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sábado, 19 de junho de 2010

PORTUGAL É UMA COLÓNIA BRASILEIRA






O dia está acinzentado
Sem estar abafado

No quiosque junto ao meu prédio uma velha entediada queixa-se do Verão
Terei de passar as férias nesta solidão
Respondo sem pensar
Isso não é Verão e sigo o meu caminho na direcção de uma bola de Berlim e de um café curto

Noto que os seus olhos me seguem sem saber porquê Seguem os meus passos e sua sombra
Julgo que pensa
Boa vida tão novo e sem nada para fazer
Ou lê ou finge ler com o livro debaixo do braço
Quem lhe dera uma reforma para passar os dias a fazer ponto de cruz e arraiolos exercitando a morte


Na esplanada há uma espécie de tristeza amargurada
Uma morte viva melancólica estúpida fastidiosa e triste
A tristeza do tédio opaco de vagos pensamentos sem rumo ou destino
De pequeno veleiro engolfado nas águas letais da barra

Penso e pergunto-me porque existo
Reparando como quem não repara
Na existência de duas lésbicas na mesa ao lado e de um homem sem cabeça com um jornal desportivo a servir de pára-sol na mais afastada
Há sempre alguém com um jornal desportivo a servir de cabeça
Há sempre alguém que discute a asnática política desportiva
Há sempre alguém que vive como bola de borracha pontapeada por mancos acanhados

O homem levanta-se e eu sinto-me serenar como quem está para urinar há horas e não encontra lugar
Sinto-me aliviado
Tenho agora espaço
Preciso de espaço para me questionar se o meu Verão não será um quiosque com horas certas de abertura e encerramento fumado por um Marlboro
Ou um jardim em que as rosas florescem no Inverno e a geada queima os crisântemos no Estio ardente

Uma das lésbicas assoa-se limpando-se do passado
Passa lentamente com os dedos pelas narinas removendo pequenos filamentos de incompreensíveis sentimentos de culpa
A outra está imóvel sorvendo o fumo de longo e fino cigarro olhos postos nos automóveis de luxo que passam na praça
Parece procurar presa
É o macho julgo
Mas que tenho eu de julgar
Apenas factos
Quedemo-nos pelos factos
Os seus olhos penetram fixamente os mesmos objectos em que os meus se demoram
Mulheres
Mulheres belas e elegantes
Somos ambos predadores
Indiferentes um ao outro
Apesar de ambos sermos lésbicas

Jovens-mulheres desfilam seminuas mirando-se nos vidros das lojas que servem de espelho
A maioria brasileiras
Compenetradas no seu encanto
Algumas andam dançando e pelo canto do olho admiram o seu jeito peculiar de andar
O seu modo especial provocante de bamboleio
Pernas altas baixas médias magras gordas redondas
Pernas para todos os sabores
Pernas para todos os odores
Eu olho-as a lésbica também


O Verão seria diferente se me apaixonasse
As lésbicas casar-se-iam
Eu igualmente
Sem boda Odeio festas
As lésbicas levantam-se ainda não almoçaram
Levanto-me e mudo de mesa
Volto a sentar-me


Lá dentro uma jovem almoça com roupa de ginásio e saco de desporto caído ao lado
Pequena
Magra
Graciosa
De olhos penetrantes
Distantes
Não mostra interesse em nada que a rodeia
Pede o serviço ao atencioso empregado brasileiro sem se dignar olhá-lo
Olho-a mansamente entre o espaço de duas colunas irregulares de fumo
Lembra-me uma namorada antiga na sua frágil beleza
A mesma de uma flor exposta ao rigor do tempo ou de uma erva da calçada com displicência acalcanhada


Sentam-se duas brasileiras
Uma talvez não seja
Quase que a não ouço falar
A outra fala sem cessar
Menopausa precoce
Mesmo querendo não a ouvir
Sou cativo da voz
Penetrante
Irritante


As brasileiras invadiram-nos estão em todo o lado
Portugal é uma colónia brasileira
Para gosto de uns e desgosto doutras


Projecto viver no Brasil partir para a Terra-Mãe Já escolhi Itacaré ou uma praia deserta no Norte onde possa erguer velas ao vento e bolinar largo junto à costa de sereias intocadas de ventres cor de bronze e seios hirtos apontando o horizonte
Navegar no Amazonas sorver o odor da selva escutar o louco canto das aves brilhantes com uma amada a bordo estirada nua no convés a meio-navio envolta no cordame de seda
Uma nativa escura e bela que ame por amar inebriada ao sol e afagos a quem possa agasalhar no meu peito nas noites húmidas e fartas de estrelas cadentes enquanto o leme solitário manobra em faina segura levando-nos de mansinho com a proa a cortar águas para Terra-de-Ninguém
Sonho mas que mal faz sonhar senão o mal do próprio sonho


Uma mãe entra com a filha ao colo
Qual delas a mais bela
Aprecio-a sem a desejar
É de uma beleza intocável
Pura
Maternal
Deixai-a estar enlevada
Deixai-a repousar nas carícias embevecidas que com o olhar dispensa à criança
É mãe o que lhe basta


A brasileira papagueia enquanto a amiga de óculos escuros para não ouvir simula que presta atenção
Gesticula ri alto meneia-se
Faz reiki pratica yoga assevera que encontrou a paz
Tem sensações no corpo nalguns órgãos como se estivessem a ser miraculosamente limpos durante as sessões
Agora tem as energias equilibradas e bolsos mais asseados
Mas age como quem em emboscada fatal de guerrilha está debaixo de fogo cerrado
As mãos tremem-lhe e há um ou dois pequenos tiques evidentes que a traem

Temos de viver o dia-a-dia amar a vida os outros e ter forças
Diz
E ter energia a que vem de nós das nossas acções e a que nos canalizam
Deve estar a referir-se ao terapeuta-canalizador penso
Ela que eléctrica vertiginosa tem uma tomada mal ligada à terra e um fusível inoperante ao excesso de tensões
E julga ser um braço-de-deus
Deus deve ser uma centopeia penso e sorrio disfarçando o sorriso na página do livro aberto

Alguém uma amiga da Baía deitou-lhe as cartas
Apenas certezas
No passado não errou
No presente acertou
No futuro vaticinado abstractamente
Tudo cursará o melhor leito
Será rica feliz amada e finar-se-á bem tarde
A boba encartada

Convida a amiga para jogar golfe com a equipagem do falecido
Será viúva divorciada ou mal-amada
Instiga-a a aprender
O problema diz está no taco as bolas são todas iguais
O mais importante do equipamento são os sapatos


Preciso de descansar os ouvidos
Volto para casa
E no silêncio da solidão não penso nada


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

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