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ARTE

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sábado, 31 de julho de 2010

SURREALISMO - LIBERDADE E CRIAÇÃO






Há um sufoco no meu coração, como sufocam todas as almas que aspiram à liberdade. Tudo o que fazemos, tudo o que escrevemos é o resultado inevitável dos nossos condicionamentos e onde estes florescem não pode existir liberdade.

Com Krishnamurti, podemos afirmar, que liberdade não significa estar livre de alguma coisa, seja do que for. É a mente, em si mesma, que é livre. É um sentimento extraordinário, a mente ser livre em si mesma, conhecer a liberdade pela própria liberdade, a liberdade sem motivo.
Ora, se o indivíduo não é livre, não vislumbramos como possa ser criador, como, em rigor, possa ser o criador da obra de arte. A palavra criador não é aqui utilizada no sentido restrito do artista que pinta um quadro, do poeta que escreve poemas, do cientista que inventa novas máquinas ou do artífice que engendra novos objectos. Tais indivíduos, não são realmente criadores, podendo quando muito ter inspirações momentâneas, já que a criação é algo distinto. Só pode existir quando há liberdade total. Nesse estado há plenitude e, então, pintar um quadro, escrever um poema, talhar uma pedra ou um tronco de árvore, tem um sentido completamente diferente. Já não se trata de uma mera expressão da estrutura da personalidade, nem o resultado compensatório de uma qualquer frustração, nem a busca de prestígio, de compradores ou de assentimento.
Daí, talvez possamos afirmar, que apenas os “inocentes” são realmente criadores, que talvez, apenas eles estão em condições de criar algo novo.
Os condicionamentos que nos são impostos pela razão, a que crianças e loucos são alheios, permitem-nos a leitura de uma nova realidade criada e o novel só pode nascer do que é em essência livre.

Na poesia, será provavelmente o surrealismo, que melhor se adapta ao conceito mencionado, enquanto que na pintura, será o da abstracção depois da abstracção, entendida como ausência de toda e qualquer legibilidade, interpretação figurativa, intelectual ou simbólica da obra.

Mário Cesariny, descreveu o surrealismo como o que existe de mais parecido com a poesia. Algo que não é possível ensinar – “tudo o que é pedagógico é muito mau. Tudo o que nasce como revolta é um tormento. O surrealismo foi um convite à poesia, ao amor, à liberdade, à imaginação pessoal.”
Foi e é um convite generalizado a todos os indivíduos para que sejam origem da obra de arte, ou seja, aquilo a partir do qual e através do qual a obra seja o que é e como é, o que constitui a sua essência, livre de condicionamentos.


O Manifesto do Surrealismo de André Breton foi publicado no ano de 1924. Breton e Soupault deram-lhe o nome em homenagem ao poeta Guillaume Apollinaire.
Quanto ao Movimento Surrealista de Lisboa já tivemos oportunidade de nos pronunciar num outro artigo, cabendo aqui acrescentar que a partir dos anos 50 o movimento extingui-se na prática, restando uns tantos poetas, consequentes com os seus princípios gerais.
O Surrealismo, é indubitavelmente um movimento “revolucionário” nas artes – lembremos aqui, por ora, o recurso ao automatismo psíquico com todas as suas consequências.
É uma experiência essencialmente interior, que se pode inclusivamente manifestar como “iluminação”, experiência essa, que se estrutura na liberdade, permitindo a produção artística individual ou colectiva.

Vários foram os métodos explorados, nomeadamente:
· a escrita automática ou semi-automática – é de realçar que a escrita automática pura apresenta grandes dificuldades em virtude de ser praticamente impossível eliminar de forma total a censura e os condicionamentos, pelo que podemos falar tendencialmente num surrealismo em que o artista se abandona ao processo criativo ainda que de modo vigiado.
· a colagem linguística – implica que se destaquem palavras, pedaços de textos, ou versos, sorteando-os ao acaso, de modo a que resulte um novo texto. Nalguns casos, as palavras ou textos destacados, são ordenados em função de uma atitude poética, ou seja de modo vigiado.
· a colagem picto-poética – aglomerando textos visuais e textos verbais.
· o Inventário – reunião de fragmentos de um ou mais discursos, criando um discurso novo.
· a criação colectiva –v.g. Cadáver Esquisito - um papel é entregue a cada um dos participantes, sem que tenham acesso ao que está escrito, podendo perguntar-se algo de modo abstracto ou a final ordenar os versos escritos sequencialmente.
Um exemplo (João Artur Silva e Mário Henrique Leiria):

O VERMELHO E O VERDE

- De que cor é o vermelho?
- É verde.

- Quem é o teu pai?
- É o revisor do comboio para a lua.

- O que é a loucura?
- É um braço solitário sorrindo para os meninos.

- Quem é Deus?
- É um vendedor de gravatas.
- Como é a cara dele?
- É bicuda, com uma maçaneta na ponta.


Outros exemplos neste blogue na ETIQUETA » O MOVIMENTO SURREALISTA DE LISBOA


Num comunicado, os surrealistas portugueses Artur do Cruzeiro Seixas, João Artur Silva e Mário Henrique Leiria, afirmam:
“(...) o Homem só será livre quando tiver destruído toda e qualquer espécie de ditadura religioso-política ou político-religiosa e quando for universalmente capaz de existir sem limites.
Então o Homem será o Poeta e a Poesia será o Amor-Explosivo.”
Finalizam:
“Para a pátria, a igreja e o Estado a nossa última palavra será sempre: MERDA.”


O Surrealismo, apesar de incomunicável é eterno, enquanto e porquanto aniquilador da razão. Mesmo que nos afastemos dos seus princípios ou o neguemos, nunca deixará de existir, impondo-se o urgente retorno à poesia que mais não é do que o próprio Surrealismo.
O Surrealismo é a aventura, a paixão geradora da criatividade e da liberdade.

Como disse António Maria Lisboa, “O poeta só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo."

quarta-feira, 28 de julho de 2010

MÁRIO CESARINY (1923-2006) - VOZ NUMA PEDRA





Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-lhe ele nessa altura Luiz
decerto fui com Ísis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco-íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos

Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais rimará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores da morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhes como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal

ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928-1953) - CONJUGAÇÃO







A construção dos poemas é uma vela aberta ao meio e coberta de bolor
é a suspensão momentânea dum arrepio num dente fino
Como Uma Agulha

A construção dos poemas
A CONS
TRU
ÇÃO DOS
POEMAS

é como matar muitas pulgas com unhas de oiro azul
é como amar formigas brancas obsessivamente junto ao peito
olhar uma paisagem em frente e ver um abismo
ver o abismo e sentir uma pedrada nas costas
sentir a pedrada e imaginar-se sem pensar de repente

NUM TÚMULO EXAUSTIVO

ALEXANDRE O´NEILL (1924-1986) - ELEGIA






Dor de ver-te
amor morto

Dor de amar-te
morto amor

Dor a morte
dor o amor


Dorme

MÁRIO CESARINY (1923-2006) - POEMA





Tu estás em mim como eu estive no berço
como a árvore sob a sua crosta
como o navio no fundo do mar

GUILLAUME APOLLINAIRE (1880-1918) - O ADEUS






Colhi uma haste de esteva
O Outono morreu lembra-te bem
Não nos veremos mais sobre a terra
Odor do tempo haste de esteva
Espero por ti lembra também

Tradução de José Manuel de Vasconcelos

HANNES PÉTURSSON (1931) - AMOR DE VERÃO


Eu sou o vinho e tu o rebento
eu sou a vide, amado.
Enredei-me nos teus braços e pernas
enredei-me ao teu corpo este verão.

Eu era vinho agro e jovem.
Já é outono
e agora é doce a minha seiva.

Tradução de Amadeu Baptista

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO (1938-2007) - AMOR É O OLHAR TOTAL






Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

ANTÓNIO JOSÉ QUEIRÓS (1954) - MANHÃ



De manhã há um sorriso
que se abre na tua boca
como uma rosa orvalhada.

Acolho-me à sua luz
como um corpo cansado
à brancura do linho.

Faz dele a morada
onde eu viva para sempre.

SILVA PALMA (1870-1917) - NEM TUDO PASSA


Passa a água do rio, clara e cantante,
Passa no céu profundo a tempestade,
Passa a folha caída e, num instante,
Passa o tempo que leva a mocidade...

Passa a onda no mar, seguindo avante,
Passa a águia veloz, na imensidade,
Passa da rosa o cheiro inebriante
Passa dum lindo olhar a claridade.

Passa o vento, a gemer, nos salgueirais,
Passa a luz boiando... e na amplidão
Passam ecos d’acordes musicais.

Só tu mulher que amei, desfeita esperança,
Só tu que me abrasaste o coração,
Me não passas um dia de lembrança.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

SEM PRINCÍPIO NEM FIM




No princípio
Se é que houve princípio apesar dos homens a tudo darem primórdios
Já que sem início a nada dão existência e
Apesar da essência do Ser ser o Não-Ser e o Não-Ser nunca nascer

Mas nunca houve princípio quer se queira quer se não queira
Quer se façam ou não birras-filosóficas-infantis ou
As equações os resultados falseiem ou
A carroça-vã da teologia insista no mesmo trilho-sem-verdade
Quer se inventem os deuses que a imaginação e medo alcancem
Nunca houve princípio


Tudo fluía nesse início que não foi princípio
Como agora flui
Como para sempre fluirá
Manifestando-se em formas multíplices
Impermanentes
Ocasionais
Sujeitas a leis errantes
Encobertas
Locais

Não há leis gerais
E o Ser

O Ser vive em si
No infinito
Na eternidade da chama
Viva do Amor

Não habita em quem o vive
Nem no que vive

Não está e não é
É e está
Como taça vazia
Que se enche de nada
Fonte de água da levada
De mil e uma nascentes
Que irrompem na rocha
Tal braço de mar
Que tudo arrasa

Indeterminado
Inominado
Sem fim ou começo
Alto ou baixo
Ou lado
Sem espaço
Não pode ser buscado

Não existe para si
Para mim
Para ti
Existe por si
Na invisível eternidade

Existência que é essência
Essência com existência

O eterno sem centro é perfeito
Como o rio que corre no seu leito
E com humildade se faz oceano

Não se esgota
Não é tudo
Nem nada
É o vazio íntegro da totalidade

O que não tem fim
Nada sustenta
Não é sustentado
Não é teu ou meu
De qualquer marca de gente
Local ou universal
E quando por mim passa
Estou certo
Não há eu
Apenas o vácuo da mente

O tempo dos tempos é percorrido
Em mutações sucessivas
Inesperadas
No seio do que sem começo nem fim
Muda e flui
Na sua majestosa permanência
E enganadora aparência

Muitos milhões são as galáxias
Incontáveis os profundos universos
Fabricando-se e desfazendo-se
Por amor da união
Da desintegração
No tempo eterno
Espaço infinito
Do que permanece
Na dança cósmica dos mundos

Não houve princípio
Não haverá fim

Inventaste o princípio e os deuses
Atormentado por medos
E pelo sentimento do vazio entediado
Gerado pelo cárcere do tempo
E pelo esquife do espaço imenso

Não houve princípio
Não haverá fim

Há um campo de concentração
Onde abunda a fome de espírito
Os reclusos alimentam-se de fantasmas
Enquanto o cérebro esquelético
Se degrada e definha
Há gente de esperança e desespero
Todos ludibriados por espectros visíveis
Almas de outro reino inventado


Pergunto-me para onde vou
Para onde irei
Quem sou

Sou o que não tem interpretação e que perante o mundo
É apenas o insignificante sem rumo
O caminhante do nada
O que morrerá numa qualquer estrada
Anónimo

Não ouso desejar
Até o desejo do Ser é ilegítimo
Nenhum desejo é permitido
Apenas o do ancoradouro inseguro

Não desejar
Desejar a ausência do desejo já é desejar
O desejo é insaciável a ambição desmedida
A paixão dilacerante e o apego mata
Só existe alívio para quem a si se basta

Não saio de casa
Do meu pequeno e dócil quarto
Vejo tudo o que se pode ver
Conheço tudo o que se pode conhecer

Viajo sem me movimentar
Conheço sem ler
Amo sem te ter
Ajo na tranquilidade e por todo o lado
Sopra o vento da felicidade

Sou abastado por nada possuir
Sou forte por sem esforço me vencer
Poderoso sem me mexer

Poderei eu perder o que não tenho nem intento ter

O que faz muitas coisas e guarda o seu fruto
Não o conservará
Tudo perderá

Quem age sem intenção frutifica naturalmente

Quem busca perde-se no além da floresta virgem
E nada retém ou encontra

Encontrar significa libertar

Quem quiser guardar a reputação perdê-la-á
Quem quiser amontoar riqueza arruinar-se-á
Quem quiser aferrolhar paixões corromper-se-á
Quem quiser escudar-se do perigo perecerá

Morto ficarei onde estou
Estarei onde não estava
Verei o que não vi
Sentirei o que não senti
Serei o que não sou
E irei onde não vou

Séculos e séculos a investigar a morte
Que dilacera corações e agrilhoa espíritos

Sabeis o que é a morte
Sabeis o que é morrer

Se falecerdes para o passado a cada minuto
A todo o instante sabereis o que é o decesso
O que é fenecer

Extinto o ego resta a Mente vazia
Na paz dos tempos infindáveis
O que não tem princípio nem fim

Afinal o que por tanto procurardes
Nunca encontrásteis nem encontrareis
Ocupados como estais com velhos trastes
Que o Barqueiro não vos deixará transportar
Para a outra Margem


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

QUEM NÃO ESPERA SEMPRE ALCANÇA...




Perguntei-Te quem és
Supliquei a Tua vinda
Busquei a Tua morada
Amei para Te amar
Orei para Te apiedar
Pequei para na Tua ira
Te poder contemplar

Entrei no mundo dos sentidos
Esvaziei a mente
De crenças
Filosofias
Ninharias

Deixei a porta aberta
Sem esperar ninguém
Nada

Absolutamente nada

Quem não espera
Sempre alcança

Ou Tudo
Ou Nada


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

I CHING



As nuvens estão a chover
Paradas
Eu movimento-me

As nuvens estão a chover
Em movimento
Eu paro

Age a Natureza
Pela paciência

Os dragões voadores planam nos céus
Por cima dos hortos

Os que voarem para alturas
Inóspitas e desconhecidas
Renegando a prudência
Perderão a constância
E cairão no Vale dos Mortos

O mais profundo do abismo
É cavado e negro

Nas profundezas da escuridão
Ficam os desprevenidos encarcerados
Os governos desgovernados
Arrojando-se pelo chão
Loucos sem tino

Caem víboras do pedestal
Cabeças de monges rolam
Como bolas de cristal

Senhores da terra
São papagaios de papel
A voar sem destino

Ressurgem profetas
Da desgraça
Tomba a Torre de Babel


A terra fecunda
Está receptiva
Recebe o alimento do céu

Na montanha
A minha imobilidade
Inibe a sementeira

Por vezes
Sobressai no meu íntimo
No mais profundo
Das minhas entranhas
A gentileza
a docilidade
A humildade

Ser humilde não é ser humilhado
A força da alma
Embarga-mo

Vencer
É necessário vencer
Sem humilhar o vencido
Quem o fizer
Pela espada da Morte
Será dizimado

Cerrei o alforge
Não entram
Nem saem pensamentos
E a mente está serena
Na doçura da imobilidade

Geada no vale
Batalha no campo
O meu sangue é amarelo-escuro
Aguardo o combate dos leões
Para repousar no dorso da égua casta

Um povo massacrado
Um povo espoliado


Trovões nascem das nuvens
Rolando pelas encostas do céu
As minhas lágrimas são de sangue

Choro os mortos inocentes
Da terra esventrada

Entrei na floresta
Perseguindo o veado real
Minha montada estancou
Imóvel ficou sem pestanejar
Não prossigo
Estou abatido e exausto
Mesmo na inacção

Há choro e ranger de dentes
Um mundo caótico de dementes
Ambiciosos descrentes
De amor ausentes
No
Terceiro mês
A morte dos inocentes


Da montanha dos dias azuis
Brotam as águas de dois nascentes
Num só
Águas diferentes
Águas inocentes
Que não as mesmas

Águas do degelo
Correm na encosta
Arrastando na frente
Corpos mutilados
Braços soltos
Mãos abertas implorando
A misericórdia
Dum deus adormecido


O rio é vasto
Suas águas extensas
E caudalosas
A corrente barra-me
Volto à margem
Ao lodo
Do lodo à areia de sangue
Onde os convidados me aguardam

Na margem não há segurança
Os convivas em debandada
Um enforcado na árvore da Vida


Os céus límpidos
Rejeitam a água ascendente

Escondo-me na obscuridade
Na profundidade da fossa abissal
Que estremece o terror


O veio de águas límpidas
Trespassa o coração da terra
E a sua superfície violentada
Por um exército em debandada

Três vezes o general o instruiu
Três vezes ordenou ordem
Seis vezes ordenou a retirada
E nada
Há desordem vaivém
Demasiadas baixas
Desdém

O meu país já não é
Não é de ninguém
O covil dos ladrões


Da humildade nasce a harmonia
Em equilíbrio

Perfeito é o acordo das entranhas
Com o mundo


De Ocidente chegam nuvens
Carregadas de negro-pérola
Sem chuva
Arrastadas pelos ventos
Viajo num carro sem rodados
Os meus olhos no horizonte
Longe dos teus
Luzentes de lágrimas

Já choveu chuva do Oriente
O Veado a morte pressente


Um céu um lago
A floresta densa
Do tigre que repousa

Estou sozinho
Na longa caminhada
Em que o espezinhei
Sem ser atacado

A minha intenção é firme
Natural e boa
Como as águas passadas
O soldado continua o seu caminho
Sem comandante
Ou a quem comandar


Curvou-se o céu
Beijando a terra virgem
O alto e o baixo tranquilizam-se
À beira das águas
Arrancámos os juncos
E amámos os desafortunados
Amando-nos a nós
Nos muros graníticos
Da fortificação imaculada


Os céus longínquos
Alhearam-se da terra fecunda
O que vem fica
O que vai não volta
Ambos choram e riem
Na servidão do espaço
O muro da perdição não se desmorona

Depois do muro em pedra solta
O contentamento alegre –
Finda a obstrução a realização


Atravessando o Rio Grande
Encontrámo-nos no deserto
E acendemos o fogo do amor
Na noite fria de estrelas ocultas

Da cooperação nasce o equilíbrio
Da integridade a sabedoria


O fogo intenso sobe aos céus
Extinguindo o mal
A insignificância humana
É desfavorável e perniciosa
E deve ser repudiada
A inocência produz o bem

Da minha mente
Saem palavras de verdade
Que deveriam gerar confiança
Mas apenas alimentam a maldade
De perversos e culpados

Um carro pequeno carregado
É o nosso engano
A falsidade

Os cavalos preparam-se para a contenda


O Espírito fere o farto
E enobrece o humilde
Na sua grandeza surda e muda
O cume da montanha
É humilde modesto –
Cultivar a humildade é hipocrisia
Ser humilde é auspicioso


Sol e Lua percorrem as suas órbitas
As Estações sucedem-se
Primavera em floração
Estio de fogo Outono rubro
Inverno de recolhimento
Há uma suave e secreta harmonia
No mais íntimo do meu ser

Com a luz vem a sombra
O cavalo branco alado
Não deixa rasto
Nem na terra nem nos céus
O cavalo preto da retaguarda
Não afecta a terra em movimento

Estou feliz hoje
Apenas hoje


O poente está no horizonte
Belo como nunca
Inocente como sempre
O Sol fecha os olhos vagarosamente
E eu repouso com ele
No seio de luz
Que com leveza se apaga
Aguardando o novo dia

Desejo do desejo
Ansiedade

Sinceridade e caminho
Clareza na contenda


Há uma brisa no sopé da montanha
A acariciar a rocha inerte
Sublime e suave detém-se
No seu próprio movimento
Retornando ao centro
Como quem começa de novo
Sem começar
Tal o rio que esmorece no Verão
Sem secar


O cavalo branco
Debate-se no pântano
Com esforço liberta-se

A salvação tem a sua origem
Na pureza e rectidão


O vento subtil varre a Terra
Observa-se e contempla-a
Que doce e gentil visão
Há paz na contemplação


Mordo apenas
Apenas com intenção de morder
Assim supero barreiras
E inutilizo a canga que me oprime
Que impede o ouvir e o ver


A fogueira dos deuses
Ilumina o cume áspero
A luz das labaredas
Invade as veredas
No caminho há alegria
E simplicidade
Não há ódio
Não há rancor
Nada que cegue a límpida visão
Da Realidade
Dos jardins imponentes
Tecidos momento a momento


Àquele que tem dar-se-lhe-á
Ao que não tem retirar-se-á
A perdiz fraca queda-se no ninho
O boi doente não vai ao verde pasto
Fruto que não é maduro é rejeitado
Quem não tiver onde reclinar a cabeça
Mantenha-se imóvel


Regresso ao coração do Universo
Onde aguardo paciente
Que me seja apresentado
O mistério da Criação

Mas o retorno
É à eternidade
Sem começo


Há relâmpagos na noite
E trovões cortantes
Inundando o silêncio das trevas

Os tambores celestes são fiéis ao Todo
O ruído ensurdecedor anuncia a Morte
Que vem do Oriente


O carro não tem eixos
O cavalo persegue
O boi novo tem madeira nos chifres
As presas do cerdo capado
Estão na encruzilhada do céu
Segura é a edificação


O corpo alimenta-se
O espírito nutre-se
O excesso de discursos
E a mesa repleta
Destroem
Ambos são assento
De estultos


A pedra angular desgastou-se
A viga mestra vergou-se

Hora de recolhimento
No encalce da paz
Da tranquilidade
Da gratuita serenidade

Não há medo na solidão
Nem ansiedade no afastamento
Mas alegria e congratulação


A água corre silenciosa
Em veios visíveis
Mas inaudíveis

As armadilhas sucedem-se
Na sua arrojada acção

Quem cai no abismo é sepultado no fundo
Ergue a tua taça
Num brinde ao mundo imenso
E do fosso verás a claridade

Não abandones a sinceridade
Não morras antes de viveres


Fogo é paixão e luz
União e clareza
Estranha é a beleza
Da destruição
No verdadeiro é vantagem
Estar à mesa e ter
A candeia acesa


Quem se senta no lago da montanha
Enxerga com sentimento favorável
O que em baixo está
Derramando em sussurro as suas palavras
Na partilha da afeição


Trovão e vento harmonizam-se
O Sol e a Lua têm o Céu

O verdadeiro persiste
Em estável equilíbrio


Há hipócritas vigaristas
Corruptos mentirosos
Ignorantes e incompetentes
Gente descomposta
Afasta-te deles

Eu retiro-me reservo-me
Protejo-me
Com sucesso afasto a indecência
E resisto


Não deixo que me firam a verdade
Antes a espada à fraqueza
Para que o poder da grandeza me persiga
O trovão purifica os céus
A verdade a alma
Não sou complacente
Até à exaustão
À perda da energia


Os cavalos brancos correm na planície
Inundados de luz
Tudo é incandescência directa e por reflexão
Caminhando no progresso
Até à evidência do fim
Até se exaurir a íntegra plenitude


O sábio mergulha nas profundezas
Da Noite Escura
Sofrendo privações
Dores erráticas

Perseverando verá brilhar a luz


Da fogueira saem línguas de vento
Está no interior o que do interior é
E no exterior o que é do exterior
No sossego e docilidade do lar
Está a harmonia do mundo
Quando os pais são pais
E os filhos filhos
A maior perda é a da fidelidade


O fogo sobe aos Céus
Enquanto o húmido desce à terra
O céu opõe-se à terra
Mas os seus esforços conjugam-se
E os seus desejos conciliam-se
Os contrários identificam-se
Sem se humilharem
Foge o cavalo branco pela encosta
Desaparecendo nas ravinas ocultas
A canoa vazia
Amontoa-se de espectros horríveis
Mas chove
E a alma aquieta-se


Sopram ventos de Nordeste
Contra as torres de metal
A água cobre as montanhas
Sendo inútil a ascensão
Retorna a ti
Ao teu centro inabalável
Só ou acompanhado
Promovendo o justo equilíbrio
Da inevitabilidade


Sopram ventos de Sudoeste
Extinto o Nordeste
Com chuva e trovões
Caçadas as três raposas
Há harmonia na caminhada


Uma taça vazia
Outra plena
A plena esvazia-se
A vazia enche-se
Assim findando avareza e ódio


O vento sopra
O trovão ensurdece

O aumento supera-nos

O mais alto fica mais baixo
E o mais baixo mais alto

Com o tempo
Atravessa-se o rio
Na direcção dos Céus


Não há fraqueza na vontade
Nem hesitação na sabedoria
Quando a água ascende aos céus
No estado de completa atenção
Os salteadores da noite serão repelidos

Mesmo que sós viajemos
Não havendo carne nas nádegas
É o andar vacilante
E ouvir as palavras de sonhos sem acreditar
Designa que a audição não é clara ainda


O vento está por baixo do céu
E o encontro é inevitável

Suavidade e dureza confrontam-se
O poderoso é inconciliável com a fraqueza

Será necessário que algo desça dos céus
Para que o porco magro desapareça


Os sábios defendem-se

São múltiplas suas armas
Tantas quantos os inimigos
Adequadas a cada acção

Defendendo-se da contenda
Antes da execução
Não haverá lamento choro
E perda de alimento

Se nada restar para além do combate
Erguei a adaga mortal
Sós
Ou tendo por aliado um general
Em guerras experimentado


Na terra crescem árvores
E erguem-se torres
Em constante ascensão

O vento transporta com leveza
A ave que plana receptiva
No caminho sinuoso
Para o Reino do Vazio

E o ser que os degraus sobe
Verá a harmonia
O justo equilíbrio


Quando o lago está seco
Perde-se o ânimo
Fica-se exausto

Nada se obtém de terra seca
E gretada

O vale escuro do coração degrada-se
O quarto está vazio
O nariz e pés decepados
No lento trilhar da felicidade
Que não admite abatimento


O vento sopra na base da água
Que sobe na estreita fenda da terra
Mergulha nas tuas profundezas
Como o peixe pequeno do fundo do poço
Sozinho sem que o balde se despedace
Ou o cântaro se quebre


Alguns mudam como tigres
Outros como leopardos

É justo usar a pele do boi amarelo

Água e fogo extinguem-se
Em contínuas mudanças

Os arquitectos da ponte
Não a querem armar no mesmo local
Os edificadores do templo
Divergem no material


Reuni madeira vento
Ateei o fogo
É seguro o resultado
O alimento aí cozinhado


Chegou o trovão com seu ribombar
Ecoando nos céus dormentes
O medo acompanha-o por momentos
Fazendo tremer a terra inocente

Depois da tempestade a bonança
Na subida dos nove montes


Há um tempo de quietude
Na montanha inerte e sóbria
Também eu me quedo
Em perfeita imobilidade
Aguardando o tempo próspero da acção
O momento que não apresso
Da súbita iluminação


Não tenho pressa
Não estou impaciente
Cresço como a árvore lenta
Na cumeeira da montanha
Em partilha com o céu
Comungando a terra


O trovão estremece o lago
Tudo está como é
E deve ficar como está
Satisfaz-te com o presente


O trovão e a luz
Iluminam as ameias do castelo

O banquete é lauto
Enchem-se as mesas luminosas
E de alegria os corações
Mesmo os dos incautos
Quando a estrela do Norte
Não é de dia divisada


Acendemos a fogueira
Na cimeira da montanha
Interrompida a viagem
No repouso e silêncio do alto
Não há contenda
Mesmo perdendo a seta
Que sacrificou o faisão


Cavalgo no vento
Seja qual for a sua direcção
Com gentileza
Acolho-me no seu seio
Trilhando sem exaustão
Os caminhos do céu


A água límpida purifica
O prazer a alegria

Extingue-se o medo da morte


O vento sopra lento
Na água calma da barragem

O sangue está disperso
Na multidão que se agita em viajem


Recolhe-te no pátio interior
Mas não abandones o exterior

Se o não fizeres
A quem poderás culpar


Há vento no lago
E uma embarcação ao largo
Sem timoneiro
Sem passageiro

Um grou grasna na sombra da margem
Ao longe o rufar de um tambor
E o choro de uma criança

Apenas a justa dança
Que acontece no meu interior


Um pássaro voa para o alto
E o seu grito desce
O pequeno não fenece
Deixa-se arrastar pelo refluxo da maré
Com reverência e frugalidade
Contenção e prudência


A consumação opera no pequeno
E estriba-se na correcção
Como quem arrasta rodas


A raposa atravessou o rio
Molhando a cabeça –
Desprezou a experiência

A essência da humanidade é a guerra
A essência do homem é a violência


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

segunda-feira, 5 de julho de 2010

SER O QUE SOU






Sozinho ao sol

Os raios quentes penetram-me a carne
E eu não penso nada

Uma brisa percorre
Lentamente o meu corpo
E eu sei sem saber porquê
Sei que a minha alma me basta
Sem que possua ou seja possuído
Sem dono
Sem escravo
Sem nada

Sei que me basta ser natural

Ser o que sou
O animal humano que Deus gerou

Ser
Apenas

Ser

Como a árvore frondosa
Que no silêncio da tarde
Deixa que lhe tirem os frutos
E abençoa com a sua sombra
Todos os que a procuram
Como a luz da candeia que ilumina
A igreja e o presídio o padre e a prostituta
O santo e o ladrão
Ou a chuva que alimenta e faz crescer
O pão e as ervas daninhas


Quem me dera que os meus dias
Fossem passados com a paz de uma flor ou
Das paredes brancas da casa grande da colina
A afagarem o Sol e a Lua
Sendo o que sou por sê-lo
Tal como a flor exala o seu perfume
Sem saber qual o seu odor
E a parede a sua alvura sem saber a sua cor

E assim
Ser o que sou
Apenas
Ser


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/