinco dedos
Deitadas no sonho do bolso da noite acordada na tenda do desterro
E eu estarei lá em insónia
Deitado ao seu lado
Com todas as mulheres-desejo que nunca amarei

E sonharei para todo o sempre

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

DIA DE FINADOS






No dia de finados
A morte de sua amada

Para memorar a morte
No dia de sua lembrança

Viu-a o desgraçado descer à cova
Sereno de lágrimas

Morreu também o amado
Que na amada vivia mais que em si

No mesmo coval relvado
Foi sepultado em alba fria


JOSÉ MARIA ALVES
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DE TI





De Ti venho
O Nada

Para Ti vou
O Nada

És Tu que eu sou
O Todo


JOSÉ MARIA ALVES
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O ANIMAL SELVAGEM





Sou no mundo o animal selvagem
Oculto em floresta de silvas e espinheiros

A água dispersa no coração
Do banquete de monstros e orquídeas

O vinho que enche as taças efervescentes
Das noites pecaminosas de luar

Sou a alma negra do tumulto
A afagar a morte com tranças de vidoeiro

O que espera na estrada sem berma
A aparição da doce aragem de romã madura

Que sulca os mares perdidos de sangue
Sem destino ou rumo na nau fantasma

O que se alimenta vorazmente do tempo
E sente que gota a gota se derrama

No oceano da vida que finda
Quando o Sol se põe


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CREPÚSCULO






O crepúsculo venceu hoje a aurora
Depois do mistério da noite
Ter consumido meia vida
Em meia-noite vivida

O medo ergueu-se com a alba
Para que ela o pudesse contemplar
Na sua forma quase divina e etérea

Loira serpente das profundezas do desejo

A Senhora da Noite Obscura
É a minha paixão incognoscível
Luminosa estrela de braços esplendorosos
Meia-noite
Meia-vida
Meia existência perdida

A sombra explode em rosas luminosas
Florescem os seios da manhã a amamentar lírios
No mar azul-celeste de espuma ígnea
Jardins suspensos rejubilam
Ao marulhar de rochedos disformes

Um espectro diáfano perfila-se
Imagem sacra de pedra
Guardiã dos portais de catedral
De papel de seda rosa
Enquanto o Sol dói ao nascer

No dia sombrio um rio espelhado
Percorre as margens do cérebro
O mistério escorre lânguido
Pela ponta dos compridos dedos
Da noite anunciada
A montanha é um beijo áspero rude exacto
E o lago acetinado acaricia melancolicamente o afogado
No casamento da alegria com a dor
Da vida com a morte
Celebrado no campanário do crepúsculo
À vista dos dons de misericórdia
Do Inferno dos Céus
No fim da avenida do Enforcado

A noite veste-se de luar depois do dia se desnudar
Um mundo magoado enraíza-se entre blocos de granito cinza
O vento brame
A noite em êxtase
As trevas balbuciam orgasmos nas copas virgens dos pinheiros
O vento
Gemente
Chora lágrimas de folhas secas
Rasga o peito das sombras com o espinho da solidão
Num corpo de mulher enevoada

Meia-noite
Meia-vida
Meia existência despedaçada


JOSÉ MARIA ALVES
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