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ARTE

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domingo, 4 de abril de 2010

GUILLAUME APOLLINAIRE - UM FANTASMA DE NUVENS NEGRAS








Como era véspera de catorze de Julho
Por volta das quatro da tarde
Desci à rua para ir ver os saltimbancos

Essas pessoas que fazem piruetas no ar
Começam a ser raros em Paris
Quando era jovem viam-se mais que agora
Mudaram-se quase todos para a província

Sigo pelo Boulevard Saint-Germain
E numa pequena praça situada entre Saint-Germain-des-Prés e a estátua de Danton
Encontro os saltimbancos

A turba rodeava-os muda e resignada a esperar
Arranjei um lugar no círculo de forma que podia ver
Pesos formidáveis
Cidades da Bélgica levantadas com um só braço por um operário russo de Longwy
Halteres negros e ocos que têm por haste um rio gelado
Dedos enrolando um cigarro amargo e saboroso como a vida

Numerosos tapetes sujos cobriam o chão
Tapetes com pregas que não podiam ser alisadas
Tapetes que são quase inteiramente da cor da poeira
E onde algumas manchas amarelas e verdes persistiam
Como uma melodia que não nos sai da cabeça

Vês aquele personagem magro e selvagem
A sua barba grisalha era a cinza dos seus antepassados
Toda a sua hereditariedade estava estampada na sua cara
Parecia sonhar com o futuro
Enquanto mecanicamente tocava um órgão da Barbaria
Cujo som era um lamento maravilhoso
Cheio de gluglus cuácuás e surdos gemidos

Os saltimbancos não se mexiam
O mais velho usava um fato de banho rosa violáceo da cor do rosto e certas raparigas ainda jovens mas já perto da morte

Esse rosa é mais forte sobretudo nas pregas que muitas vezes rodeiam as suas bocas
Ou perto das narinas
É um rosa cheio de perfídia

Esse homem carregava também sobre o dorso
A tinta ignóbil dos seus pulmões

Por todo o lado havia braços
Braços montando guarda

O segundo saltimbanco
Não vestia senão a sua sombra
Olhei-o durante muito tempo
O seu rosto escapa-me completamente
Era um homem sem cabeça

Um outro tinha o ar desleixado
De um apache bom e simultaneamente crápula
Com as suas calças empoladas e as ligas das peúgas
Parecia um rufia

A música parou e dirigiram-se ao público
Que soldo a soldo lançou sobre o tapete a soma de dois francos e cinquenta
Em lugar dos três francos que o velho tinha fixado como preço da actuação

Mas quando se tornou claro que ninguém daria mais nada
Eles decidiram começar o espectáculo
Debaixo do órgão um pequeno saltimbanco vestido de rosa pulmonar
Com peles à volta dos punhos e das ancas
Soltava gritos breves
E fazia saudações afastando gentilmente os antebraços
As mãos abertas

Uma perna para trás pronta para a genuflexão
Ele saudava os quatro pontos cardeais
E quando andava em cima de uma bola
O seu corpo delgado transformava-se numa música tão delicada que ninguém entre os espectadores ficou insensível
Um pequeno espírito desprovido de humanidade
Pensou cada um
E aquela música das formas abafou a do órgão mecânico
Que tocava o homem com o rosto coberto de antepassados

O pequeno acrobata pavoneou-se
Com tanta harmonia
Que o órgão cessou de tocar
E o organista escondeu o rosto entre as mãos
Cujos dedos eram semelhantes aos descendentes do seu destino
Fetos minúsculos que lhe saíam da barba
Novos gritos de Pele-Vermelha
Música angélica das árvores
E a criança desapareceu
Entretanto os saltimbancos elevavam os pesados halteres com os braços esticados
E faziam malabarismos com os pesos

Mas cada espectador procurava em si a criança miraculosa
Século oh século das nuvens


Tradução de Jorge Sousa Braga

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