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OS TRATAMENTOS SUGERIDOS NÃO DISPENSAM A INTERVENÇÃO DE TERAPEUTA OU MÉDICO ASSISTENTE.

ARTE

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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

MANHÃ DE ORVALHO


Manhã de orvalho.
Frio húmido
Pendente e penetrante
No tédio da noite.

Pergunto-me:
Ser alguém?
Ser reconhecido?
Não, afinal porque me iludo?

Apenas ser
Em paz
E no amor.

Frio húmido
Frio gelado
Sem agasalho.

JOSÉ MARIA ALVES
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PEDIR A DEUS A MORTE


Aquela mulher
Chora sem chorar
Grita sem gritar
E pede a Deus a morte –
Onde está seu filho morto?

JOSÉ MARIA ALVES
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SONHO DE VERÃO

Sonho de Verão
Num dia gelado –
Mãos velhas por aquecer.

JOSÉ MARIA ALVES
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SOZINHO


Sozinho no quarto,
A lareira acesa –
Lá fora um frio álgido.
Eu,
A dança das labaredas,
Música celta –
Lá fora um vento gelado.

JOSÉ MARIA ALVES
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DOR SEM FIM


Dor sem fim,
Dor gélida,
Por quanto tempo
Esta saudade?
Haverá quem a transforme
Em amor
E não pudendo ser,
Em amizade?

JOSÉ MARIA ALVES
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O HOMEM MAIS RICO DO MUNDO


Sou o mais rico dos homens,
O homem mais rico do mundo.
Não tenho relógio,
Não tenho gravatas,
Não tenho agenda

E no fundo
Quase tudo o que tenho
Me sobra.

JOSÉ MARIA ALVES
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NUVEM NEGRA


Uma nuvem negra
No céu –
A sua água é tão pura
Como a de outra qualquer.

JOSÉ MARIA ALVES
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MENTE AUSENTE


Um cigarro
E o seu fumo
Na mente ausente.

JOSÉ MARIA ALVES
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SOL NASCENTE

Sol nascente.
Não há chegada
Nem no poente
Há partida –
Apenas eterna estada
Num mundo de vime.

JOSÉ MARIA ALVES
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FLORES DE JARDIM


As flores do jardim
Primorosamente cuidadas.
Todas as suas vontades
Realizadas –
Sucumbirão
À primeira tormenta.

JOSÉ MARIA ALVES
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SOMBRA E LUZ


É bela a sombra –
Aponta sempre
O trilho da luz.

JOSÉ MARIA ALVES
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O CRESTELO

Frio lá fora.
Leve película de neve
Cobre o jardim,
Afaga o pelo do Crestelo.
No recolhimento da vidraça
Cresço por dentro,
Tal erva da calçada
Queimada pela geada.

JOSÉ MARIA ALVES
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O MAL E O BEM


Há o mal
E há o bem,
A benignidade no castigo
E a atrocidade no perdão.
É mais fácil exterminar
A bondade
Pela maldade
Do que a crueldade
Pela compaixão.

JOSÉ MARIA ALVES
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NASÇO DE MIM


Esta ferida que sangra
Ninguém o sangue estanca.
Neste meu ferimento
Não pode haver lamento –
Nasço de mim.

JOSÉ MARIA ALVES
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CRESCIMENTO


A árvore é fustigada
Por ventos violentos
Da montanha agreste –
Crescerá!

JOSÉ MARIA ALVES
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

LEISHMANIOSE - TRATAMENTO

Veja-se neste blog o artigo, LEISHMANIOSE CANINA - TRATAMENTO HOMEOPÁTICO

O PAPAGAIO


Com que suavidade
Sobe o papagaio
Empurrado pelo vento
De um modo tão lento
Como anjo colorido –
Criança,
Deixa-me subir contigo
No sonho de teu olhar.

JOSÉ MARIA ALVES
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A CARRUAGEM 81


De novo em viagem.
A carruagem 81 de sempre
E o mesmo som das rodas
A trilhar os carris.
Tejo e céu cinzentos –
Oração silenciosa.

JOSÉ MARIA ALVES
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REPOUSAR NO AMOR


Amo
Como ama o amor,
Amo por amar
E quando quero repousar
Repouso no amor.

JOSÉ MARIA ALVES
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PERGUNTA À SENHORA MORTE


Apesar de tudo,
Se antes de mim morreres,
Pergunta à Senhora Morte
Se podes transportar contigo
Um velho amigo.

JOSÉ MARIA ALVES
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CAVALGAR O VENTO


Corro atrás do vento.
De quando em vez agarro-o
De quando em vez cavalgo-o.

JOSÉ MARIA ALVES
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O DESAFIO DA SOLIDÃO


A solidão
Desafia-me
A estar só.

JOSÉ MARIA ALVES
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TUDO TEM O SEU TEMPO


O gato espreita a toca
Impávido tal estátua.
Aguarda o rato –
Para quem espera
Tudo tem o seu tempo.

JOSÉ MARIA ALVES
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

LEISHMANIOSE CANINA - TRATAMENTO HOMEOPÁTICO


Já muitos são os médicos veterinários que em todo o planeta utilizam a homeopatia, podendo assim falar-se de uma homeopatia veterinária que não difere da humana – não vamos aqui enunciar os seus princípios, que reputamos suficientemente desenvolvidos, quer em artigos deste blog quer no nosso site pessoal,
www.homeoesp.org

A Medicina Veterinária surge na segunda metade do século XVIII, e Hahnemann, fundador incontestado da Homeopatia afirmou que as leis desta são válidas para todos os seres vivos, podendo os animais ser curados de forma tão segura quanto o homem.
Numa palestra que realizou na cidade de Leipzig, com o título “O Tratamento Homeopático em Animais Domésticos”, disse ter aceite com facilidade que a Medicina Veterinária é praticada de forma similar à humana. Daí, que no domínio das patologias é idêntica a observação do quadro patológico apresentado pelo animal e que por outro lado, se torna necessário determinar os efeitos produzidos pelas substâncias puras quando administradas a animais sãos. Assim, quando os sinais e sintomas produzidos artificialmente no animal são correspondem aos do animal enfermo, poderemos estar certos de que a cura operará rápida e duradouramente, sem consequências danosas para o organismo doente.

O veterinário homeopático ideal é na nossa perspectiva o unicista. No entanto, estamos convictos de que em determinadas circunstâncias, quer o pluralismo quer o complexismo produzem resultados notáveis.
Um qualquer animal, em especial de companhia, não é propriamente o objecto ideal para incautas experimentações. Apesar de tudo, todos nós temos a obrigação de concorrer para o bem-estar e felicidade dos nossos “irmãos” de quatro patas – também os há de duas, não obstante sejam em reduzido número...


Aplicar o remédio homeopático numa situação específica, exige um conhecimento mínimo desta ciência e arte de curar.
Nesta sede, limitar-nos-emos a meras indicações práticas, obviamente insuficientes para quem faz uso diligente de tal terapêutica.

Em regra, os medicamentos homeopáticos apresentam-se sob a forma de grânulos e de gotas. Pessoalmente, prefiro as gotas.
Para ministrar o medicamento, utilizo uma pequena seringa onde a 2 ml de água purificada faço acrescer a dose que reputo ideal – número de gotas do medicamento.
As diluições estão indicadas e são ministradas como infra se indica, salvo indicação em contrário:
- As 4 e 5 CH – casos agudos -, três ou mais vezes por dia.
- As 7 CH, de 3 em 3 ou de 4 em 4 dias.
- Potências superiores – da 9ª à 30ª CH – serão administradas semanalmente. Atente-se que os iniciados devem utilizar sempre baixas diluições. Há quem prefira e indique a 6 CH por ser a que menos agravamentos provoca.

Cada medicamento deverá ter a sua própria seringa.


A Homeopatia pode ser encarada como uma terapêutica complementar da Medicina Veterinária, mas também como primeira escolha. Esta última, deverá ter sempre, pelo menos nos casos graves, o aval do especialista.
É nesta perspectiva, que incluímos um protocolo de tratamento para uma doença que tantos animais dizima – ou faz dizimar, e caso se opte pela linguagem dócil da medicina veterinária, “adormecer”.
Doença esta, que faz com que num distrito dos mais afectados do país – Guarda -, estejamos a tentar criar um centro de apoio homeopático para animais com doenças crónicas – ou seja, para todos aqueles que são entregues para abate sem que estejam esgotadas todas as possibilidades terapêuticas. Não podemos olvidar que os animais têm direito à existência, respeito, atenção, cuidados e protecção do homem, só devendo ser mortos quando já não existir qualquer esperança de vida e o seu sofrimento o imponha, caso contrário, estamos face a um biocídio, ou seja, um crime contra a vida.
O “adormecimento” egoísta e leviano de um animal de companhia é sempre um acto cruel e degradante.

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A leishmaniose é uma doença grave, com larga disseminação em Portugal.
Existem zonas geográficas onde nos últimos 10 anos aumentou cerca de 100%.

É uma parasitose provocada pelo protozoário Leishmania spp, sendo os canídeos em regra, infectados pela picada de flebótomos, que são pequenos insectos.
O parasita multiplica-se na medula óssea, gânglios e baço, provocando inúmeros sintomas e sinais.
É fundamental que o dono ou tratador do animal esteja atento aos ditos sinais e sintomas indiciadores da existência de doença, já que na sua fase inicial o tratamento tem amplas possibilidades de êxito. De qualquer modo, deve ser submetido a exames trimestrais para evitar recaídas – o animal tratado pode ficar portador do parasita para sempre.

Entre os sinais e sintomas da leishmaniose, identificamos:
- Emagrecimento;
- Perda do apetite;
- Febre irregular;
- Indiferença, apatia e debilidade;
- Feridas que não cicatrizam;
- Crescimento rápido das unhas, com unhas do tipo “faquir”;
- Hemorragias – cutâneas, digestivas, epistaxe.
- Gastroenterite hemorrágica;
- Diarreia;
- Vómitos;
- Adenopatias;
- Insuficiência renal – bebe muita água e urina muito.
- Conjuntivite e lesões da córnea;
- Esplenomegalia;
- Hepatomegalia;
- Emaciação e atrofia dos músculos faciais;
- “Cabeça de velha”;
- Dificuldades de locomoção e paralisia das patas traseiras;
- Falta de pelos, principalmente nos bordos das orelhas e saliências das articulações;
- Nefrite – esta surge nos estados terminais.



PLANO DE TRATAMENTO

O plano de tratamento homeopático limitar-se-á a complementar o estabelecido pelo médico veterinário.

1.º DIA – 12 gotas ou grânulos – estes terão de ser diluídos – de Arsenicum Album 6 CH em 2 ml de água purificada ministrado através de uma seringa.

3.º DIA – Agitar vigorosamente o frasco do remédio 10 vezes. Diluir 12 gotas de Arsenicum Album 6 CH em 2 ml de água purificada.

5.º DIA – Repetir todo o procedimento indicado para o 3.º dia.

8.º DIA – 12 gotas ou grânulos de Antimonium Tartaricum 7 CH em 2 ml de água purificada ministrado através de uma seringa.

11.º DIA – Agitar vigorosamente o frasco do remédio 10 vezes. Diluir 12 gotas de Antimonium Tartaricum em 2ml de água purificada.

14.º DIA – Repetir todo o procedimento indicado para o 11.º dia.

18.º DIA – 12 gotas ou grânulos de Antimonium Crudum 7 CH – utilizar o procedimento do 8º dia.

21.º DIA – Antimonium Crudum – utilizar o procedimento do 11º dia.

24.º DIA – Antimonium Crudum – o mesmo procedimento do 14º dia.



Para além do tratamento homeopático é de todo essencial que o sistema imunitário do animal seja reforçado.
Neste particular, e com as necessárias e inevitáveis adaptações veja-se:
Em
www.homeoesp.org LIVROS ONLINE » O REFORÇO DO SISTEMA IMUNITÁRIO.



JOSÉ MARIA ALVES

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

SABE-ME A MUNDO



Sabe-me a mundo
O rumor da água da ribeira.
Contínua,
A saltar de alma em alma.
Tão verdadeira
Que de a ver
Julgo ver a Terra inteira.

JOSÉ MARIA ALVES
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NÃO TE POSSUO QUANDO TE QUERO TER



Não te possuo quando te quero ter
Nem depois de te ter tido
Ou enquanto em vão te tenho.
Tenho-te quando não te quero
Ou pouco me importa ter-te.


JOSÉ MARIA ALVES
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AS COISAS NÃO SÃO MAIS QUE COISAS



As coisas não são mais que coisas
Aquelas que vejo
Ou me contam de ter visto
E imagino como são
E vejo por outrem ou mesmo por mim
No lago da eternidade
Onde estão todas menos eu
Que se de coisa me revisto
Pertencendo ao imaginário que é teu
É porque se no que existo
Sinto em ti o que é meu.

JOSÉ MARIA ALVES
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BRILHA A LUZ

A sombra persegue-me.
De costas para o sol -
Um espinho cravado na carne velha de pus.
Num qualquer lugar
Eu intuo, sinto e sei:
Brilha a luz.

JOSÉ MARIA ALVES
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COM LICENÇA QUE QUERO AMAR



Ficou-me o gosto de orvalho do nenúfar
E sei que a garganta se entorpece com o jasmim,
Não tanto como com o cetim que a envolve e corrompe.
Libertem-se laringes, sons orquestrais de um canto circular,
Liras de oiro fendidas por quem ninguém ousa clamar.
Vinde lentas e presunçosas, doidas airosas, esguias,
Soltas, descondicionadas, apaixonadas, livres,
Saudar o novo homem, o novo dia.

Com licença, abram-se os caminhos
Encerrem-se destinos,
Que quero amar.


JOSÉ MARIA ALVES
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SER SEM SER DE NINGUÉM


O meu espírito compraz-se na solidão,
Na não dependência
Da ausência de desejos,
Da ambição.
E se escrevo é
Porque quero simplesmente
Estar só, ser sem mais,
Ser com tudo e todos,
Ser sem ninguém,
Ser,
Sem ser de alguém.

JOSÉ MARIA ALVES
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OLHAR SEM PENSAR, OLHAR DE AMAR



O frio do alto fez-me calçar uma luva na mão dormente.
Com a abóbada do dia a fechar-se no seio do absoluto
Olhei o tempo desconfiado de estranheza
E pensei que não é Julho ou Agosto,
Noite ou dia, mas um tempo incomensurável
Medido por um passe de alquimia.

Já não conheço as Estações, julgo ter transitado
De planeta, galáxia, universo, e fico triste
Sem movimentos, na música de água que escorre e paralisa,
Nas jornadas vegetais, vazias do granito cinza,
Escuro, puro e frio.

Percebo agora ou às vezes,
Que não é preciso amar para amar,
Basta-me olhar, olhar de ver,
Olhar sem pensar, olhar de amar.
E, então amo,
Amo como nunca ninguém amou,
A pedra,
O rio,
Um ermo,
A nuvem,
O mar e
Até gente.

JOSÉ MARIA ALVES
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A ÁRVORE DA LIBERDADE

Um novo dia floresce
Um amor termina
E uma nova árvore de liberdade
Sem raízes ou apegos
Em mim cresce.

JOSÉ MARIA ALVES
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ONDE ESTÁS TU MORTE?

Onde estás tu morte?
Em que recanto te escondes?
Trespassa-me com a tua vara
Para que possa dormir no teu regaço.
O tempo passa e a tristeza fica
Tu passas e o medo morre.

Deixa-me morrer contigo
Para a vida e para a morte
Para o bem e para o mal
Para a dor e para a alegria
Para o passado e para o futuro
Para o presente do dia a dia.

Onde estás tu morte?
A quem concedes a sorte
Do infinito e da eternidade
Da beatitude sem fim?
Deixa-me morrer contigo
De amor gratuito
Como quem ceifa o trigo
E não colhe o grão
Ou lavra a terra
E não semeia pão.
Deixa-me morrer contigo
A mim que já morri.


JOSÉ MARIA ALVES
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CAI A NOITE



Cai a noite soturna.
Soturna?! Não gosto, mas escrevo.
Cinza em lágrimas. Em lágrimas?!
Não gosto e não apago.
As palavras não florescem,
Nem germinam suavemente.
São arremessadas longe,
Levadas pelo vento que as sepulta no vale,
Na montanha, em qualquer mente.
Pequenas, grandes, com erros,
Tortas e retorcidas,
Todas servem à economia.
Produto interno bruto, líquido, resoluto.
Miséria, fome, as velhinhas de luto.
Grossas, magras, esquisitas,
De pé, deitadas,
Servem para a marmelada.
Putas velhas desdentadas, mamadas,
Senhoras finas mal fodidas, vacas ordenhadas.
Esguias, secas, aos tropeções, servem os aldrabões,
Políticos, advogados, magistrados e os ladrões.
Cai a noite em cortesia.
Até gosto.
Gosto e escrevo em letras brandas,
Delicadas, macias e alinhadas,
Como convém à humanidade, em fim de página,
Em versos de rodapé.
“Inté” mais ver, chulos e cabrões,
Que o mundo vos pertence,
É propriedade de safados e canastrões.


JOSÉ MARIA ALVES
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MUDA O TEMPO E A VERDADE

Muda o tempo
A Lua
E a vontade.
Muda o céu
As nuvens
E a verdade.
Muda o pensamento
A tristeza
E a bondade.
Muda o rico
O pobre
E a maldade.
Mudo eu
Mudas tu
E fica a ansiedade.


JOSÉ MARIA ALVES
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ESPERAR A MORTE EM SEGREDO

Lembro-me dela pequena,
Magra, negra de luto à imagem do mundo,
Caminhando sem pisar
A poeira do caminho,
De olhar vivo e profundo
No abrupto e longo pesar.

Na face a beleza do granito,
No corpo o aroma do pinho,
Na voz a melodia do estorninho
A inebriar o vento
Da fraga do Barroco,
Num amar lento e seco

A perder de ver,
De quem espera a morte em segredo
Para não fazer doer.

JOSÉ MARIA ALVES
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NÃO ENCONTRO SENTIDO

Não encontro sentido
Ou aroma.
Não vislumbro horizonte
Ou rumo.
Não estou
Não ligo
Não peço
Não digo.
Chegou a Primavera
Terna
Colorida
Doce e envolvida.
Não vejo
Não cheiro
Não sinto
Não encontro
Para esta alma atormentada
Um abrigo.

Senhor,
A urze estremece
Ao vento Sul.
A pedra brilha ao sol
Matutino.
Estou só na teia
Que tece
E é tecida
Que por um momento
Me embriaga com vinho
Me seduz
Espanta
Reluz
E me faz recuar no caminho.


JOSÉ MARIA ALVES
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QUE NOITE É ESTA?

Que noite é esta
Que me arde o íntimo
Na paz das palavras
Que não digo?
Que nuvem me tolda a visão
Na miragem da libido
Que contradigo?
Que homens me esgotam
As veias carregadas de sal
Que a madrugada traz?
Quem escreve o que escrevo
Em páginas de luar
E raios de luz?
Quem me ensinou a amar
Até não mais ser capaz?
Que noite é esta?

JOSÉ MARIA ALVES
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CALO E CONSINTO



Corre uma leve brisa nos mastros
Nus e em repouso dos barcos.

Olho o rio que lento desliza
Na direcção do mar.

Perde-se a vista no horizonte
Da pequena vaga em S. Julião
E amo-te em silêncio
No segredo dos oceanos,
Das nuvens e estrelas.

Quero bradar aos céus
Às criaturas e aos deuses,
Quero cantar aos ventos
Às florestas, bosques
E encantamentos,
A paixão, o amor, o alento
Que faz cessar o sofrimento.

Mas calo e consinto
Escondo e minto
Quando afinal o que sinto
É tão atroz e violento
Que só pode ser acalmado
Pela voz em perpétuo movimento.


JOSÉ MARIA ALVES
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IÇAR VELAS AO VENTO


Quem me dera poder partir
Devagar e sozinho
De um modo lento
Natural
Devagarinho.
Içar velas ao vento
Aproar ao porvir
Rumo ao Norte
Bolina ao vento forte.
E assim
Sem penitência
Alma desnuda
Mente desfeita
Repousar na inocência
De existência muda
Que a vida dói
Sofre
Mói
E de perfeita
Nada tem.


JOSÉ MARIA ALVES
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NO PRINCÍPIO (MAS NUNCA HOUVE PRINCÍPIO)


No princípio (mas nunca houve princípio!)
tudo fluía
Como agora flui
E como para sempre fluirá
Manifestando-se em formas multíplices,
Impermanentes e ocasionais
Sujeitas a leis errantes, encobertas e locais.


O Ser vive em si,
No infinito, na eternidade.
Não habita em quem o vive
Nem no que vive.
Não está e não é,
É e está.
Indeterminado, inominado,
Sem fim ou começo,
Alto ou baixo, ou lado,
Sem espaço,
Não pode ser buscado.

Não existe para si,
Para mim, para ti;
Existe por si na eternidade.
O eterno sem centro é perfeito
Como o rio que corre no seu leito
E com humildade se faz oceano.
Não se esgota,
Não é tudo nem nada,
É o vazio íntegro da totalidade.

O que não tem fim nada sustenta
Não é sustentado
Não é teu ou meu,
De qualquer marca de gente,
E quando por mim passa, estou certo:
Não há “eu”, apenas o vácuo da mente.



O tempo dos tempos
É percorrido em mutações sucessivas,
Inesperadas, no seio do que sem começo nem fim
Muda e flui na sua majestosa permanência
E enganadora aparência.

Muitos milhões são as galáxias,
Incontáveis os profundos “universos”
Fabricando-se e desfazendo-se
Por amor da união e da desintegração
No tempo eterno e espaço infinito
Do que permanece
Na dança cósmica dos mundos.

Não houve princípio,
Não haverá fim.
Inventaste o princípio e os deuses
Atormentado por medos
E pelo sentimento do vazio entediado
Gerado pelo cárcere do tempo
E pelo esquife do espaço imenso.

Há um campo de concentração
Onde abunda a fome de espírito.
Os reclusos alimentam-se de fantasmas
Enquanto o cérebro esquelético
Se degrada e definha.
Há gente de esperança e desespero,
Todos ludibriados por espectros visíveis,
Almas de outro reino inventado.



Quando vos conheço (neste mundo, sim, porque outros os há...)
Amo-vos.
Por vezes, mutilo-vos pela adaga,
No entanto, amo-vos.
Amar não é mentir, adular –
Reservado, acautelo-me,
Protejo-me da superficialidade,
Da falta de seriedade.
A mim busco-me na profundeza
E ilumino-me na escuridão,
No breu da noite
Que parece não ter fim.


Estou no mundo, mas o mundo não me vê
Nem ter me quer (e para que havia de me querer?).
A luz envolve-me e reina a escuridão
De cegos que o são por não almejarem ver.

Amo os outros sem os abandonar,
E eles não o sabem e nunca o irão saber.
Não os quero desamparar,
Mesmo os que trilham caminho próprio
Sem clamar por auxílio,
Por quem os proteja.
Compassivo é o que não interfere,
Que está longe e perto,
Nem cá nem lá,
Distante, afectuoso,
E áspero se o tiver de ser;
O que tiver de ser que seja
O que for será.

Vivo na obscuridade,
Reservado e quieto na acção.
Os desejos extinguem-se,
Não sei o que é a ambição.
Nem sequer sei o que sou
Nem o que quero ser.
Sou o que não tem significado e que perante o mundo
É apenas o insignificante sem rumo,
O caminhante do nada.

Não ouso desejar, até o desejo do Ser é ilegítimo;
Nenhum desejo é permitido, apenas o do ancoradouro.
Desejar –
Desejar a ausência do desejo já é desejar.
O desejo é insaciável, a ambição desmedida,
A paixão dilacerante e o apego mata.
Só existe alívio para quem a si se basta.

Não saio de casa; do meu pequeno e dócil quarto
Vejo tudo o que se pode ver,
Conheço tudo o que se pode conhecer.
Viajo sem me movimentar, conheço sem ler,
Ajo na tranquilidade e por todo o lado
Sopra o vento da felicidade.

Sou abastado por nada possuir.
Sou forte por sem esforço me vencer;
Poderoso sem me mexer.

Poderei eu perder o que não tenho nem intento ter?


O que faz muitas coisas e guarda o seu fruto
Não o conservará: tudo perderá.
Quem age sem intenção frutifica naturalmente.
Quem busca, perde-se no além da floresta virgem
E nada retém ou encontra;
Encontrar significa liberdade.
Quem quiser guardar a reputação, perdê-la-á,
Quem quiser amontoar riqueza, arruinar-se-á,
Quem quiser aferrolhar paixões, corromper-se-á,
Quem quiser escudar-se do perigo, perecerá.

Morto, ficarei onde estou, estarei onde não estava,
Verei o que não vi, sentirei o que não senti,
Serei o que não sou e irei onde não vou.

Séculos e séculos a investigar a morte
Que dilacera corações e agrilhoa espíritos.
Sabeis o que é a morte? Sabeis o que é morrer?
Se falecerdes para o passado a cada minuto,
A todo o instante, sabereis o que é o decesso,
O que é fenecer.
Extinto o “ego”, resta a Mente vazia
Na paz dos tempos infindáveis.
Afinal, o que por tanto procurardes
Nunca encontrásteis, nem encontrareis.


JOSÉ MARIA ALVES
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ANTECÂMARA DA EXTINÇÃO


Caminha vacilante
Na companhia de pequeno cão.
Desleixada,
Cabelos a escorrer óleo,
Saia a rojar o chão.
Rosto de melancolia –
Marido morto.
Filho alcoólico –
Antecâmara da extinção.


JOSÉ MARIA ALVES
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ANGÚSTIA



Que angústia é esta que me domina
Que sopro de ânsia me consome?
Que saudade me envolve
Que tristeza me contamina?
Neste quarto de invernia é ausência que sinto
Do cheiro da urze e da visão do cume.


JOSÉ MARIA ALVES
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HÁ NA MINHA ALMA



Há na minha alma
Imensa borrasca.
Vagas alterosas
De alva espuma na crista,
Dor nos membros
Nus e gélidos
Do esforço ao leme.
Vergam-se os costados
E geme o poleame
Ao vento Norte
Em sinfonia infernal –
Já navegador não sou,
Apenas navegado
No caminho da morte.


JOSÉ MARIA ALVES
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A REVOLUÇÃO DAS "TIAS"



A revolução.
Um povo ignorante –
Corrupção, compadrio,
Hipocrisia
E anarquia.

A era da “Tia”,
Da Caras e da Cus
Dos jogadores da Luz.


JOSÉ MARIA ALVES
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ÁFRICA


Habituados a que os sirvam,
Que os adulem,
Brancos salteadores de negros,
E estes de si mesmos.
Escravos da perfídia
Da ambição
Do furto consentido
Da mão suja
E conspurcada.
Quereis-me igual a vós?
Não que a vossa desvergonha
Me constrange e envergonha.


JOSÉ MARIA ALVES
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A PROPRIEDADE É UMA VIOLÊNCIA



Eu também tive uma cabrinha,
Só que não era minha.
Cabras não são de ninguém: não há posse,
Não há domínio.
A propriedade é uma violência, minha, tua,
D´alguém.
Quem quer ou deseja o presídio, as correntes,
Os muros da prisão?
A cerca, que lhe tapem a visão?

Saltava nas pedras e as pedras não eram dela,
Bebia nos riachos, pastava nos lameiros de João Rancheiro,
Comia-lhe os cachos maduros,
Furtava a panela com a janta dos cães
Aos pinotes de patas no ar.
Não queria nada para além do momento,
Por isso, era dona de tachos, latas, terras, do casario,
Lamentos,
E até de mim.


JOSÉ MARIA ALVES
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MORRER PARA AMAR, MORRER PARA VIVER



Quando as luzes se apagam
Meu corpo estremece
E a angústia do nada impede-me adormecer.
Querem-me acordado,
Momentos que não são breves na noite lenta e quieta.
Para quê?
Porque é que não posso morrer por instantes
Para logo após renascer?
Morrer para amar,
Morrer para viver,
Ficar por momentos cego, surdo e mudo,
Sem tormento, sem dor,
Sentir o sono profundo de quem vai falecer
E desperta com o sangue novo e inocente de um rio,
De uma árvore,
Do céu,
Do mar,
Duma flor.


JOSÉ MARIA ALVES
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O MENINO ESTÁ EMBRUXADO

Antes queria estar altivo,
No alto, na serra,
Esquadrinhar a terra,
Falar de bichos aos bichos,
Beijar as árvores, as faias,
Sentir as nuvens no rosto,
Pisar os cachos, fazer mosto.

Uma só erva, uma só,
Contém o amor, a verdade
Da humanidade inteira.
E as pedras como são belas!
Apaixonei-me por vós
E com que paixão, força,
Tensão íntima a ganhar volume,
Intensidade, gozo e vaidade.

Disse ao milhafre o que não vos posso dizer,
Ciúme de pobre mortal acorrentado ao chão,
Ao rebanho para repousar na sombra do castanheiro
Não vá o Sol ensandecer
E ao pastor que toque a flauta,
Sempre, sempre, que quero adormecer.

A melodia ouve-se ao longe a perder de vista.
A vista também ouve e o ouvido vê.
A gente foge do medo, mas volta ao entardecer,
Não vá a noite levar-nos em aventura.
Misericórdia, Deus da Montanha,
Misericórdia e piedade,
Arrasta-me desta colina,
Afugenta-me esta saudade.

Já não amo ninguém.
Que dor e maldade para os animais de duas patas.
Nem sequer a Santíssima Trindade.
Blasfémia, tentação do Demo.
Vá de retro Satanás, cruzes, canhoto,
Besta impaciente,
Que o menino está embruxado,
Quedou doente.


JOSÉ MARIA ALVES
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MEU POVO


Meu Povo,
Simples e humilde
Como meus pais,
Meus avós –
Povo sem norte e sem voz,
Povo espoliado
E sem sorte.
Serei sempre seu brado,
Na mudez,
No ermo deserto,
E até na nudez
Da morte.

JOSÉ MARIA ALVES
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DESTE SEPULCRO EM QUE ME ENCONTRO



Deste sepulcro em que me encontro nascem pássaros de fogo,
Animais coloridos que voam nos céus da desesperança.
Triste sina do corpo moído, sujo na força vital da agonia
Evasiva, lúgubre, pendente
De reencarnação urgente. Estou morto, eu que vivo?!...

Mãos sulcadas, súbitas e aladas
Pelo destino, pela abóbada das Estações.

Gosto de vinho no Outono, cidra no Inverno,
Do luar de Agosto.
Aldeia minha com que sonho, música de encantar, dá-me uma musa para me reclinar.
Sossega na terra calma a luta dos cantos cósmicos,
Das nostalgias das alegrias crepusculares,
Do frémito das mulheres que o sabem ser em espasmos incontrolados, carnes audazes de videiras hasteadas.

É tarde ou cedo?
Que interessa a hora da eternidade na carne
Que abismada reluz ao sol?
Que interessa ó Deus se em vós acredito? É por acreditar que existis? É por ter fé que em mim estais?
Se vos conheci, ficai sabendo que vos esqueci, como esqueço
Sempre tudo.
Tudo e nada, grandes e pequenos,
Andarilhos e senhores.

Merda para a memória que me mata e
Estonteia, suja, desconserta, ensarilha e desnorteia.

JOSÉ MARIA ALVES
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ANGOLANA



Nasceste em país miserável.
Crianças estropiadas na lixeira,
Moribundos nas valetas.
Nos palácios e mansões,
Luxo e opulência –
Presidente, ministros,
Seus lacaios,
Todos assassinos e ladrões.

Dizem-te flor de compaixão,
Mas da tua boca,
De tua alma
Nunca ouvi indignação –
És cúmplice por omissão!


JOSÉ MARIA ALVES
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LADRÃO ENCARTADO E AUTORIZADO


Hora de jantar,
A televisão acesa
E silêncio à mesa
Enquanto um político
Fala e esbraceja –
A mentira habitual
Do ladrão encartado
E autorizado.


JOSÉ MARIA ALVES
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MORRER COMO QUEM NASCE



São dores que sinto
Trémulo e melancólico
Sem saber o que faço
O que quero.
Apenas mudar.
Ser
Como quem vive
Viver como quem é
Amar sem saber
Morrer como quem nasce.


JOSÉ MARIA ALVES
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SINTO HOJE UM ALVOROÇO





Sinto hoje um alvoroço
Incómodo, desajeitado, no meu rebanho.
Pulam as cabras, saltam ovelhas
E os cães desatentos.
Não lhes cheira a lobo,
Que os não vejo há anos.
Será que o olfacto os ilude ou engana?!
O meu rebanho são os meus pensamentos
Com cães imprestáveis para os guardar.
Devia guardá-los eternamente
Num alforge seguro e de quando em vez
Tirar um, para saber que sou capaz
De pensar o pensado,
De reflectir o reflectido,
E depois dormir com o saco ao lado
Não o deixando fugir,
Não vá alguém de má fé
Lembrar-se de mo abrir.


JOSÉ MARIA ALVES
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NÃO É POESIA QUE ESCREVO



Não é poesia que escrevo.
Não se trata de um poema
Ou canção.
Quando escrevo
Estremeço
Lento.
Piso suavemente
A flor
Que não vi no chão
Do caminho
Para não magoar o Deus
Que não conheço.

JOSÉ MARIA ALVES
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BRINCAR ÀS PALAVRAS COM PALAVRAS


Brincar às palavras com palavras,
Signos, sinais,
Que num conjunto imperfeito
São como todo o resto reais.
Folguedos.
Palavras que não são coisas nem seres,
Homens, mulheres, crianças, mas brinquedos.

Brinco convosco como quem brinca à beira do rio
Às pedrinhas redondas, macias, ágeis e alegres,
E no mar aos caranguejos tontos da maré vazia.
Para não estar só, não preciso de estar acompanhado,
Para não estar triste não necessito de rir,
Só quero, se querer tenho na corrida da vida,
Ir e vir, e brincar, com palavras, com gente, contigo,
Com frases, comigo.

Não sei o que digo, não me interessa
O que sou, vou ou deixo de ser, se a percepção da morte
Me dá uma pressa contínua até desfalecer.
Escrevo um amontoado de letras, de frases, de tretas,
Que a hora é de escrever.
Tanto faz o que penso – melhor seria não pensar –,
O que a mente soletra, a ingénua filosofia dita.
Escrevo palavras irreais, soltas, imparciais, fontes de estio,
Prostitutas gastas de ruelas retalhadas e sombrias.
Brinco e rebrinco, pulo no vazio,
E vou dizendo a brincar, como é sério
Este juntar de letras e frases sem pensar.


JOSÉ MARIA ALVES
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domingo, 15 de fevereiro de 2009

O SACRIFÍCIO DE ISAAC



O discípulo começara a ler a Bíblia pela primeira vez. Já lera outros livros sagrados. Neste, espantou-o ter Deus ordenado a Abraão que sacrificasse o seu filho Isaac. E dado o seu espírito compassivo, também não conseguia reconhecer no conceito de misericórdia divina, o facto de um anjo do Senhor ter substituído no momento derradeiro, Isaac por um cordeiro, que morreu pela espada de Abraão.
Questionou o Sage:
- Entendo que Deus tenha posto Abraão à prova, abençoando-o em consequência da sua cega obediência. Mas, Mestre, sacrificar um cordeiro? Entregar gratuitamente à morte um ser inocente, sem qualquer justificação plausível?
O Sage respondeu:
- Abraão é um mito. Ele é a fé que não racionaliza, a fé que tudo sustenta, e por tal, o abençoado a quem tudo é divinamente doado.
- E o cordeiro? – volveu o discípulo.
- Esse, não existe, porque se existisse, seríamos todos nós e, sendo todos nós, Deus não seria misericórdia mas castigo alienado.


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QUEM É DEUS? O TEU DEUS...

“Qual o motivo pelo qual nunca proferes a palavra Deus?”, perguntou um dos discípulos.
“Quando me distraio, falo-vos do Absoluto.”
“Qual é a diferença?”
“O deus de que falas é produto do teu cérebro, foi criado à tua imagem e semelhança. É apenas o teu deus. O Absoluto não é relativo, independe da tua actividade cerebral, existe em si e por si, pelo que é inatingível pela razão e pela linguagem com os seus imperfeitos símbolos.”


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O MESTRE E O SILÊNCIO



O Sage praticamente não falava. Os seus dias eram passados no mais profundo dos silêncios, observando com um misterioso sorriso, as estrelas, o azul infinito dos céus, as plantas e os pássaros que sobrevoavam o jardim. Por vezes detinha-se demoradamente na contemplação dos insectos, como se de uma criança deslumbrada se tratasse.
Um dos discípulos mais novos, ansioso por aprender, questionou-o:
“Há mais de vinte dias que estou convosco e nada me dissestes, não me dirigistes uma única palavra. Não me quereis ensinar?”
“Senta-te mais perto de mim. Agora ouve com atenção.”
Passaram-se longos minutos e o Sage mantinha-se no mais completo dos silêncios.
O discípulo não se conteve:
“Continuais sem me instruir!”
“Cala-te, deixa que o silêncio desperte o teu verdadeiro Mestre, tu mesmo.”


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O INSUCESSO ESCOLAR



Um Professor questionou o Sage:
“O insucesso escolar é cada vez maior nos meus alunos. Do mesmo se queixam muitos dos professores que conheço. Não sei que método pedagógico utilizar, nada resulta.”
“Experimenta libertá-los.”
“Como assim?”
“Liberta-os do saber oco dos manuais, dos teus conceitos e expectativas. Deixa que tomem a iniciativa, que sejam senhores das suas escolhas e que se auto-eduquem.”


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O DESMAME DOS CONDICIONAMENTOS



“Mestre, mostra-me o segredo de que tanto falas.”
“Desvendar-to é o mesmo que retirar abruptamente a droga ao toxicodependente. Apenas te provocaria perturbações neurovegetativas e distúrbios emocionais e comportamentais.”
“Não te entendo.”
“Tens previamente de fazer o desmame dos teus condicionamentos. Quando a tua mente estiver vazia, a Verdade não afectará o seu conteúdo e inexistirá síndroma de abstinência.”


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O CERTO E O ERRADO

Os discípulos estavam sentados à sombra de uma frondosa árvore. O Mestre caminhava sem direcção, rondando-a, absorto. Um silêncio quase absoluto envolvia aquele lugar. Apenas o leve sussurrar da brisa matinal nas folhas das árvores, estremecendo-as levemente, penetrava a mente dos que se encontravam em atenta vigilância.
Um dos mais jovens disse:
“Mestre, por muito que me esforce não consigo que a minha mente se afaste das ideias mundanas. Nas profundezas do meu cérebro agitam-se pulsões que me impelem e quase exigem o retorno aos prazeres da carne nas suas múltiplas configurações. O esplendor enganoso do mundo ainda me atrai. Sei que não estou certo, sei qual o caminho que devo trilhar, mas julgo-o dificultoso, tão dificultoso que desespero para o atingir.”
O Mestre ajoelhou-se e da terra ressequida, com um movimento lento e gracioso juntou na palma da mão um punhado de finos grãos de areia. Olhou-os demoradamente e disse:
“Qual destes grãos percorreu o caminho certo? Qual deles percorreu o caminho errado na longa estrada da vida? Qual deles está apegado ao outro ou a outrem?
Nunca te questiones quanto ao certo ou ao errado, nem discutas o que está errado ou certo.
Vive no mundo, mas não cries apego ao pó do mundo, para que ele não te cubra antes do tempo, ou seja, em vida.”


JOSÉ MARIA ALVES
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ILUMINAÇÃO E ACASO



“Mestre, será que tudo é fruto do acaso?”
“Não, apenas algumas coisas.”
“Podes explicar-te melhor?”
“Se a oportunidade para que surjam vários acontecimentos é idêntica, então é o acaso que faz com que seja um a ocorrer e não o outro ou os outros.”
“Então, a iluminação pode ser fruto do acaso?”
“É sempre fruto do Acaso.”


JOSÉ MARIA ALVES
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O ABSURDO DA EXISTÊNCIA



“Mestre, tenho meditado no facto da existência humana ser absurda.”
“O que é que te conduz a tal conclusão?”
“Nada tem sentido. O homem nasce sem que saiba porquê, fica sujeito à doença, à velhice e à morte, em suma ao sofrimento. Não encontro razão ou lógica na existência.”
“Vês aquela nuvem no céu?”
“Vejo.”
“Apropriou-se das águas da terra, movimenta-se ao sabor dos ventos e acabará por se desintegrar, alimentando mares, rios e lagos ou campos onde germinarão todo o tipo de plantas e de que todos os seres se irão alimentar. É absurda a sua existência?”
“Não sei, nunca pensei desse modo.”
“Então, não penses no absurdo da tua existência. Esse é o verdadeiro absurdo que não conduz a qualquer liberdade nem destrói os condicionamentos que te corroem. Vive, faz-te nuvem, cavalga o vento, busca sem buscares.”


JOSÉ MARIA ALVES
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ILUMINAÇÃO E ESTERCO


“Mestre, como poderei atingir a iluminação?”
“Vês o monte de estrume naquele campo?”
“Vejo.”
“Faz-te então esterco e verás germinar a seara no teu coração.”


JOSÉ MARIA ALVES
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CONSELHOS DE S. TOMÁS DE AQUINO A UM DISCÍPULO



Numa carta dirigida a um dos seus discípulos, S. Tomás aconselhou-o:
« Entra no oceano pelos pequenos ribeiros, não de uma vez, porque convém ir do mais fácil para o mais difícil. Este é o meu conselho e a tua instrução. Aconselho-te a ser de pouco falar e que vás pouco ao locutório. Cuida da pureza de consciência. Não cesses na oração. Frequenta a tua cela com amor, se quiseres ser introduzido na adega do vinho – sabedoria. Sê amável com todos. Não te ocupes em averiguar o que os outros fazem. Não tenhas familiaridade com ninguém, porque a excessiva familiaridade gera desprezo e distrai do estudo. Não te intrometas nos assuntos e conversas dos mundanos. Sobretudo, foge de correr de um lado para o outro. Imita a conduta dos santos e homens de bem. Não repares em quem fala, mas tudo o que ouvires de bom conserva-o na tua memória. Tenta compreender o que lês e ouves. Não deixes dúvidas por resolver. Acumula tudo o que possas no armário da mente, como quem deseja encher um vaso. Não procures o que te ultrapassa.
Seguindo estas indicações, produzirás durante toda a tua vida flores e frutos úteis na vinha do Senhor dos exércitos. Se seguires estes conselhos, poderás alcançar o que desejas. Adeus.»

*S. Tomás, descendente da família dos condes de Aquino, nasceu no castelo de Roccasecca, próximo de Cassino. Deixou um imenso legado filosófico.


JOSÉ MARIA ALVES
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ABERTURA DE ESPÍRITO E TOLERÂNCIA


“Mestre, devemos ser tolerantes com as crenças, doutrinas e ideias, mesmo daqueles que perfilham concepções ilógicas?”
“Mais do que isso. Devemos ter o espírito aberto, mantendo-o acessível à vastidão da vida. A abertura de espírito é em tudo superior à tolerância. Esta, limita-se a admitir que os outros pensem ou ajam de uma forma diferente da nossa, algo que se assemelha à condescendência, enquanto que aquela nos torna em absoluto receptivos a novas ideias. Se se limitarem a ser tolerantes, sereis como o cedro envasado do portal do mosteiro, protegidos das intempéries, mas inseguros e assustadiços tal crianças mimadas.”


JOSÉ MARIA ALVES
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A SOCIEDADE PERFEITA



O Sage disse:
“Só poderia existir uma sociedade perfeita.”
“Qual?”, perguntou um dos discípulos.
“A que abarcasse toda a humanidade de forma justa.”
Depois de alguns segundos de reflexão, emendou:
“Mais do que isso, muito mais, a que alcançasse com justeza e dignidade todos os seres do Cosmos.”


JOSÉ MARIA ALVES
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A RESOLUÇÃO DOS PROBLEMAS


“Mestre, os noviços pedem-me constantemente conselhos. Devo intervir activamente na resolução das suas crises, quer emocionais quer espirituais?”
“Imagina um prato de lentilhas, legumes e carne de porco. Quando a fome te acossasse gostarias que o comesse por ti, para que um dos seus ingredientes te não causasse indigestão ou mal-estar?”
“Não será certamente a forma correcta de resolver o problema, julgo.”
“Mas, tendo em conta a tua constituição física e hábitos alimentares, se te enunciar todas as vantagens e desvantagens de cada um dos alimentos constituintes do prato, que farás?”
“Comerei em função dessas mesmas propriedades, rejeitando o que me pode causar prejuízo à saúde.”
“O mesmo se passa com as crises que atravessamos na nossa conturbada existência, sejam de natureza emocional, sentimental, relacional ou religiosas. Os problemas clarificam-se quando são abertamente visualizados. A decisão é a sua consequência lógica e aí já não encerra qualquer dificuldade.”


JOSÉ MARIA ALVES
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A MENTE UNA


“Quero atingir a iluminação” – disse o discípulo.
“Tudo é a Mente Una. A Mente Una adopta todas as formas do universo. Não há nada excepto a Mente Una. Tu és a Mente Una e a mais alta sabedoria”, respondeu o Mestre.
“Não me podes dizer mais nada?”
Insatisfeito, procurou outro mestre, que lhe disse:
“Dar-te-ei a iluminação, mas antes terás de servir durante doze anos. Trabalharás para a comunidade. O teu primeiro trabalho será apanhar estrume.”
Durante doze anos trabalhou em todas as tarefas dos párias.
Ao fim de doze anos foi ter com o Mestre:
“Já passou o tempo que me destinaste. Dá-me agora a instrução.”
“O meu ensinamento é este: tudo é a Mente Una. É a Mente Una que se transforma sob todas as formas do Universo. Tu és a Mente Una.”
Espiritualmente maduro, compreendeu, e disse:
“Estranho que foi esse mesmo ensinamento que me deu o Mestre que rejeitei há doze anos, por não o ter compreendido. Por que será?”
“A realidade não mudou ao longo de doze anos; mas a tua atitude, por outro lado, mudou.”


JOSÉ MARIA ALVES
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A INDIFERENÇA À REPUTAÇÃO



Era um Mestre paradoxal e contraditório, chegando a ser extravagante. Era alvo de muitas críticas e censuras de muita gente.
Um discípulo disse-lhe:
“Porquê essas mudanças de atitude? Está a apostar a sua reputação para nada.”
“Isso é precisamente o que pretendo, não pretendo ter reputação.”
“Não percebo, é um Mestre que reconhecemos, mas as suas extravagâncias minam o seu prestígio.”
“Ouçam: aquele que procura a reputação obceca-se; aquele que tenta mantê-la, preocupa-se e fica angustiado. Quem pelo contrário é indiferente à reputação, vive muito calmo e é feliz. Além disso, a reputação é como um visitante que, antes ou depois, acaba por partir. Mas o que cada um é, isso permanece. Sinto-me bem porque só me interessa o que permanece, não o visitante. Desfruto do que é permanente em mim e o visitante é-me completamente indiferente. Quem não gostar, pode partir em busca de outro mestre.”


JOSÉ MARIA ALVES
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A ILUMINAÇÃO "PATOLÓGICA"

Um homem que passava todos os momentos livres em meditação, estranhando o seu comportamento, consultou um psiquiatra:
“Quando os outros me elogiam, não sinto orgulho; quando falam de mim, não me sinto agraciado. Quando ganho alguma coisa, não me sinto feliz por isso e quando perco não fico triste. A vida e a morte, a riqueza e a pobreza, a fortuna e a desgraça são a mesma coisa para mim. Quando estou em casa sinto-me como se estivesse em viagem e quando estou no meu país sinto-me um estranho. Perdi todo o interesse em me tornar rico ou famoso, não me interessam os títulos, a fama nem a reputação, assim como também não me preocupam as normas nem me interessa a tomada de poder, nem a queda do governo, e muito menos os políticos. E não me afecta o humor dos que me rodeiam. Por causa da minha rara doença não posso continuar no meu cargo público, nem dar seguimento aos meus negócios, nem ser pai de família. Qual é o seu diagnóstico?”
O psiquiatra receitou-lhe meia dúzia de medicamentos, com o intuito de o libertar ou pelo menos aliviar de tão estranha apatia e indiferença...


JOSÉ MARIA ALVES
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AMOR À SOLIDÃO - TUDO É "UM"



Perguntaram ao Sage:
- Porque é que prezas tanto a solidão? Porque é que a procuras com tanta frequência?
- Porque quando estou com a Verdade não há lugar para dois ou mais. É tudo Um.

JOSÉ MARIA ALVES
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NÃO SEI!


IGNORÂNCIA OU SABEDORIA?

O Sage era tido por ter experiências incomuns de envolvimento com o Absoluto, com a “Coisa”, como carinhosamente lhe chamava.
Um dos jovens da aldeia não parava de o questionar:
- Quem é Deus? Como é que o sentiste no teu coração?
- Não sei – respondeu o velho Sage.
- Se se manifestou, qual a razão por que se esconde?
- Não sei.
- Como é que me posso aproximar d´Ele?
- Não sei.
- Porque é que permite tantas injustiças e miséria no mundo?
- Não sei.
- Diz-me pelo menos que n´Ele tudo é Amor e Misericórdia.
- Não sei.
Afinal que sabes tu d´Ele?
- Não sei!

JOSÉ MARIA ALVES
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O DEUS DOS HOMENS


Numa noite de Verão, um homem estava sentado no banco do chafariz, lado a lado com o pároco da aldeia.
Falava de Deus. O pároco estava no mais profundo dos silêncios; era velho, sapiente e tinha a tranquilidade das noites de luar.
O homem depois de muito ter falado, na sua simplicidade, disse:
- Compreendo tudo. Que Deus é Todo-Poderoso, criador dos céus e da terra, das criaturas, do ar que respiramos. Que tudo está sob a sua Vontade. Que não se nos mostra, mas caso queira pode fazer todos os milagres possíveis e imaginários. Mas há uma coisa que me intriga: Quem é que o fez a Ele?
O Pároco não se conteve, e quebrou o silêncio:
- Você mesmo. Pelo menos esse Deus de que está sempre a falar e é construção da sua mente.

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VIAJAR NO MESMO LUGAR


Alguém perguntou ao Mestre o significado de uma frase que ouvira:
“O Iluminado viaja sem se movimentar”.
Disse o Mestre:
- Senta-te à janela todos os dias e observa a paisagem em constante mudança no fundo do quintal, enquanto a Terra te transporta na sua viagem anual ao redor do Sol.

JOSÉ MARIA ALVES
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NÃO TER TEMPO PARA NÃO TER TEMPO



Um jovem da aldeia aproximou-se do Sage, e com alguma timidez e respeito, disse-lhe:
- Há algo que me espanta no Senhor. Tenho-o observado e vejo que todos os seus actos são tranquilos, lentos, sentidos. Nunca o vi apressado ou ansioso. Qual o segredo da sua placidez?
- Não tenho tempo para não ter tempo – respondeu o velho Sage.

JOSÉ MARIA ALVES
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OLHA DENTRO DE TI



Numa noite quente de Verão, o Sage estava sentado no banco de granito que ladeava o chafariz do centro da aldeia, onde o povo se abastecia gratuitamente de água.
Alguns jovens faziam-lhe perguntas:
- Deus existe?
- Foi Ele quem criou o mundo?
- Há vida depois da morte?
- As almas dos justos são recompensadas?
O velho Sage olhou-os compassivo.
Como não lograssem deixar de insistir nas mesmas questões, disse-lhes:
- O que eu faço aqui, nesta noite magnífica, é vender água do chafariz.

JOSÉ MARIA ALVES
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A FÓRMULA TRANSFORMADA EM CRENÇA



Um místico voltava do deserto e ao vê-lo, os amigos perguntavam:
- Diz-nos, por favor, como é Deus?
Mas como poderia ele expressar por palavras, tudo aquilo que acabara de sentir nas profundidades da mente e do coração? Poderia a verdade ser explicada por meras palavras?
No entanto, deu-lhes uma fórmula, inadequada por sinal, esperançado que com ela, alguns fossem tentados a fazer a mesma experiência.
Erro. Da fórmula fizeram um texto secreto e muito especial que impuseram a todos como sendo uma crença obrigatória. Levaram-na até países distantes e derramaram por ela o próprio sangue.
Entristeceu-se o místico, pensando que teria sido melhor que nunca tivesse dito nada.

JOSÉ MARIA ALVES
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ACEITAÇÃO E SENTIDO DA VIDA


Um homem passava os seus santos dias com queixumes constantes. A vida não tinha qualquer sentido; tudo era tédio, infelicidade. Não encontrava prazer, admiração ou espanto em nada.
Quando os amigos lhe perguntavam a razão de tão profunda tristeza, limitava-se a responder de modo taciturno:
- A minha vida não tem qualquer sentido.
Quando apenas lhe parecia restar a destruição, decidiu solicitar auxílio ao velho Sage.
Os primeiros meses pareceram-lhe insuportáveis. O bom do Sage pouco ou nada falava. Aprendeu a olhar para as coisas, único modo de “matar o tempo”.
Decorridos dois anos, voltou à aldeia, onde foi acolhido com alegria e com inúmeras perguntas.
- Agora a tua vida já tem sentido?
- Não, respondeu.
- Perdeste então o teu tempo?
- Não.
- Como assim? Se estás como outrora?
- Agora não busco nada e quando busco não sei o que busco.
Não desejo nada e quando desejo não sei o que desejo.
Tenho paz e tranquilidade, que é independente de tudo o que o quotidiano me traz ou possa trazer.

JOSÉ MARIA ALVES
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A MALGA DA ILUMINAÇÃO


A MALGA DA ILUMINAÇÃO

Um velho monge tibetano atingiu a iluminação.
Todos os noviços o questionavam:
- O que é que se transformou em ti?
Respondeu:
- Percebi a efemeridade da vida, o facto de que quando me levanto posso não chegar ao fim do dia.
- Mas não é isso que toda a gente sabe? – retorquiu um dos noviços.
- Em boa verdade, saber, sabemos, mas muito poucos são os que o sentem.
Durante anos, todas as noites virei ao contrário na pequena mesa que tenho junto da minha enxerga a tigela que habitualmente uso para me alimentar.
A partir do dia em que a iluminação me tocou, nunca mais o fiz.
- Não entendo – volveu o noviço.
- Nessa altura necessitava de algo que me relembrasse que no dia seguinte poderia já não necessitar da mesma.
Agora não preciso mais de malga, sinto apenas.

JOSÉ MARIA ALVES
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OS AMIGOS


Um dos discípulos mais antigos do Mestre, quando este dissertava sobre os inevitáveis relacionamentos a que o ser humano está sujeito, perguntou-lhe:
- Então porque é que não lhe conhecemos amigos?
Respondeu com um sorriso:
- A amizade transformou-se num contrato repleto de cláusulas obrigacionais bilaterais, de expectativas que negam de modo total a essência da afeição. Esta, tal como o amor, não é susceptível de contratualização.
O aluno insistiu:
- Pensa o senhor que não temos necessidade de amigos, da amizade?
Depende – respondeu o Mestre.
- Os tolos não a sabem usar, e os que atingiram a sabedoria dela não necessitam, bastam-se a si próprios.
E isso não é egocentrismo? – replicou outro dos alunos.
- Não, é indiferença afectiva total e gratuita derramada sobre a totalidade da vida.

JOSÉ MARIA ALVES
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QUEM TIVER OUVIDOS PARA OUVIR QUE OIÇA



Um jovem perguntou ao Sage:
- Porque é que te recusas a ensinar muitos dos que te procuram?
- Porque a maioria das pessoas não é suficientemente séria, porque não quer ser ensinada, mas antes um milagre que lhe destrua o sofrimento sem ter que percorrer o penoso caminho da cura.
E terminou a resposta com as palavras de Confúcio:
"Não ensinar um homem maduro é um desperdício do homem. Ensinar um homem ainda não maduro é um desperdício de palavras."

JOSÉ MARIA ALVES
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O VALOR DAS HISTÓRIAS

Não é raro, que uma única história, escrita em poucas linhas, contenha em si mais sabedoria que todos os sistemas filosóficos
JOSÉ MARIA ALVES

PARABÉNS A TODOS VÓS


Um homem de negócios foi visitar o Mestre. Este, era tido como um reservatório imenso de sabedoria, e aquele, apesar de todos os seus afazeres não quis deixar de o conhecer, principalmente para tentar entender o desapego quase total que lhe atribuíam.
Na presença do Mestre, disse:
“Poderás tu dizer-me algo que possa melhorar a minha vida? Sinto que a felicidade me escapa pelos dedos, não obstante tenha tudo o que desejo.”
“Já não és propriamente um jovem. Julgo que deverias dedicar-te um pouco à vida espiritual. A existência é muito mais do que a mera satisfação dos desejos da carne ou da matéria.”
O homem respondeu:
“Tens razão. Mas, o meu quotidiano é uma corrida contra o tempo. Tenho três grandes empresas para gerir, dezenas de lojas espalhadas pelo país, sucursais no estrangeiro, um activo imobiliário imenso, acções e mais de um milhar de empregados. Reuno com políticos, empresários, dou palestras de economia, entrevistas para revistas especializadas e para jornais do mundo inteiro, enfim, para nada mais me sobra tempo.”
Depois de o ouvir, disse o Mestre:
“Estou certo, que quando faleceres, alguém dirá: - Morreu um homem cuja vida foi totalmente preenchida com futilidades e inutilidades. Um homem que em dezena de anos não viveu em boa verdade um único dia. Um homem que viveu uma vida que não mereceu em momento algum ser vivida. Parabéns!”

JOSÉ MARIA ALVES
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BUDA E A VISÃO LÍMPIDA


Conta-se que Buda terá um dia mostrado aos seus discípulos uma flor extremamente bela, pedindo-lhes que dissessem algo a seu respeito.
Depois de a observarem em silêncio durante alguns minutos, um dissertou longamente sobre a sua beleza, comparando-a à Criação, outro compôs um poema e o terceiro uma parábola, cada um mais preocupado em agradar pela eloquência do que propriamente pela satisfação contemplativa.
Mahakashyap olhou-a, sorriu e não disse nada.
Apenas este a viu.

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"ASSIM SEJA, ASSIM SEJA"


Numa aldeia, havia uma jovem solteira e bastante bela. A sua família apesar de pobre, procurava que o comportamento dos seus membros fosse irrepreensível. No entanto, a jovem engravidou, escondendo o seu estado até que se tornou perfeitamente visível e inequívoco.
O pai, homem grave e algo rude, chamou o médico da vila mais próxima, que lhe confirmou as suspeitas. A partir daí, questionou-a centenas de vezes quanto à identidade do pai da criança. Mas por resposta apenas tinha choro e silêncio. A jovem estava numa angústia de morte e recusava-se a falar.
Nada mais lhe restava. Teria de agir pela força. Por via desta, após múltiplas agressões, a jovem confessou que o pai era o monge budista, que estava no templo em meditação constante.
A notícia depressa se propagou na aldeia, com a consequente consternação de uns e indignação de outros, que julgavam o bom monge um santo.
Os pais acompanhados por muita gente da aldeia irromperam no templo, e injuriaram o monge. Não era possível, mesmo impensável, que um homem tão respeitado pudesse ter sido consumido pelos desejos da carne e abusado depravadamente de uma jovem, violando a Santa Regra e os mais básicos princípios éticos. Disseram-lhe, depois de terem esgotado todas as humilhações:
“Sendo o pai da criança, terás de assumir a sua educação e alimentação.”
“Assim seja, assim seja” – respondeu o monge.
Quando o bebé nasceu entregaram-lho, e o monge, por sua vez, confiou-o a uma mulher da aldeia, a troco de uma retribuição acordada.
A partir deste momento a sua reputação ficou completamente destruída. Nenhum aluno o procurou, ninguém quis voltar a ouvir as palavras que haviam julgado sábias. Como é que um pecador podia dissipar as suas dúvidas ou auxiliá-los na busca da Verdade?!
Ainda não tinha decorrido um ano, e a moça cheia de remorsos e sentimentos de culpa, confessou que o monge não era o pai da criança, mas antes um jovem da aldeia por quem se apaixonara, e que não quis incriminar com receio de represálias exercidas sobre o mesmo.
Pais da moça e restantes habitantes da aldeia, arrependidos das acusações falsas que haviam proferido, foram penitenciar-se junto do monge, suplicando-lhe o perdão, e que devolvesse a criança, por não ser sua filha.
“Assim seja, assim seja” – respondeu o monge, retomando de imediato a meditação que interrompera.

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NÃO DISTINGUIR O BEM DO MAL


No mosteiro, um dos monges mais novos, foi apanhado a furtar em flagrante delito.
O facto, por anómalo, foi narrado ao Mestre. Todos aguardavam a expulsão do infractor.
O Mestre limitou-se a ignorar o acontecimento. Os restantes discípulos, indignados, dirigiram-se-lhe ameaçando-o com o seu abandono do mosteiro, caso o delito não fosse devidamente punido.
Disse-lhes o Mestre:
“Pelos vistos, vós sois sábios, capazes de distinguir o bem do mal, o que está certo do que está errado. Podeis ir para qualquer outro lugar praticar o Zen, ou praticá-lo por vós mesmos, se assim o desejardes. Mas, o que será deste nosso pobre irmão, que não entende algo aparentemente tão simples como o certo e o errado? Quem o aceitará para o ensinar? Quem o ensinará se eu o não fizer? Parti se assim vos aprouver, mas este irmão fica. O meu dever para com ele é bem maior do que para todos vós.”

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A ESTRATÉGIA DOS ASTUCIOSOS


Dois carneiros lutavam exaustos
Em acesa contenda.
Um lobo assistia deliciado e pensava:
“Lutem, lutem até ao desfalecimento,
Que logo sereis minha presa.”

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VOLÚPIA E DESEJO


Dois monges dirigiam-se
Por caminho enlameado
Para o mosteiro.
A chuva caía pesadamente
Rolando pelas encostas do céu.
Perto de um rio de águas caudalosas
Avistaram uma jovem de beleza inigualável.
Não se aventurava a atravessar o rio
Que parecia enfurecido.
Um dos monges pegou-lhe ao colo
E atravessou-o.
O outro, no trajecto restante
Instava-o:
- Como pudeste quebrar a Santa Regra?
Não sentiste tu na carne
A volúpia, o desejo
Que nos aniquila e destroça?
O outro monge quedava-se calado,
Mas a tanta insistência disse:
- Eu deixei-a na outra margem
Há muito tempo atrás.
Porque é que tu ainda a carregas?

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NASRUDIN, O DERVIXE E AS UVAS


Tarde quente de Agosto.
Na estrada fervente
Nasrudin vê um homem
Com um grande cacho de uvas.
Um pouco de vassalagem seria útil
Se tal fizesse com que algumas obtivesse.
“Grande Sheik, dás-me algumas das tuas uvas?”
“Não sou Sheik”, disse o dervixe,
Homem simples e sem pretensões.
O Mullá pensou estar
Perante homem de maior importância
E de grande valia.
“Alteza, dais-me um pouco das tuas uvas?
Alguns bagos serão bastante.”
“Não sou Alteza”, volveu já agastado.
Nasrudin confundido, disse:
“Bom, não me digas quem és
Nem o que és.
Não importa,
Senão ainda vou descobrir que o que trazes
Não é um cacho de uvas.
Falemos de outras coisas.”

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NASRUDIN E O FALCÃO


Nasrudin encontrou um falcão,
Ave que nunca houvera visto
Repousando no seu quintal.
Nisto,
Cortou-lhe o bico,
Aparou-lhe as garras
E penas.
“Agora sim, Nasrudin”, pensou,
“Temos pássaro.”

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NASRUDIN ENLOUQUECE, MAS NÃO TANTO ASSIM...


A mulher de Nasrudin jazia agonizante no seu leito.
Este tentava consolá-la minimizando o seu sofrimento. As suas palavras eram dóceis e de esperança e os seus olhos brilhantes de lágrimas sorriam enganadoramente.
Nisto, a companheira disse-lhe numa voz débil:
-Estou convicta de que esta será a minha última noite contigo. A minha partida está eminente, já não verei a aurora.
Como é que vais aceitar a minha morte?
-Vou dar em maluco, mulher – respondeu Nasrudin.
Apesar do sofrimento atroz, a dedicada e fiel esposa não conseguiu deixar de esboçar um sorriso, dizendo:
-És um bom malandro. Não me enganas Nasrudin, conheço-te como às minhas mãos. Não passará um mês sobre a minha morte, que não estejas casado de novo.
-Que dizes mulher?! – exasperou-se o pobre Nasrudin –, enlouquecerei mas não tanto assim!

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NASRUDIN E O ALVO ILUSÓRIO


Nasrudin viu um vulto branco no jardim.
Sorrateiramente empunhou o seu arco
Atingindo-o com flecha certeira.
Saiu para ver e voltou lívido.
A mulher questionou-o:
“Que se passou?”
“Foi por pouco.
Imagine que acertei bem no coração
Da camisa branca que estava a secar.
Se eu estivesse nela, já teria morrido.”

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NASRUDIN SALVADOR


Nasrudin corria ofegante
E no caminho encontrou um amigo:
“Peço-te um favor.”
“Claro Mullá, o que é?”
“Vai até àquele poço,
Caiu nele um homem.
Vou procurar uma corda
Diz-lhe que não vá embora
Até que eu volte.”

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NASRUDIN E OS CABELOS BRANCOS


Nasrudin era criança.
Perguntou ao pai:
“Porque é que o seu cabelo está a ficar branco?”
“Por causa de filhos como você.
De seus actos
E perguntas, quer difíceis
Quer extravagantes.”
“Ah!, percebo.
Por isso os cabelos do avô,
São todos brancos.”

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NASRUDIN E "HALWA"



Falava-se de “halwa”
O mais doce dos doces árabes.
Nasrudin quedava mudo.
Perguntaram-lhe:
“E você Nasrudin, que nos diz?”
“Eu nunca fiz halwa em casa.”
“Como é possível Nasrudin?
Não há ninguém que não tenha feito.”
“Nunca tenho açúcar, farinha e manteiga
A um mesmo tempo.”
“Certamente alguma vez terá tido?”
“Certamente,
Mas dessa vez não estava em casa,
Estaria fora.”

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NASRUDIN E A VISITA À CAPITAL


Nasrudin visitou a capital.
Quando voltou os habitantes da aldeia
Cercaram-no de perguntas.
“Que viste tu?”
“Que fizeste?”
“O que é que foi mais importante para ti?”
“Mais que ver foi o que ouvi
Que deveras me marcou,
Quando o próprio rei comigo falou.”
Os ouvintes ficaram satisfeitos.
Apenas um, o menos expedito,
Ficou e perguntou:
“O que te disse o rei?”
“Cruzou-se comigo
E em alta voz bradou:
-Sai do meu caminho!”
O aldeão deu-se por contente.
Tinha ouvido pela boca de outrem
Palavras de Sua Majestade.

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NASRUDIN E A PREOCUPAÇÃO


Não se sabia onde estava o burrico de Nasrudin.
Os campónios da aldeia procuravam-no.
Nasrudin não parecia preocupado
Mais parecendo os que o buscavam.
Um dos que auxiliavam disse:
“Não pareces constrangido
Nem sofres com a eventual perda.
É assim, ou engano-me?
“Enganas-te amigo.
Quando procurarmos nas montanhas
Que vemos no horizonte
E não o encontrarmos,
Então, começarei a ficar apreensivo.”

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NASRUDIN E A MALDIÇÃO DOS DERVIXES


Um amigo fez constar a Nasrudin
Que falar mal de dervixes
Faria cair uma maldição sobre quem o fizesse.
“Nada disso, asneira”, afirmou o Mullá.
Do bolso tirou uma pequena caixa
De onde tirou um sapo.
“Vejam.
Este é meu irmão.
Criticou um dervixe,
Mas tem saúde,
Come pouco
E pode viver mais de cem anos.
Está bem melhor do que estava.”

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NASRUDIN E A TEIMOSIA


Nasrudin estava cansado de alimentar o burro.
Pediu à mulher que o fizesse
O que ela negou.
Depois de muita discussão
Decidiram:
O primeiro a falar
Teria de alimentar o jumento.
Nasrudin sentou-se no sofá
E a mulher foi ao mercado.
Entretanto, um larápio
Entrou em casa
Furtando tudo o que havia para furtar.
O Mullá viu,
Mas manteve-se quedo e mudo
Para a promessa não quebrar.
A mulher retornou a casa
E perante tal aparato
Começou a injuriar o marido
Que impávido lhe disse:
“Vai dar comida ao burro
E vê no que deu a tua teimosia.”

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NASRUDIN E A FRAQUEZA DE REIS E GOVERNANTES


Nasrudin visitou o rei
Trajando fantástico turbante.
Estava convencido de que lho poderia vender
Arrecadando umas quantas moedas de ouro.
Sua Majestade reparou nele e perguntou:
“Quanto pagaste pelo turbante?”
“Mil moedas meu rei.”
O vizir segredou ao amo:
“Só pode ser tolo.
Ninguém pagaria tal maquia.”
“Porquê? É a primeira vez que tal ouço.
Nunca vi peça por tal quantia”, disse o rei.
“Saiba Majestade, que o comprei
Sabendo que em toda a vasta Terra
Apenas um rei o compraria.”
Encantado com tal elogio
Ordenou a entrega de duas mil moedas a Nasrudin.
Dias após, este disse ao vizir:
“Conheces o valor dos bens,
De mantos e turbantes,
Mas sou eu que conheço a fraqueza dos reis.”

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NASRUDIN E O LOBO


Nasrudin e um amigo procuraram a toca de lobo.
Pretendiam um filhote.
O Mullá, assomou à entrada
E foi acometido por feroz animal.
Iniciou-se luta infernal
E no meio desta,
Gritou o amigo:
“Pare, Mullá.
Deixe de correr e de saltar,
Já estou meio coberto de terra.”
Respondeu Nasrudin:
“Não mo diga a mim.
Se parar
Ficará coberto por inteiro.”

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NASRUDIN, O SOFRIMENTO E A REALIZAÇÃO DE UM DESEJO


Nasrudin tinha um búfalo
Com dois largos e longos chifres.
Uma das suas antigas fantasias
Era sentar-se neles
Como um rei no seu trono.
Certo dia não resistiu.
Mas, assim se sentou
Assim foi lançado ao ar,
Arremessado como leve pena.
Enquanto inconsciente da queda
Chorava sua mulher.
Nasrudin, retomou a consciência e disse:
“Não chore.
Se tive algum sofrimento
Também um desejo realizei.”

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NASRUDIN, OS MEIOS E OS FINS


Um homem lamuriava-se
Por lhe terem roubado elevada quantia.
Nasrudin, disse:
“Alá te acudirá.”
“Será?”, questionou duvidoso.
“Vem comigo à mesquita.”
Nesta, o Mullá estendido e aos brados,
Pedia a Deus que restituísse o dinheiro furtado.
O alarido era de tal monta
Que os fieis incomodados
Decidiram angariar o montante desaparecido.
Nasrudin filosofou:
“Provavelmente não entendes os meios
que movimentam e equilibram o mundo.
Mas os fins compreendes,
Quando tão directos assim.”

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NASRUDIN E OS TRÊS SÁBIOS


Três religiosos, meio sábios, meio místicos,
Conhecendo Nasrudin
E ouvindo falar dos seus poderes,
Quiseram testá-lo.
Perguntou o primeiro:
“Onde está o centro do mundo?”
Nasrudin, indicando o jumento disse:
“No ponto em que pisa a pata dianteira,
A pata direita.”
“Será? Como sabe? Pode prová-lo?”
“Se não crê em mim, meça-o.”
Perguntou o segundo:
“Quantas estrelas existem no céu?”
“Tantas quantos pelos tem o meu burro.”
“Como o pode saber?”
“Se não crê em mim, conte-os você.”
O terceiro nada perguntou...

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O QUE HÁ DE MAIS VALIOSO NO MUNDO


Um santo hindu na sua peregrinação pela Índia aproximou-se de uma aldeia e sentindo-se exausto deitou-se à sombra de uma árvore.
Nisto, surgiu um dos habitantes da lugarejo, visivelmente excitado, que o acordou dizendo:
“Desculpa interromper o teu sono, mas peço-te que me dês a pedra que tens.”
“Qual pedra?” – perguntou-lhe o santo homem ainda estremunhado.
“A pedra que encontraste. Ontem à noite, Shiva em sonhos, disse-me que se viesse a este lugar encontraria um homem que me ofereceria uma pedra preciosa, cujo tamanho e valor me tornariam num dos mais ricos da região.”
O santo retirou da sua sacola uma pedra de consideráveis proporções, em bruto, e mostrou-a ao aldeão.
“É esta pedra a que te referes?” – perguntou. “Encontrei-a ontem por mero acaso numa vereda.”
“É essa, é essa! Meu Deus, que beleza, fantástico.”
“Ofereço-ta. Sê feliz.”
O aldeão olhava para o diamante estarrecido. Nunca se vira nada assim. Agarrou-a com as duas mãos, agradeceu mil vezes ao santo, e partiu na direcção da aldeia, pleno de júbilo.
Durante a noite, tal era a sua excitação, não conseguia dormir. Já passava da meia-noite, quando impaciente se levantou e foi ter com o santo, voltando a acordá-lo.
“Que queres tu agora?”.
“Quero que me dês o que te permitiu desfazer sem mais de uma pedra tão valiosa.” – disse.

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A GOTA DE ÁGUA


Uma pequena gota de água da chuva caiu de uma nuvem, no mar azul e extenso.
Confusa, sentindo-se ínfima, insignificante, questionou-se:
“Quem é o mar e quem sou eu?
Onde está o mar
E onde estou eu?
Comparando-me com ele
Certamente que não existo.”
Enquanto reflectia, uma ostra tomou-a no regaço
Transformando-a na pérola
Mais bela e admirada.

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VER A DOBRAR


Um lojista tinha um jovem aprendiz, que por defeito de visão via todas as coisas a dobrar.
Certo dia, ordenou-lhe que fosse ao armazém e trouxesse um garrafão de azeite da prateleira dos fundos.
O jovem foi, para logo de seguida retornar, questionando-o:
“Existem dois patrão, qual deles trago?”
Este, enfadado do constante defeito, respondeu:
“Parte um e traz o outro.”
Cumprindo o que lhe havia sido ordenado, voltou de mãos vazias.

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O "NADA"


Um monge muito jovem, dirigiu-se ao Mestre Chao-chou, e com enorme alegria disse:
“Já nada tenho. Desfiz-me de tudo. O meu coração está apaziguado e a minha mente serena.”
“Desfaz-te disso, então, e atingirás o Zen.”
“Nada mais tenho, Mestre, de tudo me desfiz, de que me hei-de desfazer mais?!”
“Se assim o queres, fica com esse Nada que carregas...”

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UM MESTRE É UMA ESPÉCIE DE SINO


Um noviço perguntou:
“Como poderei eu assimilar de modo correcto e útil, vossos ensinamentos?”
Respondeu o Mestre:
“Pensa em mim como pensas num sino. Se me deres um toque suave, a minha resposta será um leve tinido. Se o toque for vigoroso, receberás alta e contínua badalada.”

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O ERRO FUNDADO NA TRADIÇÃO


No mosteiro havia um gato, que na hora destinada à meditação, importunava os praticantes.
O Mestre ordenou que fosse preso durante esse período.
Volvidos anos, faleceu o Mestre, e o gato continuou a ser imobilizado.
Também o gato morreu, e logo foi substituído por um outro, que continuou a ser amarrado.
Séculos passados, eruditos escreveram obras imensas sobre a importância e necessidade de se amarrar um gato durante a prática da meditação.

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DIFICULDADE EM MEDITAR


Um noviço queixou-se ao Mestre:
“Como se está a tornar difícil meditar. Ou me distraio, ou partes do corpo, em especial as pernas são assoladas por dores terríveis. Por vezes, invade-me uma sonolência letal, que me obriga a dormir. Estou plenamente desiludido comigo mesmo.”
“Verás que tudo isso é passageiro”, respondeu o velho Mestre com suavidade.
Decorrido algum tempo, retornou o noviço:
“Mestre, que felicidade a minha. A mente atingiu um estado de suprema tranquilidade. Meu corpo não tem dores e está perfeitamente descontraído. Sinto-me em paz, em união com todos os seres, com o Universo, um estado de maravilha constante.”
“Isso também te passará.”

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