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terça-feira, 30 de junho de 2009

JOSÉ JORGE LETRIA - PARA QUE SE POSSA SALVAR A LITERATURA


Gosto das personagens que morrem
antes do fim das histórias. É a vida.
As que sobrevivem estão condenadas
a um purgatório do qual
nenhuma ficção as resgatará.
As personagens devem ser como os remédios:
devem ter um prazo de validade.
Não gosto que se pergunte:
o que terá acontecido a Bernardo
e a Luísa depois daquele drama?
Há questões que a literatura não pode
nem deve deixar em suspenso. É fatal.

Hoje escreve-se já para a segunda edição,
para a cinta que proclama o êxito,
para a entrevista na revista do semanário,
para o império da banalidade.
A sofreguidão do novo leva o mercado
a chamar escritores a alguns transeuntes
que acidentalmente decidiram
fazer da literatura um rendimento fixo,
uma escada em espiral para a glória
dos consultórios de dentista.

Nestes casos particulares deviam ser as personagens
a exterminar os autores. Para quê?
Para que se possa ainda salvar a literatura.


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JOSÉ JORGE LETRIA (1951) - QUEM ME FEZ SEM FÉ


Se Deus existe, fez-me sem fé,
Inapto para a crença e para a bondade da prece.
Infelicidade a minha. Miséria a de quem
nasceu assim, vazio de quase tudo
o que mereça um olhar apontado às estrelas,
uma devoção murmurada sob a forma de queixa.
Como posso eu implorar perdão
se não sei onde, como e por quem pequei?
Como posso eu pedir a dádiva da salvação
se nem sequer tenho a certeza de querer ser salvo?

Deve ser bom ter a quem rezar,
nem que seja às divindades múltiplas
e impalpáveis das águas, dos ventos e das luzes.
Eu nasci sem fé. Ponto final.
Talvez Deus se tenha esquecido de mim
na hora de distribuir pelos humanos
a oferenda imperecível da submissão e da crença.
Talvez eu estivesse a dormir ou, quem sabe,
não tivesse ainda saído do ventre materno.
Tudo é possível. Mas atrevo-me a perguntar:
e se Deus, simulando este imperdoável esquecimento,
me tivesse dado o verso para eu falar com ele
imaginando que é comigo que falo?
Só no fim de toda a escrita
poderei ter certezas a este respeito. Quem
estará lá à minha espera
quando já não houver mais palavras para dizer?


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JOSÉ FANHA (1951) - HISTÓRIA DE UM PORTUGUÊS QUALQUER


Eu já dei a volta ao tecto
já comi muito caril
em Caracas fiz-me preto
em Dacar fiz-me imbecil
fui pedreiro e arquitecto
inventei o alfabeto
e exportei-o para o Brasil.

Nos baldões que a vida dá
de palhaço a sacristão
comprei ouro em Calcutá
vendi tudo em Mormugão
e emendei o alvará
para a filha do Ali-Bábá
ter carta de condução.

Receitei muita mezinha
fui ceguinho, surdo e mudo
li a sina a uma rainha
e acertei em quase tudo
mas pisguei-me asinha asinha
numa lata de sardinha
forradinha de veludo.

De balão cheguei à China
ao Japão fui de trenó
aportei à Palestina
montado num Faraó
abusei da nicotina
experimentei a cocaína
viciei-me em pão-de-ló.

Pelas esquinas de Damasco
cantei tangos, viras, fados
em Moscovo abri um tasco
para ganhar alguns trocados
vendi secos e molhados
que eu para bem dos meus pecados
sigo em frente e não me enrasco.

Fui judeu na judiaria
escravo louco e espadachim
celebrei a eucaristia
ao passar por Bombaim
curei peste, lepra, azia
divulguei a telefonia
do Alasca até Pequim.

Fiz-me loiro, fui moreno
rei do rock entre sultões
mastiguei muito veneno
sofri ventos e monções
e por Cristo Nazareno
rebentei com o Sarraceno
na melhor das intenções.

Fui muitíssimo importante
numa mesa de café
estraçalhei um elefante
nas bolanhas da Guiné
fui soldado e comandante
naveguei no Campo Grande
naufraguei no Cais Sodré.


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AL BERTO - QUERIA SER MARINHEIRO CORRER MUNDO

queria ser marinheiro correr mundo
com as mãos abertas ao rumo das aves costeiras
a boca magoando-se na visão das viagens
levaria na bagagem a sonolenta canção dos ventos
e a infindável espera do país assustado pelas águas

debruçou-se para o outro lado do espelho
onde o corpo se torna aéreo até aos ossos
a noite devolveu-lhe outro corpo vogando
ao abandono dum secreto regresso... depois
guardou a paixão de longínquos dias no saco de lona
e do fundo nostálgico do espelho
surgiram os súbitos olhos do mar

cresceram-lhe búzios nas pálpebras algas finas
moviam-se medusas luminosas ao alcance da fala
e o peito era o extenso areal
onde as lendas e as crónicas tinham esquecido
enigmáticos esqueletos insectos e preciosos metais

um fio de sémen atava o coração devassado pela salsugem
o corpo separava-se da milenar sombra
imobilizava-se no sono antigo da terra
descia ao esquecimento de tudo... navegava
no rumor das águas oxidadas agarrava-se à raiz das espadas
ia de mastro em mastro perscrutando a insónia
abrindo ácidos lumes pelo rosto incerto dalgum mar


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AL BERTO (1948-1997) - PREFÁCIO PARA UM LIVRO DE POEMAS


Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
Víamos – pelo lado sombrio do pensamento – todo o sistema planetário.
Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios.
E a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. As estrelas mortas das cidades imaginadas.
Os ossos tristes das palavras.

A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente.
Em redor dele chove.
Podemos imaginar uma chuva espessa, negra, plúmbea.
Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.
As cidades (como em todos os livros que li) ardem.
Incêndios que destroem o último coração do sonho.
Mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita pilha, absorto, a laranja.
A queda da laranja provocará o poema?
A laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?
E um louco, saberá o que é uma laranja?
E se a laranja cair? E o poema? E o poema com uma laranja a cair?
E o poema em forma de laranja?
E se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? A ficar louco?

E a palavra laranja existirá sem a laranja?
E a laranja voará sem a palavra laranja?
E se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a esquecer no meio da noite – servirá o brilho da laranja para iluminar as cidades há muito mortas? E se a laranja se deslocar no espaço – mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita – criará uma ordem ou um caos?

O homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade.
Foi escorraçado.
E na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos. Os seus próprios gestos – e um rosto suspenso na solidão.

Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração?
E se escreveu laranja na alma, a alma ficará saborosa?
E se escreveu laranja no coração, a paixão impedi-lo-á de morrer?
E se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?

Onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema – a Vida, sem mais nada – estará aqui?
Fora das muralhas da cidade?
No interior do meu corpo? ou muito longe de mim – onde sei que possuo uma outra razão... e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.


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MANUEL ANTÓNIO PINA - UM DIA DESTES, ZÁS!, MORRO

Entre Deus e o Diabo venha o Diabo e escolha.
Entre amar-te e a vida te escolho ó dia como
uma doença de pele e te redijo
por palavras minhas tão envergonhado ó dia!
conforta-me e lava-me de toda a porcaria que eu
com a unha da melancolia te corrijo.

Em Lisboa perdi a paciência.
Fui crucificado morto e enterrado.
Ressuscito-te dos mortos. E dentro da barriga te persisto,
e entre dentes te percorro de solidão inesperado.
A ti recorro ó cirurgião estou tão zangado tão zangado
e morro porque não tenho idade para isto!



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MANUEL ANTÓNIO PINA (1943) - LUGARES DA INFÂNCIA


Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não está nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos:
e eu não sabia,
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém,
não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois, já o
jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e cubro a cabeça com os lençóis.


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VASCO GRAÇA MOURA (1942) - BALADA DO BOM CAVAQUISTA


que eu sempre fui bom cavaquista
nem é preciso repeti-lo:
anos depois já só se avista
tanto canário, tanto grilo,
tanto gorjeio, tanto trilo
que de promessas se guarnece:
um mundo e outro, isto e aquilo,
e o povo tem o que merece.

vi engrossar de boys a lista,
vi saltitar mais do que esquilo,
de galho em galho ser artista,
e armar o estado em crocodilo.
voracidade? era do estilo.
economia? ai que arrefece!
vi Portugal vendido ao quilo
e o povo tem o que merece.

vi muito pássaro na pista
já de asa murcha e intranquilo,
já sem alface nem alpista
e já sem grão dentro do silo,
secou a teta e o mamilo,
chegou a hora, chega o stress.
há vários anos que eu refilo,
e o povo tem o que merece.

senhor, na entrada deste asilo,
mordeu-se a isca da benesse
e o povo tem o que merece.


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ANTÓNIO LOBO ANTUNES - TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS QUANDO ESTÃO COM GRIPE


Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é a chuva
no meu postigo
fica comigo
não é o vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão-de-ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.


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ANTÓNIO LOBO ANTUNES (1942) - EU QUERO MORRER NO MAR (COLADERA)


Olha os meus olhos morena
porque a aventura é ficar
se a minha terra é pequena
eu quero morrer no mar.

Lençóis de algas e peixes
de barcos a menear
no dia em que tu me deixes
eu quero morrer no mar.

E se o negro é a tua cor
respirando devagar
depois do amor meu amor
eu quero morrer no mar.

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CASIMIRO DE BRITO (1938) - QUANTAS VEZES CAMINHEI PELA PRAIA


Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas
inteiras. Praias de cinza invadidas
pelo vento. Quantas estações quantas noites
indormidas. Embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim
reparei
que sempre estiveste a meu lado. Na cal frágil
dos meus ossos. Nas hastes do mar
infiltradas no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos.



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MARIA TERESA HORTA (1937) - AS MULHERES E O PRIMEIRO DE MAIO


Tanto povo!
Tanto povo!

Tanta bandeira
vermelha!

Tanta mulher que caminha
Cantando à sua maneira
Camponesas e operárias
todas elas companheiras

Ombro a ombro com os homens
os filhos às cavaleiras

Tanto povo!
Tanto povo!

Tanta bandeira
vermelha!


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ALBERTO PIMENTA (1937) - ÉCLOGA


as coisas que de dia não fecham
as coisas que de dia não abrem
as coisas que de noite não abrem
as coisas que de noite não fecham

a coisa de josé de dia não abre
a coisa de maria de dia não fecha
a coisa de miló de noite não abre
a coisa de antão de dia já se sabe
a coisa de milu de dia não deixa
a coxa de joão não abre não
a coxa de lurdes não abre nem fecha
o queixo de juca de dia não obra
o queixo de maria toda a noite se queixa
o caxo de antão de noite não pode
o caxo de joão que ninguém lhe mexa
a culpa de josé de dia não sai
a cuja de maria de dia não pode
a cuja de mané de dia não vai
a cuja das cujas nunca lhe acode

assim se passa o tempo
assim sopra agreste o vento
e todos desencontrados
uns abertos outros fechados


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JOSÉ AUGUSTO SEABRA - DA PROFECIA


Quando só formos
a vela alta
e diluída
sem mastro nem
flâmula ardendo,
que âncora ainda
anunciará
na desmemória
outro Oriente?



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JOSÉ AUGUSTO SEABRA (1937-2004) - DO TEMPO


Que tempo demorou
na face da carícia
e na ruga deixou
os grãos dos interstícios?

Que tempo não chegou
e ficou sem indício
nas dobras doutra história
que nunca teve início?

Que tempo nos faltou
tão doce, tão propício?


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JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS (1937-1984) - O ESPANADOR


Ex.mo Sr. Ramos Rosa, Faro

Vade retro
vade recto
vá-se rectrodecantar
vate vidente concreto
do espaço por ocupar.
Vade retro
ante projecto
do poema circular
pousado como um insecto
nas sombras do intelecto
que ontem comeu ao jantar.
Vade retro
vá de metro
vá de burro passear
mas não leve o alfabeto
não se pode constipar.


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FERNANDO ASSIS PACHECO - AS PUTAS DA AVENIDA


Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
como um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena



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FERNANDO ASSIS PACHECO (1937-1995) - A BELA DO BAIRRO


Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? Quinze anos
tenho o quê uns olhos que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor


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MANUEL ALEGRE - TROVA DO VENTO QUE PASSA


para António Portugal

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se os verdes trevos desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi meu poema na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes olhos verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções ao vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.


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MANUEL ALEGRE (1936) - O PRIMEIRO SONETO DO PORTUGUÊS ERRANTE


Eu sou o solitário o estrangeirado
o que tem uma pátria que já foi
e a que não é. Eu sou o exilado
de um país que não há e que me dói.

Sou ausente mesmo se presente
o sedentário que partiu em viagem
eu sou o inconformado o renitente
o que ficando fica de passagem.

Eu sou o que pertence a um só lugar
perdido como o grego em outra Ilíada.
Eu sou este partir este ficar.

E a nau que me levou não voltará.
Eu sou talvez o último lusíada
em demanda do porto que não há.


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PEDRO TAMEN - A MINHA MORTE NÃO TA DOU

A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
- a flor, a esta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?

Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?

Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.



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PEDRO TAMEN - NÃO FALO DE PALAVRAS...


Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo e conjuntivo.

Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.


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PEDRO TAMEN - SÓ OS BONS É QUE SOFREM, DISSE ELA


Só os bons é que sofrem, disse ela
no dia em que morreu o pai dos meus filhos.
Olhei à minha volta e vi as lágrimas
que os bons ainda vivos deveras derramavam.
A tarde começava a cair de acordo com as horas
e eu lembrei-me ainda e sempre de Caeiro:
dá muito jeito a gente lembrar-se dele quando quer
puxar do pano liso das palavras secas.
Mas havia no caso outra razão para isso,
e eram as graças que dava interiormente
por não ser bom, sequer suficiente
- graças agora fortes do argumento dela.

Saía do cemitério, eram frios os ossos;
lento como os outros, saía, mas imune.



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PEDRO TAMEN - FAZER HORAS


Adelina: a bruma que era ontem
voa – não é já. Foi-se tão prestes
como o João das Índias. E foi lá
que um pero se ficou – tão são,
tão nosso irmão.

Adelina: que é do candeeiro
que tu dizias fosco? A luz que deu
dá ora gosto. Por isso aqui te digo
que após a morte é um minuto grande
e outro umbigo.

E está-se, Adelina. Se como burro
dói, é vero, mas está-se.
Até que passe.


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PEDRO TAMEN (1934) - O SANGUE, 3


Escrevo estes verso de grãos de terra na mão: eis a prova.
Tenho a certeza dos passos. Todos temos. Só no mais diferimos.

Era uma longa subida. Era a certeza
da nossa própria emigração. A mais bela,
a mais funda companhia. A perfeita igualdade do transporte
foi amassada em três quedas. Um braço, outro braço, um corpo
e a longa subida.


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segunda-feira, 29 de junho de 2009

RUY BELO - QUE IMPORTA QUE MORRAMOS SE A TARDE É DE SOL


Que importa que morramos se a tarde é de sol
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grande humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?


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RUY BELO - A MÃO NO ARADO


Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.


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RUY BELO - NA MORTE DE MARILYN


Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou



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RUY BELO (1933-1978) - SONETO SUPERDESENVOLVIDO


É tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem

Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada

E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou

Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido


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CRISTOVAM PAVIA (1933-1968) - NA NOITE DA MINHA MORTE

Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume...
Há-de haver velas pela casa
E chales negros e um silêncio que eu
Poderia entender.

Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente...
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
Uma voz serena de infância, tão clara e tão longínqua...
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças.



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E. M. MELO E CASTRO - DIZERES DUMA VELHA SENHORA


erros meus mau perfume ardor ardente
em minha cona todos se juntaram
os erros e os perfumes tresandaram
que um caralho pra mim não dá somente

foram precisos mil milhões de machos
para dessedentar minha tesura
que se derrete em águas e em lagos
como os não há na bíblica escritura

fodi é certo mas comi do bom
do mau e do pior que dá mais gozo
e do assim assim em qualquer tom


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E. M. MELO E CASTRO - SÉRIE NULA


nada me diz esta paisagem terra
porque de terra sou eu feito água
porque de água sou eu feito árvore
porque de árvore sou eu feito terra
porque de terra sou eu feito gás
porque de gás sou eu feito nuvem
porque de nuvem sou eu feito sol
porque de luz sou eu feito dia
porque de dia sou eu feito sombra
porque de sombra sou eu feito gesto
porque de gesto sou eu feito instante
porque de instante sou eu feito amor
porque de amor sou eu feito nada
porque de nada sou eu feito espaço
porque de espaço sou eu feito medo
porque de medo sou eu feito mentira
porque mentira sou feito de tudo
porque de tudo sou eu feito nunca
porque de nunca sou eu feito mesa
porque de mesa sou eu feito barco
porque de barco sou eu feito verme
porque de verme sou eu feito deus
porque de deus sou feito de adeus
porque de adeus sou eu feito homem
porque de homem sou feito fragmento
porque fragmento sou eu feito aqui


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E. M. MELO E CASTRO (1932) - NÃO ME DIGAS JAMAIS QUE O VENTO SOPRA


não me digas jamais que o vento sopra
porque o vento não sopra nunca mais
que quando sopra o vento o que sobra
é o vento que sopra ainda mais

diz-me antes que sopra o vento apenas
quanto o ar se aquieta ao movimento
do que passa no ar motor de penas
ou o sopro contínuo deste vento

ou não me digas nada nunca mais
que não sopra ou que sobra movimento
que não sobra ou que sopra sempre mais
ou diz-me apenas só que és tu o vento

porque o vento que sopra se condensa
no nosso respirar que se condensa


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JOSÉ CUTILEIRO (1931) - OS MEDOS



(plagiado em parte, de António Ferreira)

É a medo que escrevo. A medo penso,
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo.
A medo me renego, me convenço.

A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.

A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.

A medo guardo confissão, segredo,
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo e mudo.



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MARIA ALBERTA MENÉRES (1930) - COISA

Coisa boa o meu sangue
borboleta de espantos
a morrer levemente.

Coisa fútil saber-me
neste exacto lugar
do mistério doendo

quase um medo forçando
este acaso que é porta
de fechar-me por dentro

quase o medo fechado
nesta casa sem porta
que é um barco de rede.

Coisa má é o vento
que à distância de mim
me soletra de tempo.


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OLGA GONÇALVES (1929) - COMO A PALAVRA NUA


Como a palavra nua
que partiu sem regresso
a angústia voltou


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ANA HATHERLY - SABER


saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir

unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser

por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos

conhecermos
a surda áspide


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ANA HATHERLY - OS CARACÓIS E AS CARPAS TÊM CORNOS


os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês


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ANA HATHERLY (1929) - ELA VEM


Ela vem
quando eu cerro as pálpebras pesadas
e apoio a cabeça na escuridão do desejado sono
Vem muito branca muito lenta
Fita-me calada
e muito direita
começa desatando seus cabelos negros
Abre a boca num riso que eu não oiço
deixa cair o seu vestido todo
E enquanto eu olho fascinada o seu ventre coroado de negro
seis homens pequeninos e muito encarquilhados
agarram suas seis tetas
e sugam-lhes os bicos
rosados e rijos de prazer


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JOSÉ AFONSO - OS EUNUCOS


Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais

Em tudo são verdugos mais ou menos
Nos jardins dos haréns os principais
E quando os pais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais

Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais

Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam de saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Não matam os tiranos pedem mais


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JOSÉ AFONSO - BALADA DE OUTONO


Águas
E pedras do rio
Meu sono vazio
Não vão
Acordar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar
Águas
Do rio correndo
Poentes morrendo
P´rás bandas do mar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar
Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas
Das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto
A cantar


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JOSÉ AFONSO (1929-1987) - CANTAR ALENTEJANO


Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p´ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p´ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar


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ANTÓNIO MARIA LISBOA (1928-1953) - PROJECTO DE SUCESSÃO


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se as covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo do oiro e sonharem-se Índias.


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JOÃO RUI DE SOUSA (1928) - FOME


Pudessem minhas mãos falar às tuas
e dizer-lhes: sim, quero-te muito.
Pudesse eu inundar-te de ternura
e no silêncio ter-te, ampla e desnuda.
Que eu não faria versos sobre mim,
nem falaria em rosas, alma, lua.

Pudesse o meu olhar adormecer-te,
colher-te, fresca e firme, a forma viva.
Que coisas não faria nesta vida?
Que coisas não seria?


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DAVID MOURÃO-FERREIRA - PRESÍDIO


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


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DAVID MOURÃO-FERREIRA (1927-1996) - ELEGIA DO CIÚME


A tua morte, que me importa,
se o meu desejo não morreu?
Sonho contigo, virgem morta,
e assim consigo (mas que importa?)
possuir em sonho quem morreu.

Sonho contigo em sobressalto,
não vás fugir-me, como outrora.
E em cada encontro a que não falto
inda me turbo e sobressalto
à tua mínima demora.

Onde estiveste? Onde? Com quem?
- Acordo lívido, em furor.
Súbito, sei: com mais ninguém,
ó meu amor!, com mais ninguém
repartirás o teu amor.
E se adormeço novamente
vou, tão feliz!, sem azedume
- agradecer-te suavemente,
a tua morte que consente
tranquilidade ao meu ciúme.


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MENDES DE CARVALHO (1927-1988) - CANTIGA DOS AIS



Os ais de todos os dias
os ais de todas as noites
ais do fado e do folclore
o ai do ó ai ó linda

Os ais que vêm do peito
ai pobre dele coitado
que tão cedo se finou

Os ais que vêm da alma
ais d´amor e de comédia
ai pobre da rapariga
que se deixou enganar
ai a dor daquela mãe

Os ais que vêm do sexo
os ais do prazer na cama
os ais da pobre senhora
agarrada ao travesseiro
ai que saudades saudades
os ais tão cheios de luto
da viúva inconsolável

Ai pobre daquele velhinho
ai que saudades menina
ai a velhice é tão triste

Os ais do rico e do pobre
ai o espinho da rosa
os ais do António Nobre
ais do peito e da poesia
e os ais doutras coisas mais
ai a dor que tenho aqui
ai o gajo também é
ai a vida que tu levas
ai tu não faças asneiras
ai mulher és o demónio
ai que terrível tragédia
ai a culpa é do António

Ai os ais de tanta gente
ai que já é dia oito
ai o que vai ser de nós

E os ais dos liriquistas
a chorar compreensão

Ai que vontade de rir

E os ais do D. Dinis
ai Deus e u é

Triste de quem der um ai
sem achar eco em ninguém

Os ais da vida e da morte
ai os ais deste país


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PEDRO OOM (1926-1974) - ACTUAÇÃO ESCRITA



Pode-se escrever

Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem se saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever


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LUIZ PACHECO (1925-2008) - CORO DE ESCARNINHO E LAMENTAÇÃO DOS CORNUDOS EM VOLTA DE SÃO PEDRO



Coplas dedicadas às fogosas e vampirescas mulheres da Beira, de quem já Abel Botelho disse o que disse



Monólogo do 1.º Cornudo

I

Acordei num triste dia
com uns cornos bem bonitos.
E perguntei à Maria
por que me pôs os palitos.

II

Jurou por alma da mãe
com mil tretas de mulher
que era mentira. Também
inda me custava a crer...

III

Fiquei de olho espevitado
que o calado é o melhor
e para não re-ser enganado,
redobrei gozos de amor.

IV

Tais canseiras dei ao físico,
tal ardor pus nos abraços
que caí morto de tísico
com o sexo em pedaços!

V

Esperava por isto a magana?
Já previa o que se deu?...
Do Além vi-a na cama
com um tipo pior que eu!

VI

Vi-o dar ao rabo a valer
fornicando a preceito...
Sabia daquele mister
que puxa muito do peito.

VII

Foi a hora de me eu rir
que a vingança tem seus quês:
«O mais certo é pràqui vir,
inda antes que passe um mês.»

VIII

Arranjei-lhe um bom lugar
na pensão de Mestre Pedro
(onde todos vão parar
embora com muito medo...)

IX

Passava duma semana
o meu dito estava escrito
vítima daquela magana
pobre tísico, tadito!

Dueto dos 2 Cornudos

X

Agora já somos dois
a espreitar de cá de cima
calados como dois bois
vendo o que faz a ladina.

XI

Meteu na cama mais gente,
um, dois, três... logo a seguir!
Não há piça que a contente
é tudo que tiver de vir!

São Pedro, indignado, pragueja

XII

- É demais!... Arre, diabo!
- berra São Pedro, sandeu.
E mortos por dar ao rabo
lá vêm eles prò Céu!

Coro, pianíssimo, lirismo nas vozes

XIII

Que morre como um anjinho
quem morre por muito amar!

Coro, agora narrativo ou explicativo

Já formamos um ranchinho
de cá de cima, a espreitar.

XIV

Passam meses, passa tempo
e a bela não se consola...
Já semos um regimento
como esses que vão prà Ingola!

(Aparte do autor das coplas: «Coitadinhos!»)

XV

Fazemos apostas lindas
sempre que vem cara nova.
Cálculos, medidas infindas
como ela terá a cova.

XVI

Há quem diga que por si
já não lhe topou o fundo...
Outros juram que era assi
do tamanho... deste Mundo!

XVII

- Parecia uma piscina! -
diz um do ldo, espantado.
- Nunca vi uma menina
num estado tão desgraçado!

Aparte do autor, antigo militante das esquerdas (baixas)

XVIII

(Um estado tão desgraçado?!...
Parece-me ouvir o Povo
chorando seu triste fado
nas garras do Estado Novo!)

XIX

O último que chegou cá
morreu que nem um patego:
afogado, ieramá,
nos abismos daquele pego.

O coro dos cornudos, acompanhado por São Pedro em surdina, entoa a moralidade, após ter limpado as últimas lagrimetas e suspirando como só os cornudos sabem

XX

Mulher não queiras sabida
nem com vício desusado,
que podes perder a vida
na estafa de dar ao rabo.

XXI

Escolhe donzela discreta
com os três no seu lugar.
Examina-lhe bem a greta,
não te vá ela enganar...

XXII

E depois de veres o bicho
e as maneiras que tem
a funcionar a capricho,
já sabes se te convém.

XXIII

Mulher calma, é estimá-la
como a santa no altar,
Cabra douda,é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.

XXIV

Este conselho te dão,
e não te levam dinheiro...
os cornudos que aqui estão
com São Pedro hospitaleiro.

XXV

Invejosos quase todos
dos conos que o mundo guarda

Fazem mais um bocado de lamentação.
(Nota do Autor: «Quase», porque entretanto brincavam uns com os outros. «Rabolices!»)

Mas se fornicas a todos
tua vinda aqui não tarda!

Recomeça a moralidade, estilo estão verdes, não prestam. Alguns bêbados, cornudos despeitados ou amargurados. Vozes pastosas. Deve ler-se: viiinho... velhiiinho...

XXVI

Melhor que a mulher é o vinho
que faz esquecer a mulher...
que faz dum amor já velhinho
ressurgir novo prazer.

Finale muito católico

XXVII

Assim termina o lamento
pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.

Luís Pacheco
num dia em que se achou
mais pachorrento



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ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924) - NÃO POSSO ADIAR O AMOR


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora imprecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração



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ALEXANDRE O´NEILL - APROVEITANDO UMA ABERTA


«Ó virgens que passais ao sol-poente»
com esses filhos-família,
pensai, primeiro, na mobília,
que é mais prudente.

Sim, que essa qualidade,
tão bem reconstituída,
nem sempre, revirgens, há-de
proporcionar-vos a vida

que levais
Se um tolo nunca vem só,
quando não vem, não vem mais
ou vem, digamos por, por dó...

E o dó dói como um soco,
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco.

Eu quando digo mobília,
digo lar, digo familia
e aquela espiada fresta,
aberta, patente, honesta,

retrato oval da virtude,
consoladora do triste,
remanso, beatitude
para o colérico em riste.

Assim, sim, virgens sensatas!
(Nos telhados só as gatas...)
Pensai antes na mobília,
honestas mães de família,
e aceitai respeitos mil
do vosso
Alexandre O´Neill!




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ALEXANDRE O´NEILL - NO REINO DO PACHECO


Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Querer viver (deixai-nos rir!)
seria muito exigir...
Vida mental? Com certeza!
Vida por detrás da testa
será tudo o que nos resta?
Uma ideia é uma ideia
- e até parece nossa! -
mas quem viu uma andorinha
a puxar uma carroça?
Se à ideia não se der
o braço que ela pedir,
a ideia, por melhor
que ela seja ou queira ser,
não será mais que bolor,
pão abstracto ou mulher
sem amor!

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Neste Reino do Pacheco
- do que era todo testa,
do que já nada dizia,
e só sorria, sorria,
do que nunca disse nada
a não ser prà galeria,
que também não o ouvia,
do que, por detrás da testa,
tinha a testa luzidia,
neste reino do Pacheco,
ó meus senhores que nos resta
senão ir aos maus costumes,
às redundâncias, bem-pensâncias,
com alfinetes e lumes,
fazer rebentar a besta,
pô-las de pernas pró ar?

Por isso, aqui, acolá
tudo pode acontecer,
que as ideias saem fora
da testa de cada qual
para que a vida não seja
só mentira, só mental...


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ALEXANDRE O´NEILL (1924-1986) - O LANTERNA VERMELHA


Que interessa mostrar que você está morta e, o que é melhor, sem seios,
D. Adelaide Janeleira?
Que Sua Besta voltou a meter as mãos dentro do prato
ou que o Dr. Falaz está às moscas?
Ou que há velhas ourinadas nas pastelarias
ainda a fazerem cu-curru ao Brilhantinas?
Que falta de tacto me pode permitir ainda
falar dos três que – traição! – não estão lá
onde estiveram uma eternidade?
Que tropeção no gosto me leva a cair sempre em cima
da cantora a que ninguém dá ouvidos
(prouvera ao Velho fosse boa, mesmo que não cantasse...)
Que ancestral timidez me faz beijobicar a ebúrnea
manita de Moema
quando o que valia a pena era trincá-la
para que ao menos uma vez houvesse sangue
naquela sala?
Que têm os outros com certa pacotilha
que transporto na m´alma
Para quê aguitarrar a frustração?
Para quê maxilar a agressão?
Anda, vá, dá-me a tua opinião!


- Sento-me na geral, vejo-me no palco e não me tomo a sério.
- Se eu te tomasse a sério (estás a ouvir, Alexandre?)
fazia-te perpassar nonchalamment pelos santuários,
deixava que certas fêmeas te devorassem
enquanto tu louvarias a Deus
sem esses palavrões que são agora os teus,
ou (soluço-solução) fazia de ti um grande e querido desgarrado,
um que soubesse organizar passeios à Angústia, ao Remorso, ao Outro Lado,
mas em tirar o rico sono aos mortos.
Se eu te tomasse a sério carrilava-te,
meu lanterna vermelha!


Que interessa a gloríola (simiesco nome)?
Que interessa aparecer em Estocolmo a bordo de um poema
que não chega sequer a Trás-os-Montes?
Para quê negacear com os espelhos
quando os espelhos se revêem em nós?
Não acha o colega que a poesia não tem nada a ver com a pesquisa?
(Pesquisas fazem-se em casa, já dizia a minha avó, que era escritora).
Não acha o colega que estamos todos a exagerar
no fabrico da faca em lâmina a que falta o cabo?
Não lhe parece, caro colega, que a poesia deve ter por objectivo a verdade prática?
«E o que é a verdade prática?» pergunta logo o colega para me codilhar.
«E o que é o lume?» perguntou-me por gestos o meu filho.
«É o que queima» disse-lhe eu através do gesto de o queimar com a ponta do cigarro.
Será isto a verdade prática? Ajude-me, por favor, caro colega.
A colega perdoe, mas se o seu marido não cumpre os deveres por assim dizer conjugais
que tem a poesia com isso?
Desabafe antes com uma amiga, ou se tiver coragem, com um amigo
que pode muito bem ser este seu criado...
Quando fizer strip-tease, simpática colega,
não se esqueça de deixar-se no poema toda nua
mas tirando só no fim as meias pretas, que os homens gostam mais ...
Se o colega tem na montra, tem,
versos tão neo-bondadosos,
o que não terá no armazém, hein?
Pst! Colega! Não vai um tirinho,
um tirinho nesse corpinho?
Já sabemos, respeitabilíssima colega,
que traz alguns anjos a voar
no seu céu de papel,
mas não se esqueça de os reabastecer
com combustível terrestre volta e meia:
ficarão mais parecidos...
Colega (passe o termo...) a sua rosa
já se desfardou?
Mande antes vir, em vez de rosas mentirosas,
9 tostões de pão e 3 de vinho,
tudo muito bem desenhadinho...
E agora, colegas, terminando
esta fantasia a fogo brando
onde nenhum pano cai,
cantemos allegro para os críticos,
lembrando o que está a ir,
esquecendo o que já lá vai:

Se não fôssemos nós
quem eram vocês?

Se não fossem vocês
quem éramos nós?

Quem nos lê a nós?
São vocês (e nós...)

Quem vos lê a vocês?
Somos nós ( e vocês...)

Tudo fica, pois,
entre nós, entre nós...


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SEBASTIÃO DA GAMA (1924-1952) - DIÁRIO DE BORDO


Cá estou eu, a julgar que vou remando...

Cá vai Deus a remar
e eu a ser um remo com que Deus
rasga caminhos pelo Mar...


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MÁRIO CESARINY (1923-2006) - YOU ARE WELCOME TO ELSINORE


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever de falar



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ALEXANDRE PINHEIRO TORRES (1923) - MORRER SIM (MAS DEVAGAR?)


O morto quando se esforça é uma arte em si.
Não queria exércitos e relâmpagos e lâminas
para expulsar a morte? Ao menos bombardear
a coutada das viúvas? As suas piscinas poderosas?

Mas a morte é a única coisa que se herda.
Por trás de cada um entre as pausas do choro
desabrocham os primeiros breves sorrisos. Não
há morto que escape a rirmo-nos dentro dele.

Morrer é uma forma de se ser outra vez notícia.
Por trás de cada morto erguem-se de súbito
décadas de rostos esquecidos. Cada morte pode
alterar os ares e os rios. Sobretudo a palavra

com que é dita. De que valeria ser poeta num
tempo destes? Cantar uma mulher deitada
a abrir-se? O morto existe. Comecei a dar-lhe nomes:
árvore de cinzas ou flor evaporada tanto faz.

O olfacto e o ouvido detinham-se inquietos
mobilizados noutras fronteiras e a minha
mente traduzia: é o aroma da terra
o sabor da maçã o estrépito dos autocarros.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - ÚLTIMO POEMA


É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - NAS ERVAS


Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão,

porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve, abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - AO FIM DA MANHÃ


Era ao fim da manhã; talvez
o vento com seu manto de piedade
o tivesse ajudado: um pardal
surgiu no parapeito da janela.
Alguma coisa, pedra ou montanha,
lhe caíra em cima: no corpo todo
em sangue, só os olhos
baços imploram ainda.
Não era apenas o pequeno ser
que noutro olhar suspenso
sofria: a própria vida
lutava para negar a morte.
Não conseguiu – e tanto
o desejara quem os olhos suspendera
da frágil imagem do mundo
em agonia. Longe da luz onde nascera.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - ARTE DE NAVEGAR



Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e a minha mão marinheiro.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - SURDO, SUBTERRÂNEO RIO


Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?


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EUGÉNIO DE ANDRADE - À MEMÓRIA DE RUY BELO


Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela ali estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis de um império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - IMPETUOSO, O TEU CORPO É COMO UM RIO


Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - FRENTE A FRENTE


Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.



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EUGÉNIO DE ANDRADE - AS AMORAS


O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


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EUGÉNIO DE ANDRADE - URGENTEMENTE


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


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EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005) - PASSAMOS PELAS COISAS SEM AS VER


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos como animais envelhecidos;
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos:
como frutos de sombra sem sabor
vamos caindo ao chão apodrecidos.


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NATÁLIA CORREIA (1923-1993) - O ACTO SEXUAL É PARA FAZER FILHOS...



“O acto sexual é para fazer filhos”, afirmação no Parlamento de João Morgado, deputado do CDS.



“Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca;
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que viril instrumento
só usou – parca ração!-
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.”


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REINALDO FERREIRA (1922-1959) - O SOLDADINHO NÃO VOLTA...



Menina dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

A Lua, que é viajante,
É que nos pode informar.
- O soldadinho já volta,
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta,
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.


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CARLOS DE OLIVEIRA (1921-1981) - CHAVE


Se uma película de vidro
Adere à pele da pedra; se algum
Vento vier.
Afere-lhe o esplendor; martela,
fere: um som de ferro
no exterior; por dentro
outra textura mais espessa. Poisa
como um verniz depois o ar
suave a sua
laca no esmalte fracturado.

E levanta-se então.
Minuciosamente. Ergueu-se
o halo
das colinas; a lenta beleza
levitada em cada grão
de pedra. Irradiando as lanças
que o brilho do vento
restitui à luz, no aro
mais espesso do ar.

Rodar a chave do poema
e fecharmo-nos no seu fulgor
por sobre o vale glaciar. Reler
o frio recordado.


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MATILDE ROSA ARAÚJO (1921)


São feias as casas dos emigrantes
Estilhaços na paisagem verde e granito velho
Agora azulejos de banheiras frias telhados tombados
À espera da neve estrangeira que não vai chegar
Persianas de alumínio varandas onde ninguém se debruça
Escadas a fugirem da porta
São feias mas eu amo-as com a ternura impotente do só amar
Vejo ontem os pobres a pedir em fila de lamúria
Humilhante e humilhada ao longo da estrada
As crianças de barrigas grandes e cabeças feridas
A purulenta húmida miséria de outrora
E agora nem talvez tão pouco mudassem
Neste mês de Agosto vêm como as aves
Mas em estação completa para fazerem o ninho
E de ano a ano constróem casas novas gritos
De um ter sem alegria ter escorraçado que amarga
E casam-se antes do ninho em festa de gritos
Buzinas uivos de animais mecânicos
Tules brancos nos carros na cabeça espelho rico da noiva
No próprio vinho
Cabeça espelho de miséria antiga espelho errante
E não quebrado
Na corrida para França algumas aves morrem
Morrem pelo caminho atordoadas
E a paisagem ferida com azulejos telhados alumínios
Policrómicos ninhos que não encontram raiz para nascer
Agulhas espetadas nas almofadas dos montes
Espetadas por mágicos dedos dos que vivem sem pátria.


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RAUL DE CARVALHO (1920-1984) - SOBRE A CAMPA DE MEU PAI


Lá onde a morte é disforme
consagração do infinito
é que eu me escuto e deserto
é que eu me espanto e me minto.

É que tudo quanto aqui
me detém e me seduz
traz oriunda de raiz
outra forma e outra luz.

Lá onde estão reunidas
sem saber quais elas sejam
as coisas todas perdidas
e as outras que nos desejam.


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NATÉRCIA FREIRE (1920-2004) - GUERRA

São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Via-os chegar, às tardes comovidos,
Nupciais e trementes,
Do enlace da Vida com os sentidos.

Estiveram no meu colo, sonolentos.
Contei-lhes muitas lendas e poemas.
Às vezes, perguntavam por algemas.
Respondia-lhes: mar, astros e vento.

Alguns, os mais ousados, os mais loucos,
Desejavam a luta, o caos, a guerra.
Outros sonhavam e acordavam roucos
De gritar contra os muros que há na Terra.

São meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Nove meses de esperança, lua a lua.

Grandes barcos os levam, lentamente...


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SIDÓNIO MURALHA (1920-1982) - PEQUENOS DEUSES CASEIROS


Pequenos deuses caseiros que brincais aos temporais,
passam-se os dias, as semanas, os meses e os anos
e vós jogais, jogais
o jogo dos tiranos.

Pequenos deuses caseiros, cantai cantigas macias,
tomai vossa morfina, perdulai vossos dinheiros,
derramai a vossa raiva, gozai vossas tiranias,
pequenos deuses caseiros.

Erguei vossos castelos, elegei vossos senhores,
espancai vossos criados, violai vossas criadas,
e bebei, bebei o vinho dos traidores
servido em taças roubadas.

Dormi em colchões de penas, dançai dias inteiros,
comprai os que se vendem, e alteai vossas janelas,
e trancai vossas portas, pequenos deuses caseiros,
e reforçai, reforçai as sentinelas.

Que é sempre um dia a menos este dia que passa,
e cada dia a mais aumenta o preço da traição,
e cada dia a mais aumenta o preço da desgraça,
e a nossa moeda não é piedade nem perdão
porque foi temperada com todas as lágrimas da raça.
Não, pequenos deuses caseiros, não!


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ANTÓNIO ALEIXO - ANTOLOGIA POÉTICA






António Aleixo nasceu em 18 de Fevereiro do ano de 1899, em Vila Real de Santo António. Filho de um tecelão, vai viver para Loulé, ainda criança. Aí aprende as primeiras letras e com apenas dez anos já se revela como improvisador, cantando as janeiras.
Com apenas treze anos, inicia-se no ofício do pai. Primeiro soldado, depois polícia em Faro, casa em Loulé e emigra para França. Retorna a Portugal e vende cautelas. Até ao internamento em Coimbra, no Sanatório dos Covões, torna-se conhecido, dando à estampa no ano de 1943 o seu primeiro livro.
Até 1949 mantém-se no Sanatório, regressando em princípios de Outubro, definitivamente ao Algarve.
Morre tísico no dia 16 de Novembro de 1949.

António Aleixo é um poeta popular, sabe ler e escrever, mas não é propriamente um intelectual. E ainda bem que o não é, porque se o fosse, provavelmente nada saberia da vida e dos homens.
Cauteleiro e guardador de rebanhos, homem pobre e sofrido, poeta e filósofo que soube abrir o Grande Livro da Vida, é perspicaz, espontâneo, irónico, sarcástico... Poeta sofrido, sem conhecer ódio, poeta do sim a uma existência madrasta, do sim à Morte, poeta da verdade que só os génios e os insubmissos exprimem com liberdade.
A sua escola é a eterna Universidade do Quotidiano, que apenas a alguns eleitos é permitido frequentar.
O seu saber e engenho provoca uma improvisação espontânea, de lucidez instantânea.

Não sou homem dado a homenagens, e, se algum dia as merecesse – que não as mereço, nem merecerei – nunca as aceitaria. Mas, homenagear Aleixo, é homenagear o sofrimento, a dor, o génio e a desventura. É homenagear a sageza, virtude que se foi extinguindo neste mundo de miséria moral, de incompetentes, ladrões, aduladores e de “doutores analfabetos”.
Aleixo não é doutor, não é analfabeto, mas é um catedrático da Vida, que não os papagaios engravatados que nos rodeiam e botam discurso e “faladura”, assemelhando-se à serradura quase imprestável que queimamos nos fogões nas noites de álgida invernia.

Que no espelho do livro do poeta, “Este Livro Que Vos Deixo”, cada um se veja e reveja e, outrossim, a pútrida sociedade que amamenta.


Estejas lá onde estiveres, Bem Hajas, Irmão!


Zé Maria Alves










Peço às altas competências
Perdão, porque mal sei ler,
Para aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.



Se pedir, peço cantando,
Sou mais atendido assim;
Porque, se pedir chorando,
Ninguém tem pena de mim.



Por de Deus ter recebido
Tantas provas de bondade,
Já lhe tenho até pedido
A morte por caridade.



Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.



Fala quanto te apeteça,
Mas desculpa que eu te diga
Que te falta na cabeça
O que te sobra em barriga.



Vem da serra um infeliz
Vender sêmea por farinha;
Passado tempo já diz:
- Esta rua é toda minha.



Uma mosca sem valor
Poisa, com a mesma alegria,
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.



Deixam-me sempre confuso
As tuas palavras boas,
Por não te ver fazer uso
Dessa moral que apregoas.



São parvos, não rias deles,
Deixa-os ser, que não são sós;
Às vezes rimos daqueles
Que valem mais do que nós.



Com o mundo pouco te importas
Porque julgas ver direito.
Como há-de ver coisas tortas
Quem só vê em seu proveito?



Descreio dos que me apontem
Uma sociedade sã:
Isto é hoje o que foi ontem
E o que há-de ser amanhã.



Vós que lá do vosso império
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos, que pode o povo
Querer um mundo novo a sério.



Há luta por mil doutrinas.
Se querem que o mundo ande
Façam das mil pequeninas
Uma só doutrina grande.



Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão, mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão?



Casado que arrasta a asa
À mulher deste e daquele,
Merece que tenha em casa
Outro homem em lugar dele.



Poisa sobre qualquer coisa
Um parasita, a brincar;
Se o não matam, quando poisa,
Já pode ele então matar.



De te ver fiquei repeso,
Em vez de ganhar, perdi;
Quis prender-te, fiquei preso,
E não sei se te prendi.



Eu não sei porque razão
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer.



Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.



É fácil a qualquer cão
Tirar cordeiros da relva;
Tirar a presa ao leão
É difícil nesta selva.



A vida na grande terra
Corrompe a humanidade.
Entre a cidade e a serra
Prefiro a serra à cidade.



Deus vive dentro de nós;
Quando queremos fazer mal
Ouvimos a sua voz
Dizer-nos: - Não faças tal.



Para a mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.



Engraxadores sem caixa
Há aos centos na cidade,
Que só usam da tal graxa
Que envenena a sociedade.



Para triunfares depressa,
Cala contigo o que vejas
E finge que não te interessa
Aquilo que mais desejas.



Se o hábito faz o monge
E o mundo quer-se iludido,
Que dirá quem vê de longe
Um gatuno bem vestido?



Foste mordido como eles,
Sofreste, e sem que o recordes,
Agora mordes naqueles
Que sofrem quando lhes mordes.



Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.



Esta gente tão sincera,
Cheia de graça e encanto,
De um santo faz uma fera
E faz de uma fera um santo.



Tu és feliz, vives na alta,
E eu de rastos como a cobra.
Porquê? Porque tens de sobra
O pão que a tantos faz falta.



Direi mal, daqui não saio,
Apenas canto o que é meu,
Não sou como o papagaio
Que só diz o que aprendeu.



Quantas sedas que aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão
Roubados aos pobrezinhos!



Queremos ver sempre à distância
O que não está descoberto,
Sem ligarmos importância
Ao que está à vista e perto.



És um rapaz instruído,
És um doutor; em resumo:
És um limão, que espremido,
Não dá caroços nem sumo.



Crês que ser pobre é não ter
Pão alvo ou carne na mesa?
Mas é pior não saber
Suportar essa pobreza!



A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.



O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre...
E desse sonho dourado
Só acorda quando morre!



Quantas, quantas infelizes
Deixam de ser virtuosas...
E depois são seus juizes
Os que as fazem criminosas!...



Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.



Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias...



Diz que viver é sofrer...
Concordo. Mas não compreendo
Que ninguém ouse dizer
Quanto se aprende sofrendo!



Vinho que vai para vinagre
Não retrocede o caminho;
Só por obra de milagre,
Pode de novo ser vinho.



Tanto da vida conheço
Que, ao ver o mundo tão torto,
Às vezes quando adormeço,
Desejava acordar morto.



Não sou esperto nem bruto,
Nem bem nem mal educado:
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.



Se no sentir fui distinto,
Talvez, por essa razão,
Agora levo e não sinto,
Os pontapés que me dão...



Nomes feios há mais de um...
Mas calcula a tua classe,
Que não conheço nenhum
Que inda ninguém te chamasse!



Só quando sinceramente
Sentimos a dor de alguém,
Podemos descrever bem
A mágoa que esse alguém sente.



Até nas quadras que faço
Aos podres que o mundo tem,
Sinto que sou um pedaço
Do mesmo podre também.



Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
Do que alcança a nossa vista!



A arte é força imanente,
Não se ensina, não se aprende,
Não se compra, não se vende,
Nasce e morre com a gente.



A arte é dom de quem cria;
Portanto não é artista
Aquele que só copia
As coisas que tem à vista.



Se o meu livro se consome,
Pode-me cobrir de glória,
Mas, depois, a minha história
Dirá que morri de fome.



Queria que o mundo soubesse
Que a dor que tortura a vida
É quase sempre sentida
Por quem menos a merece.



Oh! Quem me dera, sozinho,
E em quatro versos somente,
Contar ao mundo inteirinho
A mágoa de toda a gente.



Quem canta por conta sua
Quer ser, com muita razão,
Antes pardal, cá na rua,
Que rouxinol na prisão.



Não sei o que de mim pensam
Quando me vêem chorar;
Mas quero que se convençam
Que a dor também faz cantar.



Fiz do meu estro uma vara
Para medir a verdade
E dar com ela na cara
Do cinismo e da vaidade.



Se tudo me foi vedado,
Se vivi de tudo à míngua,
Deixai que vos mostre a língua
Com o freio bem cortado.



Se umas quadras são conselhos
Que vos dou de boa fé;
Outras são finos espelhos
Onde o leitor vê quem é.



À carta que me mandaste,
Em troca à minha, que leste,
Preferia o que pensaste
Àquilo que me escreveste.



Contigo em contradição
Pode estar um grande amigo;
Duvida mais dos que estão
Sempre de acordo contigo.



Fala!... Não te faças branco.
Não compreendes que, de resto,
Vale mais ser rude e franco
Que falsamente modesto?



Para que te não iludas
Com amigos, pensa nisto:
Foi com um beijo que Judas
Levou à cruz Jesus Cristo.



Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.



Quando algum bem tu fizeres,
Não o digas a ninguém,
Repara que, se o disseres,
Fazes mais mal do que bem.



Quando te vês mal, e dizes
Que preferias a morte,
Pensa que outros menos felizes
Invejam a tua sorte.



Nas tuas horas mais tristes,
De mágoas e desenganos,
Pensa que já não existes,
Que morreste há muitos anos.



A sociedade é um espelho
Que Deus, para os homens criou
- Onde só depois de velho
Comecei a ver quem sou.



Jesus disse que se amassem
Aos que cristãos se proclamam;
Não disse que se matassem,
E eles matam-se e não se amam.



São João, reparem nisto,
Teve este grande condão:
Ao baptizar Jesus Cristo
Foi quem fez Cristo cristão.



Tu não vais à procissão
Para rezar à Virgem-Mãe,
Vais para aqueles que lá vão
Verem que tu vais também.



Tu que queres ser alguém
Pelo que julgas valer
Não perdoas que ninguém
Seja o que tu queres ser.



Atrás dum morto, em conjunto,
Vão sem ninguém lhes dizer,
Que não vão pelo defunto
- Vão para a família saber.



Da guerra os grandes culpados,
Que espalham a dor na terra,
São os menos acusados
Como culpados da guerra.



O oiro, o cobre e a prata,
Que correm pelo mundo fora,
Servem sempre de arreata
Para levar burros à nora.



Que o mundo está mal, dizemos,
E vai de mal a pior;
E, afinal, nada fazemos
Para que ele seja melhor.



Só quando a hipocrisia
Cair do seu pedestal,
Nascerá, dia após dia,
Um sol para todos igual.



Ao ver uma triste cena
Quantos, sem vergonha alguma,
Ficam dizendo: - que pena!
... Sem terem pena nenhuma.

Como és vil, humanidade!...
Não olhas para as desventuras:
As chagas da sociedade,
Podes curar, e não curas.



Como a morte é um segredo,
Quem sabe lá se, por sorte,
Os mortos têm mais medo
Da vida que nós da morte?



Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.



Goza mais um desgraçado
Num dia de felicidade,
Do que qualquer abastado
Gozando uma eternidade.



Não vês? Onde um pardal poisa,
Poisam todos os pardais;
Nós somos a mesma coisa:
Onde um vai, vão os demais.



Tu já viste a «poesia»
Que há numa casa sem ceia,
Nem azeite na candeia,
Nem luz, se morre a do dia?...



Embora o nosso amor fosse
Doce, tinha que acabar;
O mel por ser muito doce
É que nos faz enjoar.



A começar pelo «urso»
De Coimbra, a estudantada,
Só quando acaba o curso,
Sabe que não sabe nada.



Alheio ao significado,
Diz o povo, e com razão,
Quando ouve um grande aldrabão:
- Dava um bom advogado.



Foste beijar o menino,
Quando, afinal, eu vi bem
Que beijaste o pequenino
Porque gostavas da mãe.



Quem só veste o que lhe dão
Vive sempre num inferno:
Traz sobretudo no verão
E anda em camisa no inverno.



Poeta, não, camarada,
Eu sou também cauteleiro;
Ser poeta não dá nada
Vender jogo dá dinheiro.



Nem os sábios... nem os poetas
Sabem fazer, de bom grado,
Aldrabices mais completas
Do que um bom advogado.



Não há nenhum milionário
Que seja feliz como eu:
Tenho como secretário
Um professor de liceu.



Riem d´outras com desdém
Certas damas bem vestidas;
Quantas para vestir bem,
Se despem às escondidas.



Doutores nobres e ricos,
Homens de grandes valores!...
As criadas – aos penicos,
Também lhes chamam «doutores»!



Porque as pequenas se encostem,
Não vos deve causar espanto...
Eu não estranho que elas gostem
Do que nós gostamos tanto.



Onde passas deixas rasto;
Qualquer homem te seduz.
- O teu marido é padrasto
Dos filhos que dás à luz.



Certas viúvas discretas,
De luto pesado em cima,
Lembram cachos de uvas pretas,
A pedir outra vindima.



A rica tem nome fino,
A pobre tem nome grosso;
A rica teve um menino,
A pobre pariu um moço!



Quantos moços elegantes
Vestem com todo o esmero!...
No vestir são uns gigantes,
No saber não valem zero.



Condecoro o Presidente...
E sabem porque razões?...
- Por ter posto a tanta gente
Tantas condecorações.



Ao pé de ti fico mudo,
Fitando esse teu olhar:
Quando os olhos dizem tudo
Para que há-de a boca falar?!



Qual é a mulher mais bela,
De formas esculturais?
A mais bela é sempre aquela
De quem nós gostamos mais.



Sem ter chicote nem vara
Manda-me a minha razão
Atirar versos à cara
Dos que me roubam o pão.



Nos versos que se improvisem,
Os poetas sabem ler,
Para além do que eles dizem,
Tudo o que querem dizer.



Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da Nação...
Vendo jogo, guardo gado
- Só me falta ser ladrão!



Vim ao mundo sem saber
Que vinha a ser o que sou;
Agora morro sem querer
E sem saber para onde vou.



Não sei se sei: sou dos tais
A quem pouco saber cabe;
Mas sei que é saber de mais,
A gente saber que sabe!



«Vá mais uma» - oiço dizer...
Olhem que isto até tem graça:
A todos ter de as fazer,
E a mim não há quem mas faça!



E cada quadra pedida
Rende muita gargalhada.
Há muita palma batida,
Mas lá dinheiro é que nada!



Sou um cauteleiro em forte,
Para vender jogo me empenho,
Se um dia vender a sorte,
Vendo aquilo que não tenho.



Na morte há tanta alegria,
Tanto desgosto e prazer,
Como os que a gente sentia
Anos antes de nascer.



Pensei uma vez assim:
«Paciência... tinha que ser...
Cuspi sangue, foi o fim...
Acabou-se, vou morrer!»



Os amigos, afastados,
Diziam-me sem me olhar,
Que não me vinham falar,
Para não serem contagiados.



Ao ver esses fugitivos,
Dizia, com desconforto:
«Morri, antes de ser morto,
Para aqueles que vejo vivos.»



E quando os via afastar,
Sentia, com mágoa infinda,
Vontade de lhes gritar:
«Não fujam, sou vivo ainda!»



Creio em Deus Todo-Poderoso,
Mas não vou à confissão,
Porque não sou mentiroso
Como aqueles que lá vão.



Sou um dos membros malditos
Dessa falsa sociedade
Que, baseada nos mitos,
Pode roubar à vontade.



Rouba muito que, de resto,
Terás um bom advogado
Que prova que és mais honesto
Que propriamente o roubado.



Se já sofreste, não chores,
Que a vida passa depressa...
Vamos ter dias melhores
E o passado pouco interessa.



Para que tentas prender
Um pensador de talento?
Não vês que vais dar sem querer,
Liberdade ao pensamento.



Para veres o que merecias
Quando tu me fazes mal,
Pensa só no que farias
A quem te fizesse tal.



Se andas comigo à pancada,
A justiça comprarás...
Arranjas uma embrulhada
Que vou preso e tu não vás.



Tu que vives na grandeza,
Se calçasses e vestisses
Daquilo que produzisses,
Andavas nu, com certeza.



Se dás para que o mundo veja,
Isso não é caridade
Como pretendes que seja
É fazer bem por vaidade!



Se cá voltasse Jesus,
O mártir, filho do homem,
Escorraçava os que comem
À sombra da sua cruz.



Numa ambição desmedida
A gente grande quer ter
Dois céus: - um cá nesta vida,
Outro depois de morrer.



Quem trabalha e mata a fome
Não come o pão de ninguém;
mas quem não trabalhe e come,
Come sempre o pão de alguém!



Entre grandes e pequenos
Ficávamos quase iguais,
Dando a uns um pouco menos
E a outros um pouco mais.



A fartura ao pé da fome,
Raramente se dá bem:
Quase sempre quem tem come
À custa de quem não tem!



Neste mundo, onde sobejam
Os homens de pouco siso,
Talvez os malucos sejam
Os que têm mais juízo.



Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!



A pedra branca, polida,
Que mói o trigo, indiferente,
É como a roda da vida
Que mói a vida da gente.



Não faço juízo algum
Vivo entre mil confusões
Se o Deus do mundo é só um
Porque há tantas religiões?



Nós não devemos cantar
A um deus cheio de encantos
Que se deixa utilizar
Para bem duns e mal de tantos.



Esta mascarada enorme
Com que o mundo nos aldraba,
Dura enquanto o povo dorme,
Quando ele acordar, acaba.



Prometem ao Zé Povinho
Liberdade, Lar e Pão...
Como se o mundo inteirinho
Não soubesse o que eles são.



Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.



Esperar é sempre um inferno;
Coitado de quem espera
Pelo «Socorro do Inverno»
- Que só vem na Primavera!






Vós podeis chamar-me louco;
Democrata; socialista...
E comunista também.
Que sou de tudo isso um pouco,
Pois sou uma coisa mista
Do bom que tudo isso tem!





MOTE

Já lá foi preso o ladrão
Que em toda a parte aparecia;
Contam-se mais de um milhão
De roubos que ele fazia.

GLOSAS

Meus senhores, vão ouvir
A história do quadrilheiro
Manuel Domingos Louzeiro,
Que foi a pena cumprir,
Enquanto alguém de Salir,
Num primor de descrição,
Lhe chama até «Lampião»;
Mas, salirenses honrados,
Podeis dormir descansados,
Já lá foi preso o ladrão.

Pelas coisas que o povo diz,
O tal Domingos tem sido
Para uns, um terrível bandido,
Para outros, grande infeliz.
Mas eu, sem querer ser juiz,
Vi que ele se despedia
Da mulher com quem vivia
Numa amizade sincera
E não vi nele a tal fera
Que em toda a parte aparecia.

Desse rei dos criminosos,
Direi, aos que o conheceram:
Poucos crimes apareceram
E poucos são os queixosos;
Apenas alguns medrosos
Terrível fama lhe dão;
Para a justiça só são
Os seus crimes dois ou três,
Mas coisas que ele não fez
Contam-se mais de um milhão.

Por alguns sítios passava,
Onde há só gente honradinha,
Que roubava à vontadinha
E que ninguém acusava;
Tudo Domingos pagava,
E ele às vezes nem sabia
Que à sua sombra vivia
Gente que passa por justa,
Fazendo crimes à custa
Dos roubos que ele fazia.


***



Pensei uma vez assim:
«Paciência... tinha que ser...
Cuspi sangue, foi o fim...
Acabou-se, vou morrer!»



Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...






Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que, sem parecer o que são,
São aquilo que eu pareço.


E tantos são, amigo Aleixo...






JOSÉ MARIA ALVES